Por que teoria literária?


Imagens da Capa: Nova Biblioteca de Alexandria 


Por Raphael Pellegrini 





De fato, o único conselho sobre leitura que uma pessoa pode dar a outra é não aceitar conselho algum, seguir os próprios instintos, usar o próprio bom senso e tirar suas próprias conclusões. (WOOLF, 2019) 

 

O que queremos saber e o que podemos imaginar são dois lados de uma mesma página mágica. (MANGUEL, 2016) 

 

A natureza da teoria é desfazer, através de uma contestação de premissas e postulados, aquilo que você pensou que sabia, de modo que os efeitos da teoria não são previsíveis. (CULLER, 1999, p.24) 


Como ler e analisar literatura? Que perguntas fazer ao texto e como a obra de arte interfere em quem sou e no modo como me relaciono com o mundo? Como as relações sociais, os valores de minha comunidade e minha cultura influenciam o que escolho ler e como entendo o texto? Como meu gênero interfere na construção do sentido do texto? Pode existir algo além da linguagem? Algo como o tal lugar que Horácio Oliveira ou que boa parte das personagens de Clarice Lispector tentam chegar? Como leitor, preciso de algo mais do que minha capacidade de ler a palavra escrita? Até onde vai nossa imaginação ao formularmos nossas hipóteses e expectativas frente ao texto literário?

É na tentativa de dar pelo menos algum modo de refinar nossas perguntas com outras, de potencializar a mobilidade, desnaturalizando o que historicamente se naturalizou, se repensando e se desfazendo, que a teoria literária ganhou parte de sua importância e papel para nos ajudar a responder, ou melhor, formular algumas das perguntas acima. De certo modo, é com ela que podemos procurar melhor no texto as chaves de significação implícitas. E como nos lembra Eagleton (2008) sobre nossa postura diante do texto: “A questão não é quão tenaz você se apega ao texto, mas o que você está procurando quando o faz.”

Dessa maneira, tornar a teoria literária inteligível para os leitores se mostra como um caminho de mão dupla na construção de caminhos que possibilitem, a quem deseja se aproximar do conhecimento produzido no campo dos estudos realizados sobre a literatura, a apreensão das ferramentas e teorias aplicadas ao texto literário. Esse movimento de aproximação entre a teoria e aquele que deseja multiplicar os sentidos do texto pode parecer como um movimento que gira apenas em torno da literatura, por fora, em vez de partir dela, de seu cerne, e isso é de fato verdade. Como afirma Steiner, a crítica (e com isso seus argumentos) são uma tarefa segunda: “O crítico vive de segunda mão. Ele escreve sobre.” Não existe de fato um objeto teórico organizado que saia da literatura propriamente dita, que possa ser usado para depreender sentidos de um texto literário. Isso implica que as ferramentas de análise e compreensão do texto cheguem à literatura de outros campos das humanidades e não respondem exclusivamente ao texto literário - da psicanálise, empregamos conceitos de Freud, Lacan, Jung e tantos outros para produzir sentidos sobre porque os personagens tomam certas atitudes, o que impulsiona sua consciência e o que, em suas ações, parece vir subliminarmente do inconsciente; ou podemos buscar compreender o que os sonhos revelam sobre desejos e sentimentos reprimidos; dos estudos Marxistas podemos, por exemplo, compreender como as categorias econômicas, do trabalho, das classes sociais podem interferir na relação do sujeito com os meios; das teorias feministas, podemos desdobrar os papéis atribuídos às mulheres, suas construções identitárias e todo o jogo de pressões e forças repressivas que atuam em suas vidas dentro de um sociedade que as inferioriza frente à primazia do masculino; poderíamos citar os estudos culturais, raciais, de gênero, formais... 

