Sobre ler Crime e Castigo (ou por que é tão importante filtrar opiniões alheias)

quinta-feira, maio 30, 2019


|  Por Clara Taveira  |


Eis que eu consegui ler Crime e Castigo.

Digo que "consegui" em tom de vitória porque desde o momento em que fui apresentada ao clássico de Dostoiévski, exatamente dez anos atrás, quando eu era uma xóven recém-chegada das brenhas do eixo Simão-Pereira-Juiz-de-Fora, trabalhando como extra-natal em uma livraria no Leblon, eu tinha um pavor tremendo desse livro. Os motivos para tal medo são completamente pessoais e vou explicar todos nessa primeira crônica minha no Capitu Já Leu, já deixando claro desde o início que o presente texto não se trata de uma resenha ou análise ou artigo sobre a obra em questão.

Trabalhei nessa livraria mencionada como caixa, não como livreira/vendedora de livros, ou seja, eu não deveria atender clientes, recomendar livros nem nada: deveria passar cartão e entregar nota fiscal. Mas isso não impediu um rapaz dez anos mais velho que eu de me tirar do meu ponto de trabalho querendo uma indicação de livro clássico (essa foi a desculpa dele). Até então, clássico para mim era Machado de Assis e Clarice Lispector, e olhe lá. Sabia tanto de literatura quanto hoje sei de culinária (e, sério, eu sou um desastre na cozinha), então entrei em pânico. Para completar, como mencionei, eu tinha acabado de voltar do interior de Minas e era uma perfeita garota de 18 anos do interior do interior do interior, um bebezão preso em um corpo maior de idade. Eu não tinha tato (ou coragem) suficiente para falar "moço, sinto muito, regras são regras, não posso atender você, procure no salão um livreiro qualificado", então dei a volta no caixa e pedi para o cliente esperar. Corri até um livreiro e pedi ajuda, literalmente aterrorizada de aquele homem inconveniente fazer algum tipo de avaliação negativa para minha gerente ou coisa do tipo.

Pedi ao livreiro: "Pelo amor de Deus, Fulano, me diz um clássico aí". Ele na hora, sem hesitar, disse "Dostoiévski, Crime e Castigo", ao que eu respondi um cômico "Mãe de quem?". Recomendei o livro, mas o cliente acabou levando Italo Calvino, Os Amores Difíceis (por um incrível acaso, o cliente viria a se tornar, nos cinco meses seguintes, o pior e mais enfadonho relacionamento que já tive. Seria o título do livro um prenúncio para o que estava por vir?), o que gerou no livreiro um revirar de olhos debochado, como se fosse um crime não escolher Dostoiévski.

Por um acaso, naquele mês a Abril estava lançando uma daquelas clássicas coleções de clássicos, aquela da capa de tecido que não pode ver umidade, que já amarela todinha. O primeiro livro era exatamente Crime e Castigo, dividido em dois volumes. O preço baixo e o modo como tanto o livreiro quanto o cliente agiram como se eu fosse uma bobalhoca que não conhecia Crime e Castigo (beleza, eu era uma bobalhoca, mas não exatamente por isso) ao mesmo tempo me fizeram comprar os dois volumes (quinze Lulas, cara, baratinho) e tornaram a obra de Dostoiévski o livro mais temido de toda a minha vida adulta. Acabei criando um bloqueio gigante em cima do livro, e esse bloqueio durou exatamente dez anos. Dez anos!

Mesmo quando entrei para um curso de Letras, fiz trabalhos sobre Dostoiévski, falei da polifonia presente em seus textos etc, li outras obras do Tio Fido, como meu marido chamava na época, não consegui tomar coragem para ler Crime e Castigo. Toda vez que eu tentava, batia uns calafrios, uns arrepios na beirada do chulesco (sou uma dama, eu sei), uma lembrança péssima de péssimas experiências, e eu achava tudo difícil e largava tudo, sempre me perguntando: "Oh, mamãe, por que me tiraste do seu ventre para ser tão burra desse jeito?"

