Dois dedos perpendiculares

quarta-feira, maio 08, 2019

Bolsonaro assina decreto sobre posse, porte e importação de armas, no Palácio do Planalto, na terça-feira (7) — Foto: Marcos Corrêa/PR

| Por Raphael Pellegrini |

Dois dedos perpendiculares. Uma unha aponta para um olho demasiadamente apertado, devido a uma ruga, fruto de uma boca repleta de dentes escancarada. Dentes à mostra, como um símbolo para o deleite ou para a guerra. Dentes cerrados, de quem aguarda o banquete. O outro dedo aponta para o céu, talvez o local em que a fome desse sujeito possa ser saciada. Um ângulo reto que se opõe a outros três dedos retesados, afundados na palma da mão. Dobrados em si mesmos, imprimindo mais força do que deveria, aquele pedaço de pele, receber. A organização de dedos mira Deus.

O gesto com um das mãos é acompanhado por todo um corpo que regozija. É um gesto que surge pelo êxtase da conquista, do refastelar de um desejo atendido. Talvez seja um agradecimento, de fato parece um agradecimento, e provavelmente, assumindo quem acompanha o sujeito nessa cerimônia, essa seja a forma de expressar a gratidão por saber que as coisas vão melhorar. Porque sempre é necessário melhorar, não há dúvidas disso.

Ao lado desse homem, outros dezesseis também comemoram à sua maneira. Há aqueles que são mais contidos nos gestos, e expansivos nos desejos. Um breve instante que o olhar revela uma sede prestes a ser saciada. Outros se abraçam, colocando um braço sobre o ombro do sujeito ao lado. Não se conheciam até aquela manhã, mas compartilhavam da mesma necessidade íntima, e por isso estão ali reunidos. Da necessidade de uma caneta em um papel. De uma caneta em um papel timbrado. De um caneta em um papel timbrado pelo governo nacional. De uma caneta em um papel timbrado pelo governo nacional e uma assinatura do governo nacional. De uma caneta em um papel timbrado pelo governo nacional e uma assinatura do governo nacional numa cerimônia oficial. E cerimônias oficiais esvaziam identidades, preenchendo as expressões com um líquido viscoso, que se espalha facilmente pela face, toma o pescoço em questão de segundos, e o corpo em questão de centésimos. Depois endurece. Aqueles homens, sim, não sejamos ingênuos de pensar diferente, desejavam tanto, que seu desejo tomou forma, virou tinta, que suja o papel e as mãos. Pequenas manchas no indicador e no punho, perceptíveis apenas pela análise forense.

*

Foram cerca de dez tiros em apenas um segundo. A aeronave se desloca em direção ao Monte do Campo Belo, ponto de peregrinação de cristãos / por conta do tiroteio, crianças foram obrigadas a abandonar as salas de aula / a vítima levou pelo menos seis tiros no rosto ao pedir ao motorista cinquenta reais para cobrir seu prejuízo com o retrovisor quebrado / uma briga de bar acabou com o assassinato de um homem, de trinta anos, com sete tiros / um gerente de supermercado morreu após ser baleado no abdômen, bem ao lado de uma criança, no estacionamento comercial / uma briga entre vizinhos terminou em morte na noite do último sábado, em Itaipuaçu.

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— Perto está o Senhor de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade. Ele cumprirá o desejo dos que o temem; ouvirá o seu clamor, e os salvará. O Senhor guarda a todos os que o amam; mas todos os ímpios serão destruídos — orou, enquanto outros dezesseis homens comemoravam.

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