Acima de tudo, estudar a teoria literária, e consequentemente alguns dos campos de conhecimento sobre a vida individual e em sociedade, implica desbravar uma série de saberes que herdamos ao entrarmos no mundo, produzidos ao longo de nossa história social coletiva, sobre o que é ser um sujeito construído na e pela linguagem, com uma identidade em permanente reconstrução, numa sociedade de constante movimento social, econômico, cultural que se monta e remonta nas interrelações entre sujeitos distintos e espaços naturais. Como afirma Culler (1999, p.13):


Teoria, nesse sentido, não é um conjunto de métodos para o estudo literário mas um grupo ilimitado de textos sobre tudo o que existe sob o sol, dos problemas mais técnicos de filosofia acadêmica até os modos mutáveis nos quais se fala e se pensa sobre o corpo. O gênero da “teoria” inclui obras de antropologia, história da arte, cinema, estudos de gênero, linguística, filosofia, teoria política, psicanálise, estudos de ciência, história social e intelectual e sociologia.

 

Esse movimento implica a necessidade de aceitar não só a impossibilidade da completude - nunca será possível dominar completamente a teoria - assim como o fato de que a descoberta dos seus sentidos não se dará de uma maneira rápida e sem maiores sobressaltos, numa passagem de olho rápida sobre algum apanhado de textos, borboleteando pelas páginas; isso não será suficiente; é um movimento de esforço e de certa persistência, tenacidade, como pontua Eagleton, como toda teoria, diga-se de passagem, mas que parece se constituir como um bom caminho para descobrir novas formas de indagar o texto literário nas suas múltiplas camadas. Afinal, esse difuso espectro de textos parece ser o mais próximo de um aparato técnico que descobrimos funcionar quando desejamos questionar tudo que há no mundo. Como nos lembra Woolf (2019), “Ler um romance é uma arte complexa e difícil. Não só de muita agudeza de percepção, mas também de muita audácia de imaginação você terá de ser capaz para poder fazer uso de tudo o que o romancista — o grande artista — lhe dá.” 

Assim, com o apoio da teoria, encontramos formas, construídas com argumentos analíticos, de produzir perguntas ao texto literário ao tornarmos nossa percepção mais aguda, de modo que seja possível potencializar o debate acerca da literatura e de seus sentidos -  o que diferente de qualquer abordagem com um viés opinativo sintético, a qual pouco se poderia contestar ou desdobrar em outras significações. Diante de apenas um gostei ou não gostei, pouco se fala e expande o texto literário em si, daí a necessidade de desnaturalizar palavras e sentidos já vulgarizados pelo cotidiano. Mesmo que em alguns momentos a linguagem da teoria possa se tornar hermética, um entrave diante do significado mais direto, já que requisita a retomada de termos e conceitos associados a outros campos da ciência, buscar nesse conjunto de saberes algum tipo de orientação parece ser uma boa saída para quem deseja esmiuçar com lente de aumento cada detalhe escondido no texto. 

Ao agrupar uma série de conceitos e ferramentas que tentam explicar os sentidos subjacentes a uma obra literária, a teoria da literatura permite a todos que tenham interesse em realizar a análise de um texto sejam capazes de o fazer, cobrando como preço a aquisição certo arcabouço teórico. Como consequência de tal perspectiva, a interpretação dos textos literários deixa de ser um trabalho exclusivo dos sujeitos dotados de uma sensibilidade cultural específica - conhecimentos esses pouco definíveis e principalmente herdados por algum tipo posição social que torna o sujeito capaz de desfrutar verdadeiramente um texto literário - e passa a poder ser exercida por todo aquele que decida se especializar na tarefa. Esse viés democrático é o que torna, mesmo que em alguns momentos o debate percorra um caminho cifrado e excludente, a teoria da literatura uma ciência a qual todos podem participar, como defende Eagleton (2019): “A teoria era uma forma de libertar as obras literárias da força repressora de uma ‘sensibilidade civilizada’, e abri-las a um tipo de análise do qual, pelo menos em princípio, todos pudessem participar.” 

