Cadernos de revisão: Sobre a sensibilidade do revisor, variação e a possibilidade de torcer a língua na literatura

segunda-feira, abril 22, 2019

braille note

| Por Raphael Pellegrini |


“Nossa liberdade de construir frases está, assim, condicionada a um mínimo de gramaticalidade — que não significa apenas nem necessariamente correção (há frases que, apesar de, até certo ponto, incorretas, são plenamente inteligíveis). Carentes de articulação sintática necessária, as palavras se atropelam, não fazem sentido — e, quando não há nenhum sentido possível, não há frase, mas apenas ajuntamento de palavras.”  (Othon Garcia)


Talvez meu primeiro exercício assim que abro o arquivo de um novo livro a ser revisado seja dar uma olhada geral em como aquela voz constrói as frases. Uma checada na sinopse, uma mapeada no tempo e no espaço que se passa a história e consequentemente a retomada de uma lembrança, no caso de histórias de outros séculos, de formas de falar de pessoas de tempo e local que eu já tenha passado os olhos durante minhas leituras — e aqui é um ponto bastante importante que pretendo voltar mais tarde, minhas leituras, muitas leituras que possibilitam criar uma “base” de possibilidades de língua, de usos — e, por fim, também vale sempre a pena procurar outros textos do autor, para ver se existe alguma recorrência na forma que tal personagem ou narrador diz o que deseja dizer. Logicamente que cada obra é uma obra, cada voz é uma voz e tudo aquilo que todo mundo já deveria saber sobre a impossibilidade de se banhar duas vezes no mesmo rio, mas, de qualquer forma, ainda existe uma corporeidade pensante, uma autoridade — que morre depois da publicação — que constituiu aquele texto. 

Fazer esse exame sempre me faz voltar para as primeiras disciplinas da faculdade e para algumas das últimas também, porque tal procedimento envolve construir alguns alicerces antes de cada trabalho, sendo eles: uma definição de língua para aquela obra; uma definição de gramaticalidade e de inteligibilidade para as sentenças que a princípio podem aparecer — o que implica em pensar nos limites da torção da língua para aquele texto (isso é feito um tanto por amostragem e é sempre necessário repensar esse procedimento enquanto andamos no texto — às vezes, é necessário voltar e reler e refazer e repensar algum trecho; uma base imaginada de alguns dos efeitos de estilo que o modo daquela pessoa de construir seu texto possa produzir (e aqui acabo voltando para o caso anterior, em que penso nos limites de inteligibilidade das frases). 

Pensar esses temas antes de meter a mão na massa é importante para mim como profissional das letras. A língua é viva e, como tal, se inventa nos usos que torcem aquilo que todo mundo diz, dizendo de um modo diferente. É pelo modo como se coloca uma palavra depois da outra (e que talvez se construa uma nova palavra — Mia Couto e Guimarães Rosa, beijo para vocês, seus lindos), como se faz esse jogo de escolha e combinação que vamos construindo sentidos no texto literário. Principalmente nas regras de combinação é que vejo um ponto bastante importante para o revisor, porque é nessa ordenação das palavras que reside uma possibilidade de extrapolar a forma de dizer algo de um jeito conhecido, produzindo uma nova sintaxe, uma nova forma de encadear sentidos. Para isso, logicamente, é necessário conhecer bem as estruturas canônicas para enxergar na torção da língua os pontos nos quais se desloca o convencional para outros lugares. 

Deixo aqui, então, o lembrete de Vera Lourdes Souza sobre o ato de colocar as vírgulas no lugar e o cuidado que se deve ter com a ousadia linguística: 

“Para fazer uma virgulação não convencional, deve existir um bom motivo, relacionado a um efeito especial de sentido, expressividade ou estilo, ainda que o futuro leitor não apreenda, muitas vezes, o que foi idealizado pelo autor, ou apreenda de outra forma, segundo sua própria vivência e seu nível de percepção.” 