Eis que, em 2016, eu consegui reunir a tal da coragem e peguei o volume 1 da Abril (já todo amarelado, bem-vindo ao Rio de Janeiro e sua umidade surpreendente). Já formada, mais corajosa, um cadinho menos caipira (não adianta, você sai da roça, mas ela não sai de você) e bunda-mole, eu pensei com toda a riqueza poética de minhas motivações literárias: é hoje.

Comecei, terminei o volume 1 e estava indo mais ou menos tudo bem, até que... Até que esse tuíte aconteceu:



Em suma, se você jogar "café da manhã", "Twitter" e "Crime e Castigo", você chega na obra-prima que foi uma thread desse rapaz educadíssimo falando mal de quem gosta de literatura de entretenimento. O problema nem foi ler as afirmações Mamãe, Sou Cult da thread, que já escutei dessas (acho até que já cheguei a falar algumas em algum momento da vida) aos montes vindas, inclusive, de quem nem é tão esse leitorzão classicudo todo que gosta de dizer que é. O problema foi essa afirmação da imagem, essa de que Tio Fido joga na cara a podridão do espírito humano. Minha reação ao ler isso foi pensar onde poderia encontrar um ponto de coleta de recicláveis para jogar meu diploma.

Obviamente há muito do que se debater em Crime e Castigo, como disse, essa crônica não serve para debater a obra. A questão é que em momento algum, nem no crime, nem nos castigos, se me perdoem essa piada de quinta categoria, houve uma esfregada de nada na minha cara - inclusive em todas as tentativas, eu li comendo queijinhos, umas pipocas, um pão com manteiga, teve até sopa no meio. Veja bem, eu já sabia a história, já tinha lido textos, artigos, assistido vídeos, palestras, etc. Não era inocente quanto ao conteúdo da obra, nem uma leitora iniciante a esse ponto. Mas jamais ela me tirou a fome, jamais eu senti essa profusão de sentimentos que o prezado rapaz do tuíte sentiu, nem consegui extrair da leitura tamanha sordidez de emoções desse modo. Não fui o Orlando Bloom lendo em Nova Iorque, perplexo com sua primeira experiência com a literatura russa (o que, por sinal, descobri ser uma fanfic, ele estava cochilando em uma cena do filme NY, I Love You).




Lembro que li esse tuíte, me senti uma ameba e larguei o livro. Desisti e pensei: não é para mim, talvez eu seja uma leitora de entretenimento (inclusive, publiquei uns livros bem bunda anos depois disso; por favor, não procure no Google, eu lhe ofereço com carinho esse conselho maternal) ou de clássicos menos Esfregantes de Podridão do Espírito Humano. Talvez eu deva ficar somente com outros livros, talvez isso, talvez aquilo. Em suma: deu ruim.

No início de 2019, a Todavia lançou uma nova edição de Crime e Castigo, com nova tradução, e explicou, veja só, que parte das traduções anteriores eram traduções de traduções da versão francesa do século muito-tempo-atrás, na época em que rolava aquelas macacadas entre os tradutores franceses de quase reescrever o livro todo, tacar firulas, enfim. Eu sabia disso? Não sabia. Eu pesquisei sobre isso? Não pesquisei. Se eu tivesse escutado mais minha intuição (a mesma que dizia: se eu leio os outros livros do Dostoiévski com tanta tranquilidade, nas edições da 34, por que não consigo ler esse da Abril? Somente esse?), talvez eu tivesse pesquisado e entendido que a pompa toda que me incomodava na minha edição de Crime e Castigo era causada por uma tradução mais velha que andar para frente, um tanto quanto empolada em demasia. Talvez, se eu não tivesse dado ouvidos aos vários Mamãe, Sou Cult espalhados por aí (da livraria ao Twitter, da faculdade aos comentários de YouTube e afins) que diziam que o livro em questão é para poucos, que só os fortes conseguem ler, que só os inteligentes conseguem ver a Podridão do Espírito Humano, que só os sábios conseguem enxergar a roupa do rei, minha experiência teria sido totalmente outra naquela época. 

E quer saber? A experiência, tendo todas essas questões em mente, foi outra mesmo. Eu terminei Crime e Castigo há alguns dias, extremamente tranquila, satisfeita, contente, sentindo aqueles formigamentos gostosos de quando se lê um livro bom para diabo (não confundir com os arrepios no chulesco) e pronta para o próximo livro (no caso, Jude, o Obscuro). 