Nesse sentido, a teoria se volta principalmente para o campo da leitura da obra de arte, para esse movimento secundário frente à concepção do texto. Os conceitos cunhados e seus respectivos usos nos textos críticos se emaranham à obra de arte já produzida, se fazem ferramentas que podem auxiliar o leitor a traduzir na língua parte daquilo que encontra nos textos. Mas nada disso se constitui como pré-requisito para a criação - e nem para a leitura, diga-se de passagem -, já que a tarefa do autor está em outro campo, algo mais próximo a de um tradutor de si mesmo. Seu movimento é conseguir trazer para a língua, com suas regras e requisitos de uma palavra depois da outra, o mais fidedignamente, a imagem mental que lhe instiga a escrever. Tarefa essa que Woolf nos lembra da dificuldade, quando sugere que um dos modos de ser mais compreensivo com os autores e seus escritos é tentar escrever um evento cotidiano em algumas páginas. Dessa maneira, para o autor, a teoria talvez possa ajudá-lo indiretamente, como sujeito, como leitor do mundo, mas não parece ser o caso de um pré-requisito para seu trabalho de escrita. Ao retratar a experiência, consequentemente surgirão no texto as categorias que as ciências humanas criaram para tentar explicar o que significa viver em algum tempo histórico numa sociedade. A presença das categorias é indireta e acontece sem esforço direto e calculado. 

Dessa maneira, o diálogo com outros campos se faz necessário, e estabelecer uma linguagem inteligível comum torna-se um requisito, o que traz para a teoria conceitos e jargões, que num primeiro momento podem parecer apenas modos de empolar o discurso e deixar a maior parte dos leitores de fora. Teorias críticas que se apoiam num enfoque psicanalítico, por exemplo, vão recorrer aos escritos de Freud (se for uma análise na perspectiva da psicologia clássica), Lacan, Kristeva e tantos outros, assim como talvez seja necessário conhecer o que pensa Judith Butler se o desejo for entender como analisar o texto por um viés de gênero e teoria queer, e para dialogar com cada um desses textos será necessário aceitar suas linguagens e construir algum tipo de ponte, de tradução, de seus conceitos. Talvez possa residir aí uma primeira dificuldade. 

Os autores do Formalismo Russo vão, por exemplo, afirmar que a literatura 


Tinha suas leis específicas, suas estruturas e mecanismos, que deviam ser estudados em si, e não reduzidos a alguma outra coisa. A obra literária não era um veículo de ideias, nem uma reflexão sobre a realidade social, nem a encarnação de uma verdade transcendental: era um fato material, cujo funcionamento podia ser analisado mais ou menos como se examina uma máquina. Era feita de palavras, não de objetos ou sentimentos, sendo um erro considerá-la como a expressão do pensamento de um autor. (EAGLETON, 2019, p. 4)

Nesse sentido, produzem uma jornada em que é necessário observar e analisar a forma do texto, o modo como a linguagem se estrutura e como, a partir de uma organização capaz de produzir distanciamento da fala cotidiana, a literatura é capaz de desembotar nossa visão da realidade, deslocando nossos sentidos já acostumados a uma linguagem que perdeu seu valor de expressão, que se vulgarizou. Se mergulhamos em seus estudos formais sobre como ler e analisar a literatura, entramos no mundo da linguística estrutural da primeira metade do século XX transposta em sua essência para a análise do texto literário - mais precisamente para a poesia, já que a análise da prosa se fez como uma transposição das mesmas categorias já empregadas no estudo da poesia. Constitui, assim, uma coleção de artifícios, de mecanismos, capazes de transformar a linguagem comum em linguagem literária. Nesse sentido, é por meio de tais procedimentos realizados no texto literário que a linguagem literária deforma a linguagem cotidiana, algo que se traduz em certos entraves à significação. Por não chegarmos ao significado de maneira tão direta, como ocorre na linguagem cotidiana, passamos a observar como o texto se constitui em si e, com isso, descobrimos a experiência de uma forma mais íntima. 

