Listas Marotas: ficção autobiográfica ou autobiografia ficcional; tanto faz...

quinta-feira, janeiro 17, 2019


Imagem: Pixabay

| Por Raphael Pellegrini |

Uma das ideias que mais tem me atraído ultimamente é a de falar sobre literatura. Falar desse sentimento de estar nos livros e dos encontros comigo que cada página tem produzido. E, pensando nisso, gostaria de tentar escrever mais sobre esse processo que é passar de um livro a outro, de uma história a outra, e traçar percursos; porque uma das tarefas mais gostosas dos últimos tempos tem sido agrupar pequenas unidades temáticas com os livros. Logicamente que essa linha que conecta os livros é completamente inventada, e provavelmente os elementos que coadunam o conjunto só devem fazer perfeito sentido para mim. 

Toda vez que pego um livro novo, ou coloco uma nova obra na meta de leitura do ano, fico observando a sinopse pensando em qual característica, revelada naquele pequeno textinho, será elencada por mim para agrupar a obra em algum grupo já existente. Por exemplo: poderia pensar em Kindred como literatura escrita por mulher; como literatura fantástica; como romance que explora a desigualdade racial. Bingo. De todas as possibilidades, para mim, Kindred é uma obra que conversa com outros textos que falam de escravidão e de racismo. Logo, ele estaria ao lado de Maya Angelou, Toni Morrison ou James Baldwin.

Nesse mesmo contexto, penso quase diariamente - e todo dia essa autora muda de lugar na minha estante mental - em quem devo colar à Chimamanda. Buchi Emecheta, com certeza, mas Jhumpa Lahri também me parece coerente, assim como Tayeb Salim, mesmo que esse último, às vezes, me pareça caminhar em demasia para Salman Rushdie e para Bahiyyh Nakhjavani e seu alforje. Também poderia colocar Chimamanda junto de Toni Morrison e Maya Angelou, autoras mulheres e negras, com personagens centrais negras. Ou seja, as conexões são feitas totalmente ao acaso.

Pensando nisso, e no meu desejo de escrever mais sobre o que ando lendo, começo o post de hoje com uma listinha de quatro livros, que começam numa categoria e, aos poucos, vão caminhando para outro lugar. E a categoria elencada para a lista é: ficções autobiográficas não tão autobiográficas, mas que, ainda assim, são autobiográficas, mas que são ficção. Deu para entender? Farei o percurso de indicação conforme tem seguido minha lista de leituras, assim mantenho o sentido que construí originalmente.


1 - A velocidade da luz - Javier Cercas


Cheguei nesse livro pela lindíssima da TAG. Antes dele, estava lendo o Alforje, uma história que não tinha muitas pontes com o livro de janeiro do serviço de assinatura de livros. Quer dizer, existem muitas pontes, muitas conexões e tudo mais, porém o vínculo com a categoria que defini mentalmente não existia. 
Nessa história, o narrador, um escritor que se muda para os Estados Unidos para ensinar literatura, conhece um ex-soldado da guerra do Vietnã, e nesse contato surge a necessidade de escrever a história desse encontro. 
A questão é que a confecção da história é difícil, principalmente depois do narrador ficar famoso com um outro livro já lançado, que traz fortuna e fama. Basicamente esse movimento mexe de tal forma na vida do escritor, que o livro novo não sai. Além disso, existe uma dificuldade em saber da história do ex-combatente, existem sentimentos estranhos, existem conflitos na vida, existe muita coisa que posterga o trabalho. Nesse ponto, a história por traz da concepção do romance A velocidade da Luz se confunde com a própria história do romance, de modo que Cercas e o narrador borram as fronteiras da ficção e da realidade. 
É no movimento de adiamento  que surgiu o caminho para o terceiro livro da lista, que não tinha chegado ainda - comprei exatamente no momento que terminei a leitura de Cercas.





2 - Diário de um Ano Ruim - Coetzee


Ficcionalmente autobiográfico, essa obra de Coetzee foi um baile de literatura. Primeiro porque o livro inteiro é dividido em três partes a cada página. No primeiro terço da página temos o livro que é escrito pelo narrador. Uma obra de não-ficção, ensaios sobre alguns dos problemas do mundo atual. Filosofia, música, literatura e muitos outros temas são debatidos nesse trecho.

