02 | Jack

 


| Por Clara |


Eu tive um cachorro que era um verdadeiro bebezão. Era delicado, simpático, cabia no meu colinho. A cauda parecia um ventilador de teto daquele tipo que custa caro, é de plástico colorido e gira mal, e você consegue ver as duas pás indo e voltando sem a unidade bacana de um ventilador de verdade. Sabia sorrir como um humano. Tinha uma mancha preta ao redor do olho, e eu chamava ele de Cocozinho, porque ele era muito pequetitito quando nasceu, só tinha uns patões.

Ele não tinha defeitos, mas não gostava da existência de outros cachorros, então depois que tentou matar os da minha mãe pela décima vez, ele foi muito bem doado sem que eu soubesse para quem, ainda com um pedaço da orelha da mãe dele dentro da barriga. Ele não foi castrado.

Lembro que descobri certa vez que uma amiga sabia onde trabalhava o veterinário que intermediou a adoção dele, sabia o nome também, ela me disse, e há dez anos penso em pedir o telefone dele. Mas não seria estranho sair perguntando isso por aí?


“Oi, você tem o telefone do veterinário do Jack Sparrow?”

“Não, desculpa.”

[Supondo que ela diga “claro!”]

“Pode me passar o telefone?”

“Não, desculpa.”

[Supondo que ela diga “claro!”]

“Oi, Dr. Ricardo, você lembra do Jack Sparrow?”

“Não, desculpa.”

[Supondo que ele diga “claro!”]

“Você lembra quem o adotou?

“Não, desculpa”

[Supondo que ele diga “claro!”]

“Você pode me passar o telefone do adotante?”

“Não, desculpa.”

[Supondo que ele diga “claro!”]

“Oi, foi você quem adotou o Jack Sparrow, né?

“Não, desculpa.”

[Supondo que ele diga “claro!”]

“Você pode me dizer se ele está bem?”

“Não, desculpa”

[Supondo que ele diga “claro!”]

Mas ele nunca vai dizer “claro!”, porque já se passaram quase vinte anos, e pitbull dura no máximo uns quinze, e o Jack Sparrow era meio burrinho e gostava de engolir pedras de jardim de vez em quando.

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