Porém, mesmo desconhecendo tudo isso, e para muitos não havendo interesse em descobrir esse aparato conceitual usado para desdobrar o texto e a vida, alguém poderia argumentar que é possível continuar lendo “sem essa ou aquela teoria”, e que não há qualquer problema nisso, que esse seria um modo isento de ler os textos literários, uma forma de se manter distante de opiniões ou ideologias alheias. Outros poderiam defender que estudar a teoria traria como consequência a perda da paixão pela literatura, que a leitura se tornaria engessada e pouco emocionante, já que passaria a abarcar categorias, regras, procedimentos, conceitos e tudo mais que não nasce espontaneamente do texto literário em si. Poderiam ir até Woolf e voltar com um trecho de seu ensaio: 


Admitir autoridades em nossas bibliotecas, por mais embecadas e empelicadas que estejam, e deixar que elas nos digam como ler, o que ler e que valor atribuir ao que lemos, é destruir o espírito de liberdade que dá alento a esses santuários. Em qualquer outra parte podemos ser limitados por convenções e leis — mas lá não temos nenhuma. (WOOLF, 2019)


Woolf tem absoluta razão ao defender que é pelo espírito crítico do leitor que a leitura deve se guiar, e é nesse detalhe, nesse requisito de um comportamento crítico e ativo do leitor, que mais uma vez se pode reforçar como a teoria literária se constitui como um ataque indireto a um senso comum que se constitui no entorno do texto. Pois não se trata de um movimento de usar a teoria sobre a obra de arte, de esmagá-la, mas sim de expandir a compreensão de mundo do sujeito, de prepará-lo para reconhecer a complexidade da existência antes de tudo. Como cita Calvino ao falar sobre o papel da leveza, enfrentamos a Medusa olhando para seu reflexo, caso contrário somos petrificados. E se acreditamos que tudo o que já existiu sob sol está dentro do texto literário, consequentemente nos preparamos melhor para não sermos petrificados diante da obra de arte se conhecermos mais o mundo e os sujeitos dele. 

Além disso, assumir que a teoria pode prejudicar a relação do leitor com o texto literário parece ter alguma sustentação na crença de que a literatura constitui em si um tipo de linguagem comum acessível a todos, de modo que caminhar pela teoria seria fugir dessa linguagem comum, negando a relação individual e singular que emana do texto literário. Ou porque “há sempre um demônio em nós que murmura: 'Eu odeio, eu amo', e não temos como silenciá-lo. É exatamente por odiarmos e amarmos, de fato, que nossa relação com os poetas e romancistas é tão íntima que achamos intolerável a presença de outra pessoa.” (WOOLF, 2019) Todavia é preciso defender que sem algum tipo de teoria seria difícil definir o que é uma obra literária ou como deveríamos lê-la. De algum modo, até mesmo nossas escolhas e o valor que damos ao que lemos está intimamente ligado com nossos valores adquiridos em sociedade. O que implica assumir que subjacente a toda teoria existe algum tipo de concepção do objeto sobre o qual essa teoria se desdobra. Logo, mesmo que houvesse a possibilidade de realizar o movimento de ler sem a teoria, é bem provável que tal tentativa fosse apenas uma forma de não tornar visível o que se entende por literatura e quais critérios, valores e ideologias influenciam na construção dos sentidos do texto. Mesmo que não se fale do elefante branco no meio da sala, ele permanecerá no ambiente, continuará parado entre os sofás marcando sua enorme presença. Como afirma Eagleton: “A hostilidade para com a teoria geralmente significa uma oposição às teorias de outras pessoas, além de um esquecimento da teoria que se tem.” Talvez o caminho fora da teoria seja retomar a paródia bem humorada de Borges e Bioy Casares acerca da crítica textual, como cita Manguel (2016): “uma forma de crítica que, rendendo-se à impossibilidade de analisar uma obra de arte em toda a sua grandiosidade, meramente reproduz a obra em sua totalidade.”