No segundo terço da página, temos o relato pessoal do escritor desse livro que ocupa o primeiro terço do Diário de um Ano Ruim. E é nesse pedaço de página que tudo começou a ganhar brilho, porque esse livro de Coetzee reforçou para mim como a literatura transborda, como a literatura pode tomar conta da página e deixar um ensaio no chinelo. Me peguei em muitos momentos seguindo a narrativa por esse segundo terço da página e tive de voltar muitas vezes para ler a parte de cima. 

Por fim, no último pedacinho da página, temos uma narrativa da mulher que digita a obra do autor do livro do primeiro terço da página. O senhor de idade já não enxerga como antes e contrata o serviço dessa mulher. É por essa segunda voz que, por mais interessante que possa ser o livro de ensaios, as relações humanas do cotidiano podem ser muito mais interessantes e ricas de humanidade. 

Diário de um Ano Ruim foi uma obra que trouxe para mim a sensação de que a literatura ainda pode fazer mais pelo mundo do que um belo ensaio. Simplesmente porque quando leva para o faz de conta, para o território da "não-verdade", desarma o leitor, fazendo com que a preocupação seja com a lógica e coerência interna da obra. Suspende as regras do mundo em função das regras da literatura, e quando o leitor está desarmado, pode ser arrebatado, deslocado. Logicamente nem todo deslocamento traz progresso ou possibilidades  maiores de ser no mundo - por isso desacredito a ideia de que ler torna as pessoas melhores -, mas sempre fica a possibilidade de produzir mudanças, sejam elas quais forem.




3 - O Romance Luminoso - Mario Levrero (leitura em andamento)


Enquanto esperava a chegada desse longo romance, li Coetzee e me encantei mais ainda por essa linha coerente que tracei por mim mesmo. Mas com Levrero a coisa cresceu em alguns graus. 
Dessa vez o narrador tem problemas, muitos problemas. Talvez, se eu pudesse resumir o que essa voz tenta dizer o tempo todo é: a vida seguia bem, como uma boa frase que vai se constituindo. De repente, um parênteses foi aberto, e para que a frase continue, é necessário fechar esse parênteses. Levrero, para mim, parece viver nesse espaço aberto do parênteses. Começou O Romance Luminoso em 1984, viveu uma situação que o fez abrir um parênteses, e agora, para terminar o romance, é necessário fechar o que se abriu sem seu consentimento. Mas é sempre difícil encarar sentimentos antigos, dores colocadas para debaixo do tapete, histórias não esquecidas, porém abandonadas num sótão empoeirado. Além disso, existe medo que o Levrero depois dos parênteses não seja como o de 1984; e ainda há muito a ser dito no Romance Luminoso.

É com esse sentimento que vamos seguindo pelo diário do autor do Romance Luminoso. Tal diário é também o romance, numa confusão eterna de ficção, realidade, realidade ficcional, ficção real. Não importa que nome dar. O que tem me levado a virar cada página é o mergulho numa humanidade partida, comum, que enfrenta e foge diariamente de algumas lembranças, mas se mantém constantemente em busca de sair desse lugar de desconforto confortável. 

O Romance Luminoso tem se mostrado uma excelente obra, e fico na torcida para que até o final da leitura eu permaneça encantado com o texto.




4 - Primavera num Espelho Partido, de Mario Benedetti


Essa é uma leitura que fiz há alguns anos e que nos últimos meses voltou à mente. Existe também um motivo oculto para essa retomada, que foi muito mais ao acaso do que o potencializador da lembrança desse livro. Aqui temos uma obra que gira no entorno da ditadura militar no Uruguai. Benedetti foi exilado político nessa época, e uma das cinco vozes presentes na obra pode ser vista como a do próprio autor. 

A lembrança que tenho desse texto é rarefeita, mais parecido com sensações do que de algo em específico. Um coração batendo acelerado num trecho mais próximo ao final do texto é, com certeza, o momento mais marcante. 

Como tinha dito no começo desse texto, os agrupamentos que faço normalmente produzem deslocamentos, e bem, o texto de Benedetti me leva para uma outra categoria de livros, que posso citar como exemplo: As Meninas, de Lygia Fagundes, Noite da Espera, de Milton Hatoum e A Resistência, de Julián Fuks.

Mas isso é tema para outra lista!




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