Essa experiência toda, desde o momento em que tentei, lá aos 18 anos, até agora, aos 28, me faz pensar no quanto se grita opiniões por aí e no quanto é necessário saber filtrar tais palavras, mais do que nunca. Como revisora do mercado editorial independente, já perdi a conta de quantos blogs relativamente grandes implicaram com autores independentes por motivos imbecis (como, por exemplo: "ain, a autora não sorriu para mim no último dia da Bienal, quase dez da noite depois de 10 dias intensivos e cansativos para ela, não é uma vadia arrogante?"), fizeram resenhas negativas de obras por motivos pessoais e o quanto isso influenciava na leitura de seguidores que não filtravam tais opiniões.

Também perdi a conta de quantos livros receberam avaliações negativas repletas de votos úteis na Amazon, mesmo que a avaliação fosse altamente mentirosa, jogada no ar apenas por ódio, por birra, por imaturidade ou mesmo por não saber interpretar um texto básico (e era possível notar esses problemas porque muitas nem eram verdadeiras quanto ao conteúdo do livro, como por exemplo, avaliações que diziam que o final X era péssimo, mas o livro terminava com o final Y, e só Jesus sabe de onde o autor da avaliação viu esse final de qualidade supostamente duvidosa).

É claro que faz parte da experiência literária de muitas pessoas buscar opiniões, pitacos, sugestões de leituras, compartilhar vivências, buscar comunidades. Ninguém aqui está dizendo que "o blogueiro tem que acabar" ou sei lá o que alguém poderia interpretar dessa crônica de uma dama falando sobre o óbvio do começo ao fim, mas sim que é necessário, para mim, principalmente, saber filtrar quem é um curador da TAG e quem é somente mais um maluco no Twitter tirando o dia para fazer o parquinho parisiense pegar fogo jogando preconceitos de bainha torta. O mundo tá cheio de gente comendo apresuntado e arrotando presunto de parma, como já dizia um ex-professor meu, não é?

Creio que saber filtrar opiniões alheias seja importante em todos os aspectos que envolvem literatura (e até mesmo os que não envolvem, o que é tão, mas tão ordinário de se dizer, que me pergunto se essa crônica serve de alguma coisa). Hoje, em um momento em que estou saindo de todas as redes sociais possíveis (Twitter já foi, Skoob está reduzido, Facebook só olho por questões comerciais, duas vezes por dia, horário comercial, e Instagram está bloqueado para estrangeiros, pessoas que não conheço e que não tem motivo para ter interesse na foto da minha cachorra mordendo a orelha do meu outro cachorro), está sendo muito mais fácil perceber o que é digno de ter minha atenção e o que é só mais gritaria sem sentido. Creio que essa venha a ser uma tendência mundial em alguns anos (já é, na verdade, se você for ver a quantidade de pessoas saindo de redes sociais naqueles movimentos descritos em Dez Argumentos Para Você Deletar Agora Suas Redes Sociais, um ótimo livro): falar menos e filtrar mais o que se ouve online, já que não adianta somente calar e ouvir tudo, nem falar muito e não escutar nada. O famoso 8 ou 80, não é? Gosto muito do 44.

Agora só me resta olhar meus arquivos mentais caóticos e descobrir se há mais algum livro que eu temi por muitos anos por inseguranças bobas e ir atrás das ferramentas certas para tornar minha experiência de leitura prazerosa (porém não menos desafiante).

Calma, Ulysses ainda é cedo demais, mas prometo que vou tentar com carinho. E paciência. E um cadinho de medo, sim, mas acho que é uma verdade universalmente conhecida que todo leitor vai temer James Joyce em algum momento da vida. Não foi Clarice Lispector que disse isso em sua conta de Facebook, em uma legenda de foto na praia? Deve ter sido, aposto.



Livros mencionados na crônica mais óbvia do planeta:


You Might Also Like

1 comentários

  1. Texto muito interessante. Ainda não li Crime e Castigo, mas está nas minhas metas. :)

    ResponderExcluir

Postagens Populares

Curta no Facebook