Há, dessa maneira, a necessidade de lembrar o objetivo de alguns textos, os efeitos da (não) pontuação, do encadeamento ou da quebra das sentenças em cada obra. A língua transmite significados também em sua forma. Não é de se estranhar que Graciliano traga tantos períodos menos complexos em Vidas Secas e Carrascoza traga frases tão longas na Trilogia do adeus. 

“O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe como um fato necessário — e a obstinação da criança irritava-o.” 

“Filha, acabas de nascer, mal eu te peguei no colo, e pronto, já chega, disse a enfermeira, e te recolheu de mim, foi apenas pra gravarmos uma cena, agora os pais assistem ao parto, e tudo é filmado, antes não havia nada disso, eu nasci das mãos de uma parteira, já na época do teu irmão — um meio-irmão, de quinze anos, é bom que logo saibas —, a moda era o registro fotográfico, outro dia ele se viu numa foto comigo, logo que veio à luz, e sorriu, e, em seguida, silenciou, e então eu imagino o que ele, como um rio rumo à foz, leu nas águas daquele momento inicial, e, agora, eu também só concordei com a filmagem pelo mesmo motivo, pra que te vejas, no futuro, junto a mim, eu te recebendo nesta hora primeira, dando-te as boas-vindas, se assim se pode dizer, vais descobrir por ti mesma que este é um mundo de expiação, embora haja ocasionalmente umas alegrias, não há como negar — as verdadeiras vêm travestidas, é preciso abrir os olhos dos teus olhos pra percebê-las.” 

Seria possível atribuir a mesma pontuação, a mesma sintaxe, a Carrascoza e Graciliano? Ou talvez os longos períodos de um não queiram dar exatamente a sensação de haver muita coisa a ser dita, de ser um labirinto de memórias que vem chegando, saindo por todos os lados, sem freio, num fluxo sem fim, enquanto o outro narrador está seco, cansado? Observar a língua do texto, a língua dos personagens e dos narradores é uma das partes que mais gosto em meu trabalho, porque é nessa forma de contar, de organizar uma palavra depois da outra que surge a possibilidade de fazer a forma significar. 

Há também em Benedetti um trecho bastante elucidativo nessa questão, e aqui aviso que a passagem em questão é parte do final do livro (Primavera Num Espelho Partido), então se desejar pular, vá em frente. Para contextualizar, o personagem que narra era um preso político da ditadura uruguaia que consegue a liberdade após muitos anos injustamente encarcerado. Nesse momento, a vida que estava represada durante todos os anos na cadeia, depois de todas as seções de tortura, vem a galope, de maneira entrecortada e, por isso, nessa minha humilde interpretação da forma como é constituída essa parte da história, o trecho se torna tão belo. Penso sempre nele como um exemplo da língua servindo aos sentimentos, ao que Santiago pensa, nesse movimento frenético de vida que o inunda. Benedetti dobra a língua para fazer caber tudo isso, dobra a sintaxe, torce e tira um suco delicioso.

“estranho me sinto estranho pisando esse solo / menos mal que chove / com a chuva tudo se equivale e o guarda-chuva se transforma no denominador comum da humanidade / pelo menos da humanidade protegida 

sinto-me estranho mas já vai passar / não se morre de estranheza, mas pode-se morrer de saudade / o que acontece é que coisas demais se juntaram / a notícia / a despedida dos meus lá / os trâmites fodidos / a careta jactanciosa do penúltimo oficial / carrasco / a partida sem ninguém para mim / a viagem a longa viagem com sonhos e ardis e projetos / bem e as comidas / como não me sentir desconcertado depois de cinco anos daquele guisado infame” 

Por isso o contato com literatura, experienciar o máximo possível de formas de dizer na língua é um dever de todo profissional que trabalha com as letras. Porque sempre haverá alguém torcendo a língua e, como diz a Pitty, “Eu queria era dizer diferente aquilo que todo mundo sente, mas não consegue expressar...” 


Como dica de leitura, além, claro, de muita literatura, deixo um artigo que pode dar mais caldo para esse tema. Vera mostra nesse trabalho alguns exemplos de virgulação que escapam da norma padrão, defendendo que no jogo literário, a sintaxe dança.

O revisor entre vírgulas nos gêneros literários - Vera Lourdes Souza 




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