O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger

 


| Por Raphael Pellegrini | 

Holden é fajuto, mas isso não é novidade, ele mesmo assume quando diz que é um mentiroso esplêndido e cria a arapuca mais velha do que andar pra frente do narrador não confiável. O ponto interessante na fajutice nesse começo de livro é que a construção da narrativa funciona para a suspensão de estados distintos sem uma resolução nítida. 

Veja o prof. Spencer. O sujeito é velho, está doente, não mora na escola rica que Holden tanto fala mal e tenta colocar algum juízo na cabeça do nosso amigo. Holden afirma que a cama do professor é dura, parece cimento, quando senta por um breve momento — até esse momento na leitura, não saquei nenhuma intenção direta do nosso amigo de atirar seu principal adjetivo nas costas do velho professor de história acamado. 

Note alguns dos elementos contraditórios citados nesta visita: uma cama dura a qual o professor doente dorme e se recupera fisicamente todos os dias, um discurso do professor acerca de responsabilidade — Holden foi expulso depois de reprovar em todas as matérias, menos inglês; por outro lado, Holden mente, dissimula e se sente incomodado pela dureza do assento. Holden não é um cara durão, é macio demais para uma vida que vai te fazer dormir no duro. Por isso Holden mente o tempo todo, quando poderia pelo menos assumir o peso de suas más escolhas. O que nos leva a desfazer a afirmação de que ele é um ótimo mentiroso, porque no fundo Holden só nos mostra o tempo todo que é um fajuto.





Como seria o modo pão com manteiga de contar um momento da vida de um personagem: um narrador em que não se tem muito motivo para se desconfiar fala da relação de um personagem adolescente com seu falecido irmão mais novo. Como Holden conta: 

Depois de ser reprovado em História e todas as outras matérias — menos inglês — e se assumir um belíssimo mentiroso, nosso amigo conta do surto que o acometeu no dia da morte do irmão ao usar essa narrativa pessoal num trabalho de História que escreve para um amigo — um cara bem garanhão que precisava de um trabalho para o dia seguinte enquanto saía com uma menina que Holden tinha certa atração; Holden sabia desse encontro. Esse trabalho tinha uma regra: precisava ser descritivo, bem descritivo, não argumentativo ou apelativo; era para descrever em detalhes algo, o que Holden não faz em momento algum da história — até aqui. Veja, a história do irmão de Holden tá longe do leitor, a narrativa que seguimos ouvindo afasta esse momento da gente, porque a gente não lê o trabalho, o que também não adiantaria muito, já que nosso amigo muda os nomes para que não saibam que o irmão era dele.

Para falar dos detalhes de si, Holden tira sua autoria e apaga as identidades, e a gente finge que acredita que é somente para não ser pego fazendo trabalho para os outros. Nessa narrativa fora do mundo, que não diz respeito a ninguém, parece que a dureza da história mais uma vez bate em nosso amigo, que tenta escapar pela tangente.




Imagine que as regras do futebol fossem distorcidas um pouco e que, a cada gol de um time, se ganhasse o direito de colocar um jogador a mais no campo. Imagine agora que alguém decide que, em vez de botar esses jogadores extras na partida, vai os deixar enfileirados na linha de fundo. Essa é a imagem que Holden faz de Jane, a menina que não usa suas damas. O que fica no ar é:

Jane é tão exímia jogadora que pode ostentar suas damas e mostrar seu poder como forma de intimidação e ainda vencer o jogo? Ou Jane é boa o suficiente para fazer uma fila de damas e inferiorizada o suficiente para não trucidar o adversário e abdicar de toda sua potência?





Mas afinal, por que tudo parece fajuto pra Holden? Uma das pistas que fui seguindo tem a ver com a dimensão histórica. Veja, a atitude de Holden de denunciar uma norma de comportamento vigente no seu tempo — algo mais normal do que tudo para jovens —  reforça que há um pensamento divergente do estabelecido. Mas o estabelecido que Holden recebe na sua criação são valores de antes da segunda guerra. Sua permanentemente crítica parece reforçar que é necessário deixar tanta fajutice de lado no pós-guerra. Assumir nossas distorções e problemas para limpar a bagunça deixada pela primeira metade do século. E é aí que a narrativa dá o nó bastante interessante, porque o modo de Holden sugerir isso é retomar o mesmo comportamento de todos os tempos, chamar todo mundo de hipócrita e negar absolutamente tudo que diga respeito ao passado. Talvez por isso ele tenha tantos problemas com a reprovação em História e com o peso do passado. Holden faz o mesmo que todos os jovens em todos os tempos, mas espera um resultado diferente. Holden faz da história a voz de Cassandra; pela cegueira de si, ao não se perceber preso a seu tempo, se torna cego para o mundo e reproduz com ares de esperteza o esperado, o estabelecido, deixando mais dúvidas: é proposital sua postura? É apenas uma forma de reclamar por não ter tanto sucesso quanto alguns outros? Ou se dá porque como todo jovem nessa fase  — e para o restante da vida — Holden ainda não sabe lidar com habilidade com tudo que há no mundo?




