Alguma Poesia, de Carlos Drummond de Andrade




Minha passagem de Alguma Poesia para O Brejo das Almas trouxe uma boa mudança no tom de Drummond. Mesmo que eu saiba que existe algum "consenso" de que O Brejo carregue muito de Alguma Poesia - frente a grande mudança que ocorre em O Sentimento do Mundo - quando comparando somente essas duas obras, percebi certas mudanças bastante perceptíveis no tom e na relação com o mundo. O primeiro ponto que me saltou à vista foi a ironia e um certo rom zombeteiro presente em Alguma Poesia, linguagem essa que me conectou com a poesia de Wislawa e com os contos de Calvino em Os Amores Difíceis. Em Alguma Poesia, senti uma forte presença de um sujeito poético perdido num tempo acelerado, das metrópoles, e com saudade de casa, do campo e da natureza, da vida besta presente em Cidadezinha Qualquer.

Todavia esse mesmo sujeito ainda parece capaz de olhar para os lados e sentir certo prazer com o que experiencia. Há beleza e solidão na cidade. Há uma alegria que não deslancha no peito, mas que está ali, na leitura de um comezinho às vezes contraditório e inesperado.

Talvez eu seja, como um leitor não tão experiente em Drummond, um pouco influenciado pelo poema que abre o livro, mas O Poema das Sete Faces, com essa lua, com esse conhaque, me botou comovido como o diabo e me fez sentir esse tom no livro todo.

Outro ponto que fui acompanhando a cada novo poema girou nos desfechos, principalmente no tom da linguagem desse finalzinho. Veja em Infância: E eu não sabia que minha história é mais bonita que Robson Crusoé; versos que fecham um poema sobre a vida no campo, vida lenta sem peripécias ou atos heroicos de cinema. Ou quando zomba em Também Já Fui Brasileiro (o próprio título uma ironia com esse verbo no passado): 

    não sou irônico mais não 
    não tenho ritmo mais não. 

Em Toada do Amor, o desfecho com o pedido da briga (Mariquita, dá cá o pito, / no teu pito está o infinito), porque 

    o amor sempre nesta toada: 
    briga perdoa perdoa briga.


Esses são pequenos exemplos, há muitos outros em Alguma Poesia em que há essa alegria do deslumbre, daquilo que parece premeditado, mas surpreende, e é nessa surpresa, que para nossa sorte é sina, que a beleza cotidiana mostra força na obra.

Acabei falando pouco de O Brejo das Almas, mas fica a promessa de voltar a ele. É que Alguma Poesia bateu, acertou em cheio a pessoa que vos escreve, e olha que eu nem era muito leitor de poesia. Por isso esse texto foi meio atrapalhado, meio interrompido de cá e lá, mas tem o coração cheio. Talvez o poema Poesia seja uma boa síntese desse momento.

    Gastei uma hora pensando em um verso 
    que a pena não quer escrever 
    No entanto ele está cá dentro 
    inquieto, vivo. 
    Ele está cá dentro 
    e não quer sair. 
    Mas a poesia deste momento 
    inunda minha vida inteira.


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