Cotidianices #1 | Como arrumar uma estante?

 



| Raphael Pellegrini |

Já fizemos muitas arrumações na biblioteca aqui de casa: ordem alfabética de autor ou título, editoras, bagunça casual com estilo arrumadinho para foto, ordem de chegada... Mas a última, a qual essa foto corresponde, é por editoras. O motivo desse predileção é que temos o costume de tomar o livro por seu "título/autor + editora" como um pacote único. Ao falar de um livro sempre dizemos o título ou o autor e a editora que temos a edição. Por exemplo: O Grande Gatsby da Penguin; O Olho Mais Azul da Companhia; O Salinger da Todavia; Anna Kariênina da Cosac. Isso é um pouco parecido com a nossa dificuldade de separar, em muitos casos, o nome do sobrenome de pessoas famosas. Vladimir Brichta não é Vladimir, é Vladimirbrichta; Lázaro Ramos não é Lázaro, é Lázarorramos tudo junto. Logicamente que isso da biblioteca cria algumas peculiaridades, como a pobre da Alice Munro (da Companhia e da Biblioteca Azul) ter sua obra partida  parte na seção da Companhia, que fica em uma estante, parte na Biblioteca Azul, que fica em outra. O mesmo acontece com Jhumpa Lahiri e Cortázar, que nem ficam no mesmo cômodo com seus pares.

Pensando nisso, depois de tirar essa foto, lembrei do trecho do Amós Oz da Companhia, do livro De Amor e Trevas  fantástico, leiam e vejam o filme com Natalie Portman —, quando o pai cede a ele um pedacinho de uma prateleira da estante para, pela primeira vez, poder guardar seus livros junto com todas as outras obras de casa. É um daqueles trechos inesquecíveis, uma cena precisa e linda que deixamos abaixo.

Quando eu tinha uns seis anos de idade, chegou o grande dia para mim: papai esvaziou um cantinho da uma de suas estantes e permitiu que eu transferisse meus livros para lá. Para ser mais preciso, ele me deu uns trinta centímetros, mais ou menos a quarta parte da prateleira mais baixa. Abracei meus livros, que até então viviam deitados sobre o tapete, ao lado da minha cama, e os carreguei até a estante de papai e os arrumei em pé, as costas voltadas para o mundo exterior, e a frente, para a parede.

Aquele foi um ritual de iniciação, o verdadeiro rito de passagem para a idade adulta: o indivíduo cujos livros ficam de pé já é um homem, não mais uma criança. Agora eu era como meu pai. Meus livros estavam de pé.

Cometi um erro terrível. Meu pai foi trabalhar, e eu estava livre para fazer no meu espaço da estante tudo o que quisesse. Mas eu tinha ideias completamente infantis sobre como fazer as coisas. Aconteceu, então, que arrumei meus livros pela altura. Os mais altos eram justamente os que empurravam mais para baixo meu amor-próprio — eram livros infantis, com sinaizinhos indicando as vogais, em versos, ilustrados, que eram lidos para mim quando eu era bebê. Coloquei-os na estante, porque queria preencher completamente todo o espaço que me havia sido cedido na prateleira. Quis que o meu cantinho de livros ficasse repleto, abarrotado, transbordando, como o de meu pai. Ainda estava tomado de euforia quando meu pai chegou do trabalho. Lançou um olhar surpreso para minha prateleira, e depois fitou-me longamente, em absoluto silêncio, de um jeito que nunca vou esquecer: era um olhar de desprezo, de profundo desapontamento, que ia além de qualquer coisa que pudesse ser expressa por palavras, quase um olhar de total desespero genético. Por fim, sibilou entre dentes: “Diga-me, por obséquio, você está maluco? Pela altura? Por acaso os livros são soldados? Ou algum tipo de guarda de honra? É o desfile da banda de bombeiros?”.

E se calou. Fez-se um silêncio longo e terrível. Um silêncio tipo Gregor Samsa, como se eu tivesse me transformado numa barata bem na sua frente. De minha parte também houve um silêncio, culpado, como se eu fosse de fato um mísero inseto e só naquele momento o tivesse percebido, e dali em diante tudo estivesse perdido para todo o sempre.

Ao final do silêncio, meu pai me revelou, ao longo de vinte minutos, todos os fatos da vida. Não escondeu nada. Introduziu-me em todos os segredos mais ocultos e recônditos da biblioteconomia. Descortinou ante meus olhos ávidos desde as vias principais até os atalhos nos bosques, do panorama estonteante das variações às nuances, fantasias, vias remotas, sistemas ousados e mesmo excentricidades caprichosas. Podemos arrumar livros pelos títulos, pelos nomes dos autores em ordem alfabética, por editoras, pela cronologia, por idiomas, pelo gênero e pelo assunto, e até pelo local em que foram impressos. Um leque de alternativas.

Foi assim que aprendi os segredos da diversidade: a vida é feita de diversas trajetórias. Tudo pode acontecer de um jeito ou de outro. Por sistemas diversos e por lógicas paralelas. Cada uma das lógicas aceitas é uma lógica consistente com sua própria visão, completa e coerente em si mesma, indiferente a todas as demais.

Nos dias que se seguiram passei horas e horas organizando minha pequena biblioteca — vinte ou trinta livros, que eu arrumava e desarrumava como as cartas de um baralho, arranjava e voltava a arranjar por todo tipo de lógica e segundo todo tipo de gosto.

Assim aprendi com os livros a arte da composição: não pelo que estava escrito neles, mas por eles mesmos, pela sua própria natureza física. Os livros me ensinaram sobre as regiões vertiginosas dessa terra de ninguém, ou zona de sombra, entre o permitido e o proibido, entre o legítimo e o excêntrico, entre o normativo e o bizarro. Essa lição tem me acompanhado por todos esses anos. Quando cheguei ao amor, já não era um recruta inexperiente, sabia que existem diversas combinações possíveis. Há a autoestrada, há as estradas panorâmicas e há as sendas perdidas, quase inexploradas, que o pé do homem raramente palmilhou. Há o permitido que é quase proibido, e há o proibido que é quase permitido. Tem de tudo.


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