Eu estava seguindo com Holden, ele tinha largado a escola e se hospedado naquele hotel meio caído. Quando avancei e li a cena com as três mulheres sentadas à mesa ao lado, fui até o final desse momento da narrativa e fechei o livro. Tinha algo ali que não funcionava, que eu estava perdendo bem debaixo do nariz. Tipo uma conexão, algo não muito explícito, mas que me lembrava de algo. Então parei tudo e fui fazer qualquer trabalho braçal que não me impedisse de coçar a pontinha solta do nó até vir o primeiro fio. Bem, vamos a ele:

E eis que, ao encetar a rampa certa,
uma onça ligeira e desenvolta,
de pelo maculado recoberta,

saltando à minha frente e à minha volta,
tanto me obstava a via do meu destino
que mais vezes voltei-me para a volta

Amanhecia, e no céu cristalino
o sol subia co' essas mesmas estrelas
que o acompanharam quando o amor divino

primo moveu todas as coisas belas.
Pra não temer, davam-me assim razão
a fera do gracioso pelo, aquelas

matinais horas e a doce estação;
mas não tanto que medo não me desse
a vista, que surgiu-me, de um leão

que parecia contra mim viesse
co' a fronte erguida e com fome raivosa,
parecendo que o próprio ar o temesse;

e de uma loba, de cobiça ansiosa,
em sua torpe magreza, carregada,
que muita gente a vida fez penosa.

Sim, as três bestas que impedem Dante de seguir adiante, presentes logo no Canto 1 da Comédia. Depois de se perder numa selva escura, Dante é ameaçado pelas três bestas. No canto, não há como avançar e nem como retornar, o que faz o poeta perder completamente suas esperanças.

Essa tornou-me a alma tão pesada,
pelo pavor manante de sua vista,
que perdi a esperança da assomada.

Agora note a cena de Salinger e as coincidências. Comecei a dar uma sacada de novo nas três feiticeiras da mesa ao lado. Ou seja, na loira. As outras duas eram estritamente espeto. Só que eu não fiz nada grosseiro. Só mandei nas três um olhar bem sofisticado e tal. Mas o que elas fizeram, as três, quando eu olhei, foi que elas começaram a rir que nem umas tapadas."
O riso das três, que deixa Holden zangado, porque interpreta que a risada é devido a sua idade e não que há uma presa nova na arapuca, parece a comemoração pelo sucesso da empreitada. O garoto se perdeu na selva escura, e não vai escapar das três. Segue desse momento os seguintes movimentos de Holden:

"Finalmente a loira levantou pra dançar comigo, porque dava pra você ver que eu estava era falando com ela, e a gente foi até a pista de dança. (...) Mas valeu a pena. A loira dançava que era uma beleza. Era uma das melhores dançarinas com quem eu dancei na vida."
"Eu dancei com todas — todas as três —, uma de cada vez. A feiosa um, a Laverne, não era das piores dançarinas, mas a feiosa dois, a nossa amiga Marty, era uma catástrofe."
"A nossa amiga Marty era como arrastar a Estátua da Liberdade pela pista. O único jeito de eu me divertir nem que fosse um tiquinho arrastando aquela ali de um lado pro outro era se eu brincasse um pouco. Então eu disse pra ela que tinha acabado de ver o Gary Cooper, o astro de cinema, do outro lado da pista. (...) Ela praticamente parou de dançar, e começou a olhar por cima da cabeça de todo mundo pra ver se conseguia enxergar o Gary Cooper."

Olhando com cuidado dá para notar que a loira, a primeira a dançar com Holden, é a fera ativa, a que mais chama a atenção do garoto. Sobre a segunda, Holden não nos fala muito, diz apenas que não era das piores, mas da terceira há um ponto importante. Marty é movida por um desejo fútil de ver astros do cinema, de modo que durante a dança Holden zomba de seu comportamento soltando essa cascata. Para juntar duas cenas, a de Holden e o trecho da Comédia, trago um trechinho do capítulo "O que podemos possuir", de Uma História Natural da Curiosidade, em que Manguel explica o sentido das feras que Dante encontra no começo de sua jornada.

