01 | Guarda-chuva



Guarda-chuva

| Por Clara |


Eu descobri que a amava no dia em que compramos o livro de refilo colorido e enrolamos quatro sacolas grossas ao redor dele. Foi o dia mais chuvoso do ano. Coisa de umas duas semanas antes do sábado da degola, a ouvi manifestar diariamente um desejo quase erótico por um guarda-chuva xadrez, mas um parrudo, de cabo curvo, não a sombrinha desmilinguida que ambulantes vendem na saída das estações do metrô, e xadrez como kilt de escocês, não tabuleiro de damas ou camisa de time de futebol moderninha. Ela era muito específica sobre, e se deixasse, falava por uma boa meia hora sobre o assunto, os dedos fazendo fila para alisar a unha esmaltada do dedão; essa era a única que ela conseguia reproduzir a estampa, a da mão direita. Tinha de ser xadrez vermelho com padrão certo, com uma fina linha amarela aqui e ali, como calças de punks na Londres de oitenta e tantos, de cores vivas, sem bege apagado de grife, xadrez de verdade - dizia como se houvesse apenas um e afirmava que se quisesse quadradinho colorido vagabundo, ela comprava um cubo mágico de plástico.

Quando finalmente encontrou o guarda-chuva, enrolado e plastificado em um carrinho de supermercado no meio da praça, pendurado displicentemente ao lado de um de arco-íris e três de estampa desconhecida (depois notei que eram imagens de filhotes de cachorro caramelo gourmet), ela o recusou, dizendo que com quarenta reais fazia a festa no brechó do final da rua. Irredutível, quase abandonou o sonho de uma quinzena inteira, mas para sorte nossa e do vendedor de sombrinhas, havia uma desmilinguida por dez reais no fundo do carrinho, e mesmo muxoxando que não tinha cabo curvo e ia quebrar em dois dias, ela aceitou caçar com o gato.

A satisfação parcial durou o tempo de ela, já no metrô, na hora de pegar o passe-livre, se atrapalhar com as mãos e a bolsa, deixar cair o guarda-chuva, mas o segurar pela fivelinha. O guarda-chuva abriu, é claro, no meio do caminho e barrou todos que queriam passar pela catraca. Quanto mais tentava fechar a sombrinha, mais ela se atrapalhava. De esguelha, vi o segurança contraindo os lábios para dentro, e eu mesmo precisei me segurar. Passei de novo pela catraca para a ajudar e achei melhor não avisar que a sombrinha estava claramente com defeito. Poderia tentar consertar em sua casa depois, e ela parecia agora plenamente feliz com o tal do xadrez vermelho de linha amarela, depois de o admirar em seu esplendor às luzes brancas da estação. Ela ficou feliz por completo.

É assim que ela funciona, os sentimentos pela metade se preenchem ou esvaziam por completo em piscadas de compreensão. Bem ou mal, quando consegue o que deseja, mesmo que de forma torta, para ela basta. Beira o otimismo infantil em alguns momentos, rindo das entregas parciais das pessoas como quem faz graça de um amigo na escola que não sabe cortar um tê direito ou fazer um agá maiúsculo rebuscado. O que faz é sempre no tudo ou tudo, ou de nada vale a pena tentar, e o propósito da ação se dissolve quando não há lógica para se realizar. Como quando recusava ir a um aniversário de amiga porque não fazia sentido se embrenhar na Lapa quase de madrugada apenas para cantar músicas enfadonhas em karaokês sujos, ou quando mandava o amigo das dietas se decidir entre querer vestir 38 ou comer dois churros por dia na saída do trabalho. Ela não tinha muito tato também, e o tanto que as pessoas confundiam a falta de filtro com toxicidade… As pessoas são burras toda vida.

Eu estava atrás da edição esgotada desse livro fazia um bom tempo. O de refilo colorido. Custava três guarda-chuvas xadrez de cabo curvo, e mesmo assim, o prazo da livraria perto de casa era de dois meses. É impressionante como quase não há livrarias ou bibliotecas no Rio de Janeiro. A livraria da rede hoje falida já havia fechado uma quantidade boa de lojas, principalmente na Zona Sul, e das restantes, a única que conseguimos contato foi a da Tijuca. A livreira que atendeu o telefone parecia estar alheia ao castelo desmoronando ao seu redor e foi pessoalmente consultar o livro na estante, com toda simpatia que poderia transmitir. Os ruídos poucos diziam que a livraria estava às moscas. Mas, ela disse quando retornou, o livro estava lá, sim, mesmo que no sistema constasse que não; decidimos ir buscar de imediato, que boa vontade de funcionário maltratado não se desperdiça. Paramos somente para resolver a questão da sombrinha.

