Drops de leitura: sobre a urgência da vida e a impossibilidade de frear o tempo

quarta-feira, março 20, 2019


| Por Raphael Pellegrini |


Hoje chegamos ao último dia do verão, e a passagem da estação relembra mais uma vez a passagem rápida do tempo. Ontem mesmo trocávamos o horário dos relógios, adiantando em uma hora os ponteiros. Hoje, nos preparamos para o outono. É nesse movimento temporal que senti a conexão de duas leituras realizadas nos últimos meses. Primavera num espelho partido, de Mario Benedetti, e O deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati, em nada se parecem, mas em um ponto me parecem caminhar numa mesma direção: o tempo não para, e a vida sempre apresentará uma urgência incontrolável de ser vivida.

Com Dino, conhecemos parte da vida de Giovani Drogo, um soldado que atuará num forte próximo à fronteira do país. A lenda antiga de que uma invasão tártara se organiza constitui seu desejo de permanecer nesse lugar isolado: quando a invasão surgir, ele estará na linha de frente da defesa nacional. Será herói nacional, colocando sua vida em jogo pelo país. Um sonho que adia o presente, que adia a vida a cada dia que a invasão não chega. E ela parece demorar. Sempre amanhã, nunca hoje. A vida de Drogo vai passando nesse lugar árido e vazio, com vistas para um deserto.

Se na história de Buzzati o soldado Giovani Drogo abdica da vida cotidiana ao esperar o momento da glória - sempre adiado, já que a invasão dos tártaros nunca chega -, em Primavera num espelho partido, de Benedetti, Graciela e Rafael tentam algum diálogo com o tempo, com a vida, que não para, mesmo que sua história e identidade tivessem sido confiscadas por um regime autoritário. A urgência da vida bate à porta a todo momento: é preciso trabalhar, pagar contas, educar os filhos, comer... A vida não permite a interrupção produzida pelo Estado; mesmo partidos, o tempo exige que esses seres vivam com uma parte de sua comunidade permaneça presa. Mesmo assim, tanto Drogo como Graciela e Rafael tentam frear a passagem e ação do tempo, do organismo, do corpo; a glória virá quando a defesa nacional agir, protegendo a nação da invasão. Enquanto isso, se subtrai a vida numa rotina interminável de rondas pelos muros do forte, trocas de turno e rituais que mantenham firmes as defesas contra o inimigo inexistente. 

Na história de Benedetti, Graciela e Rafael tentam frear a vida enquanto Santiago não retorna ao convívio social. O exílio forçado da família, que produz uma suspensão das identidades, a prisão de Santiago em seu país e os laços interrompidos pela violência do regime são âncoras que prendem o presente num passado que não pode se fazer presente. A vida pede passagem, mas todos perderam parte de si, partidas pela força bruta. E Santiago, bem, a vida passa por ele sem poder ser vivida na experiência, no encontro. Santiago pensa, imagina a vida e sofre toda a brutalidade que uma ditadura pode produzir.

Benedetti e Buzzati escrevem histórias distintas, em momentos distintos, com vozes que não se confundem, mas, de maneira belíssima, fazem pequenas fotografias da vida, e da necessidade de se viver, mesmo que partidos, fatiados. O sol nasce, e sempre será necessário levantar e seguir em frente. Talvez esse possa ser um dos milhares de motivos que levam Baldwin a dizer que não pode se considerar um pessimista, já que está vivo. Talvez por isso Santiago tenha resistido, e Graciela arranjado um trabalho, e Rafael tenha encontrado outras relações pessoais. 

Porque hoje é o último dia do verão, e amanhã será o primeiro do outono.


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