A relação é bem próxima ao comportamento das três damas de Holden.

"A primeira fera, o leopardo ou a pantera, 'leve e muito ágil, coberta de um manto mosqueado', é, segundo a tradição latina, como os cães do desejo, familiares de Vênus, e portanto, no bestiário de Dante, uma alegoria da luxúria, a tentação que nos assalta em nossa autoindulgente juventude."
"A segunda, o leão, 'cabeça ereta e com rábida fome', não é a fera emblemática de São Marcos mas está lá como símbolo do orgulho, o pecado dos reis, que nos assedia quando adultos."
"A terceira é a loba. (...) os pecados da loba são os da cupidez, o anseio por coisas vãs, a busca por riqueza terrena acima de todas as promessas de céu."

Não é de se surpreender que Holden não escape da selva, já que não há uma Beatriz e nem Virgílio para salvá-lo. Como desfecho, Holden afirma:

"Com os cigarros e tal, a conta deu umas treze pratas. Acho que elas deviam pelo menos ter se oferecido pra pagar o que tinham bebido antes de eu sentar com elas — eu não ia ter deixado, claro, mas elas deviam pelo menos ter sugerido."




Classe e o capítulo 15

Holden é integrante da elite americana, e você sabe disso desde a primeira linha. Holden questiona o comportamento dos pais e de todo mundo, exigindo algum tipo de equilíbrio entre palavras e ações. Bem, duas cenas chamam atenção nesse capítulo. A primeira é quando Holden fala sobre as malas de um ex-colega de quarto, malas de qualidade inferior que o deixavam chateado, porque as dele eram de primeira. O colega guardava embaixo da cama, enquanto Holden deixava sobre o armário à vista de todos. Quando o rapaz o impede de colocar suas malas também debaixo da cama, Holden acha que é porque o garoto queria tirar onda dizendo que as malas caras eram suas, mas nitidamente para mim o que fica evidente era que o rapaz queria deixar bem visível a diferença de classe, de poder. Holden não questiona seu privilégio, não percebe que a quantidade de dinheiro que o cerca é desproporcional. Ou talvez perceba e por isso fique tão incomodado. Holden não debate com o colega sobre as diferenças estruturais — pelo menos não nos conta —, só diz que o colega chamava as coisas dele de burguesas.
Em seguida, o mesmo ocorre quando se encontra com umas freiras enquanto toma café. Holden fica chateado pra burro com o tipo de mala das freiras e com o quanto de dinheiro doa para a caridade — uma quantia alta para a época ($10). Termina o capítulo quase confessando a dificuldade de colocar o elefante branco na sala debaixo do tapete: "Desgraça de dinheiro. Sempre acaba te deixando triste pra diabo."





Se até agora eu venho pegando no pé do Holden, sinto que é necessário pontuar um traço que notei no fim do capítulo 17. Eu já falei sobre a questão do passado, da primeira metade do século, da Segunda Guerra Mundial - pensa na quantidade de garotos da idade de Holden que perderam a vida - e seu peso, falei de assumir suas próprias fajutices e tudo mais. Mas o ponto nesse momento na história é que Holden parece preso num entrelugar, uma fronteira sem identidade formada (o que na construção da narrativa é perfeito, já que nosso amigo está exatamente na idade do entrelugar). Os valores do passado não servem para Holden, tampouco aqueles que sinalizam para o futuro.

Na narrativa, Salinger constrói um jovem que não é mais criança, mas também não é adulto, está no entre, na crise. Essa escolha de Salinger faz com que o texto aprofunde a dimensão da fronteira, da indefinição tanto pelo caminhar na narrativa como por sua estrutura. Veja, Holden narra a história pouco tempo depois desses dias fora da escola, ele ainda está na crise, tentando ficar bem, se acertar - o que pode ser visto como ocupar um território definido, e não um espaço de fronteira, de borda. Essa escolha opera na história intensificando o sentimento de vazio do personagem, porque não é só o que ele vive que o coloca nesse não-lugar, ele próprio é o não-lugar.


Ainda há muito mais o que falar desse livro, mas já me prolonguei demais, e Drummond vem pedindo passagem. :)



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