Dessa maneira, por conhecer mais camadas do mundo nos tornamos mais capazes de pensar em saídas para as situações em que vivemos, conhecer mais daquilo que se produziu como saber do mundo nos permite compreender melhor as diversas relações existentes dentro de uma obra de arte. E é nesse sentido que o debate acerca do estudo da teoria literária se volta também para como nos tornamos mais conscientes da existência de camadas de significação presentes no texto, que é mundo experienciado em texto. E mesmo depois de tudo isso, ainda há a necessidade de assumir que:



Existe um problema essencial com o qual cada escritor (e cada leitor) se defronta quando aborda um texto. Sabemos que o ato de ler é uma afirmação de nossa crença na língua e em sua alardeada capacidade de comunicar. Toda vez que abrimos um livro, confiamos que, malgrado toda a nossa experiência anterior, dessa vez a essência do texto nos será transmitida. E toda vez que chegamos à última página, apesar de tão ousadas esperanças, estamos novamente desapontados. Especialmente quando lemos o que, por falta de termos mais precisos, concordamos em chamar de “grande literatura”, nossa capacidade de assimilar o texto em toda a complexidade de suas múltiplas camadas fica aquém de nossas vontades e expectativas, e somos compelidos a voltar ao texto mais uma vez na esperança de, agora, talvez, alcançarmos nosso propósito. Felizmente para a literatura, felizmente para nós, nunca o fazemos. Gerações inteiras de leitores não conseguem exaurir esses livros, e o fracasso da língua em comunicar integralmente lhes empresta uma riqueza ilimitada que só nos penetra na medida de nossas capacidades individuais. (MANGUEL, 2016, p.19)


Parece coerente então assumir que toda leitura se apoia numa teoria, numa ideologia que constitui uma certa base sobre a qual os sentidos se formam e que nunca se faz capaz de esgotar o texto - para nossa sorte. Podemos não compreender suas implicaturas, e talvez nem percebê-las, mas há bem nítidos certos conhecimentos acerca do funcionamento do mundo e da vida, aprendidos ao longo de nossa existência, que produzem ressonâncias e dissidências quanto ao material literário. Há, nesse sentido, a ação em nossa interpretação de algo como um senso comum, uma construção histórica que parece a nosso ver tão natural, que não a percebemos mais como determinante no modo como construímos nossos sentidos, e é sobre essa dimensão que a teoria atua ao desnaturalizar tais concepções, as contrapondo a outros pontos de vista, como afirma Culler (1999): “Como crítica do senso comum e investigação de concepções alternativas, a teoria envolve um questionamento das premissas ou pressupostos mais básicos do estudo literário, a perturbação de qualquer coisa que pudesse ter sido aceita sem discussão...”

Se por um lado a teoria se constitui como um campo profícuo na construção de ferramentas e conceitos que podem ampliar a compreensão dos sentidos do texto literário, há subjacente a ela o desejo pela curiosidade, por questionar o texto e desnaturalizar os sentidos instituídos. Nada poderia se constituir se não houvesse uma natural curiosidade acerca do que há de tão impressionante na literatura. Perguntas que geram novas perguntas e que, para o nosso bem, não nos dão respostas definitivas - seria muito triste se não houvesse mais o que perguntar a Homero, Shakespeare ou Dante. Podemos compreender a violência do ciúme de Otelo, rastejar nas suas palavras em busca de uma compreensão completa dos seus estados mentais, das suas emoções, mas sempre nosso estudo estará repleto de pontos cegos, espaços vazios, que ao preenchermos com uma nova suposição, produzem automaticamente novas cegueiras, retomando assim a figura mitológica do ouroboros. Cada nova interpretação tenta trazer um novo sentido ao texto e, ao se realizar, cria um novo espaço vago inerente a ela. 