Quando chegamos à Sans Peña, mal saímos da escada rolante, ela correu até perto do ponto de ônibus, fugindo da cobertura fraca das árvores e quase chegando às fileiras de carros e ônibus parados no trânsito. Por pouco não gritei seu nome. A chuva caía como se estivesse com ódio da vida, as castanhas das árvores despencando como granizo, e ela lá, imune, nem aí, querendo experimentar o guarda-chuva, o cabelo murchando de tanta água. Sem notar que estava chamando atenção dos motoristas entediados, abriu a sombrinha com a mesma violência com que abriu um sorriso de satisfação, e se viu debaixo da cobertura de tartan que tanto queria. Felicidade plena, ela chegou a agitar uma das mãos no ar.

Ela só não esperava a ventania, e nunca na vida eu vi o topo de um guarda-chuva voar tão longe mal foi aberto. Desprendeu como se não houvesse parafusos. Em um segundo ele estava ali, no outro, ele já tinha ido embora, ficou só o cabo sem cabeça na mão. Tampouco vi tantos motoristas rindo ao mesmo tempo, acho que teve uma buzinadinha e tudo.

Ela ficou imóvel, a chuva grudando o vestido no corpo, o rosto todo molhado, e eu agradeci mentalmente ela ter evitado se maquiar. O sorriso se manteve congelado, com os olhos do tamanho de maçanetas difíceis de se abrir. Eu me aproximei, com um pouco de pena, depois de tanto esforço perder o guarda-chuva na primeira oportunidade, mas também com uma vontade suprema de rir até cair de joelhos no chão. Botei a mão em suas costas e pensei em algo para dizer, algo para a consolar ou ao menos a tirar da chuva, e foi quando ela olhou o cabo solitário, olhou para trás, em busca da cabeça do guarda-chuva, abandonada aos pés de uma árvore a uma distância surpreendente, e voltou o rosto na minha direção. Os olhos arregalados se apertaram, e o sorriso congelado derreteu em uma gargalhada que rendeu uma buzinada direcionada a um taxista; ele se deleitava com a vergonha alheia e não notou o trânsito caminhando vagarosamente, tenho quase certeza disso.

Sem largar o cabo, ela me pegou pelo zíper do casaco e me autorizou a aproveitar a cena, encostando a testa em meu peito, os ombros chacoalhando enquanto eu a abraçava e prometia encontrar um guarda-chuva xadrez de verdade de cabo curvo e resistente e de boa qualidade, comprado em uma loja direita, que custasse um dinheiro absurdo. Teria prometido um guarda-sol xadrez de jardim de casa de campo londrina e dava um jeito de construir a casa ao redor dele com minhas mãos e ajuda de uns vídeos de indianos na internet, se ela me pedisse. Contanto que ela continuasse rindo daquele jeito sempre que a vida permitisse, ou até mesmo quando não houvesse permissão de nada, mas somente ela quisesse rir do vento a deixando de cabo na mão, ensopada e sem um traço de vergonha de nada. Resfriamos os dois, o ar-condicionado do shopping estava a toda, e mal deu meio dia depois da degola, estávamos meio moles no sofá, enrolados no edredom xadrez (mas xadrez normalzinho, verde e vermelho) de franjas, lendo os primeiros capítulos do meu livro de refilo colorido.

Foi nesse momento (pouco tempo depois de bebermos uma sopa quente e grossa de legumes muito salgados, fingindo não notar fragmentos de ranho no nariz um do outro após uma assoada ou um espirro violento) que eu senti diretamente, sem meio-termo ou quase-lá, que era verdade algo que eu não sabia muito bem nomear. Percebi o quanto eu seria capaz de pintar as paredes do quarto do tom insano que sua cabeça gostasse e lidaria com o fato de ficar enjoado em minha própria casa e arrumaria desculpas esfarrapadas aos nossos amigos para nunca mais precisar ir a festas estúpidas na Lapa e tampouco me importaria de comprar um guarda-chuva que me custasse dez livros de refilo colorido se isso a fizesse rir na chuva comigo sempre que desse e depois compartilhar lenços de papel descartados em uma lixeirinha de plástico vagabundo todo se quebrando depois de ter sido exposto ao sol na varanda. A gente poderia comprar outra logo depois e manteria na sombra, para as próximas gripes. O cabo do guarda-chuva, ela enfiou na terra de uma planta, para segurar o caule que tava meio mole. A cabeça virou porta-moedas.



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(Conto publicado na coletânea Amor em Lugares Altos, disponível gratuitamente no Wattpad. Clique aqui.)










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