Nesse sentido, por maiores que sejam nossos esforços, sempre que preenchemos um espaço de sentido, que fazemos uma grande descoberta de alguma marca do texto literário, essa descoberta cria uma armadilha para si, como um sistema de segurança que é ativado desarmando automaticamente outra parte do sistema, porque nossos textos são ainda escritos na linguagem, de modo que estamos fadados a sofrer o mesmo que os autores de nossas obras favoritas sofreram. Caminhamos assim de uma pergunta a outra, refinando nossa arte de fazer perguntas ao texto literário e fracassando em obter respostas, são um “meio de avançar do que não sabemos para o que não sabemos ainda.” (MANGUEL, 2016). Mais do que encontrar respostas, perguntas atiçam o texto, são seu fermento, de modo que a teoria pode nos ajudar a buscar novas boas perguntas.



A imaginação, como atividade essencialmente criativa, desenvolve-se com a prática, não por meio de êxitos, que são conclusões e, portanto, becos sem saída, mas por meio de fracassos, por meio de tentativas que se revelem estar erradas, exigindo novas tentativas que, se os astros estiverem a favor, levarão a novos fracassos. As histórias da arte e da literatura, como a da filosofia e da ciência, são as histórias desses fracassos iluminados. “Fracasse. Tente outra vez. Fracasse melhor”, era como resumia Beckett. (MANGUEL, 2016)


É pela perspectiva do fracasso, dessa impossibilidade da completude, que o estudo da teoria pode contribuir em sua potência, pois sempre haverá mais um texto, mais um autor, mais uma contribuição a ser conhecida, estudada, avaliada, refutada. Admitir a importância da teoria é, como defende Culler, assumir um compromisso com a ideia de que existem saberes importantes que você desconhece e que por maior que seja o esforço, nosso melhor resultado será fracassar melhor. Dominar a teoria é uma impossibilidade, porque em seu cerne há o movimento de contestação necessário a sua sobrevivência que faz o campo agir sobre si mesmo, que o desestabiliza, já que a natureza da teoria parece ser desfazer (CULLER, 1999).





Referências bibliográficas:


CALVINO, I. A Leveza. In CALVINO, I. Seis Propostas para o Novo Milênio. São Paulo: Companhia das Letras, xxxx,

CULLER, J. O que é Teoria. In CULLER, J. Teoria Literária: uma introdução. São Paulo: Beca Produções Culturais, 1999.

EAGLETON, T. Introdução: O que é literatura? In EAGLETON, T. Teoria da Literatura: uma introdução. São Paulo: Martins Fontes, 20xx)

EAGLETON, T. The functions of Criticism. In EAGLETON, T. How to read a poem. Oxford: Blackwell Publishing, 2008. p. 1-24.

LYNN, S. An Introduction, Theoretically. In LYNN, S. Texts and Contexts: Writing About Literature with Critical Theory. United States: Pearson, 2008.

MANGUEL, A. Introdução. In MANGUEL, A. Uma história natural da curiosidade. São Paulo: Companhia das Letras, 206.

MANGUEL, A. O que é a curiosidade?. In MANGUEL, A. Uma história natural da curiosidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

RIVKIN, J.; RYAN, M. A short history of Theory. In RIVKIN, J.; RYAN. M. Literary Theory: An Anthology. Oxford: Blackwell, 2017.

TYSON, L. Critical theory and you. In TYSON, L. Using critical theory: how to read and write about literature. New York: Routledge, 2011. p. 22-36.

TYSON, L. Everything you wanted to know about critical theory but were afraid to ask. In TYSON, L. Critical Theory Today: A user-friendly guide New York: Routledge, 2015. p. 1-10.

WOOLF, V. Como se deve ler um livro. In WOOLF, V. Mulheres e Ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

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