Faça Boa Arte, de Neil Gaiman

sexta-feira, outubro 12, 2018



|  Por Clara Taveira  |


Ainda nessa vibe (muito querida) de produzir textos caóticos sem me importar muito com forma ou qualquer outra coisa, eis que surge esse livro para resenhar. O discurso do autor Neil Gaiman, que apareceu em promoção, e eu sentei o dedo na compra da Amazon sem nem hesitar.

Já tinha visto o vídeo do discurso (estará disponível no final desse post, se eu me lembrar depois de escrever e revisar tudo), e exatamente por isso eu quis olhar a versão impressa. Ouvi muitas coisas boas (e outras igualmente ruins) sobre o trabalho de Chap Kidd, o designer, então decidi dar uma chance. Ultimamente, toda vez que eu digo "decidi dar uma chance", as coisas têm se mostrado esplêndidas. Esse texto vai mostrar que a compra de FBA não foi uma exceção.

Aviso: ele não é uma resenha. É uma impressão de leitura REPLETA de informações pessoais. Se você deseja uma resenha literalmente, há outros textos bacanas para você ler, tá? Mas fica aqui, vai ter bolo no final.

Sou autora. Romancista por vocação. Especificamente, de romances românticos. Como brinquei no grupo que tenho com minhas leitoras no WhatsApp, o lance é que eu sou uma velha amarga e romântica, então não tem jeito: gosto de histórias de amor, mesmo que afogadas em calda de ironia, humor e sarcasmo.

Comecei a escrever meu primeiro livro, "Lena", creio que... em 2014? Eu tava com uns 20 e poucos, não me recordo exatamente minha idade, mas sei que foi antes de casar. Em 2015, já casada, comecei a publicá-lo na plataforma Wattpad. O que seria um livro único se transformou em uma "duologia" (melhor neologismo do século, não acham?), que foi publicada na Amazon.

Possíveis capas de uma possível nova versão da duologia... Quem sabe? :)

Menos de dois anos depois, a duologia saiu do ar. Eu não estava satisfeita com ela DE MODO ALGUM. Troquei de capa um milhão de vezes, achando que era esse o problema, mas não era.

Um tempo antes-durante-depois dessa decisão, publiquei outra história, com a mesma protagonista, Helena Maria, chamada Amor nas Alturas. Fiquei muito mais contente com o resultado, e na hora de editar para lançar na Amazon, dividi em três partes, que viraram a trilogia Amor nas Alturas. A história da trilogia começa exatamente onde a história da duologia terminava. Enquanto a primeira mostra Lena aos 28 anos, a segunda ia até o finalzinho dos 27.


Quem tiver interesse, é só clicar na foto, e você será direcionado à Amazon. O livro também está disponível em edição física, volume único, pela Editora Livros Prontos. :)

A grande diferença entre a duologia e a trilogia, além das propostas (romance de formação X romance romântico), das idades, dos cenários (Brasil X Turnê pela Europa + Brasil) foi o momento. Pressa, não conhecimento, falta de estudo e leituras, falta de uma edição profissional, enfim, diversos fatores gritam na minha cara que eu fiz bem em retirar a duologia Lena do ar. Era outro momento, outra Clara. Inclusive, na época, eu usava o sobrenome da família do meu avô, Taveira. Hoje, uso da família de minha mãe, Caraciolo. Parece besteira, mas não é. Há uma diferença enorme aí entre usar o sobrenome de alguém que eu não conheci e o usar o sobrenome de minha mãe, minha vó, enfim, dessa família louca que inspirou muitas personagens femininas minhas.

O lance é que eu entrei agora em uma nova fase da minha escrita. A primeira foi com a duologia, a segunda foi com a trilogia e todos os outros, e a terceira começa agora, comigo exclusivamente pensando em... fazer boa arte.

Vamos ao livro do Gaiman, enfim.


"Em maio de 2012 o autor best-seller Neil Gaiman subiu ao palco da University of the Arts na Filadélfia para fazer um discurso de formatura. Durante dezenove minutos ele dividiu com os formandos suas ideias sobre criatividade, bravura e força, encorajando os novos pintores, músicos, escritores e sonhadores a quebrar as regras, pensar de forma inovadora e, acima de tudo, FAZER BOA ARTE.

O discurso virou um livro, idealizado pelo renomado designer gráfico Chip Kidd, que contém o texto inspirador de Gaiman na íntegra. Seja para um jovem artista no início de sua jornada criativa, ou como sinal de gratidão para um mestre a quem se admira, ou para você mesmo, essa obra é o presente ideal para quem dá tudo de si a fim de fazer bem-feito o que faz.

O oceano no fim do caminho, sua primeira obra lançada pela Intrínseca, ultrapassou a casa dos 40.000 exemplares vendidos.

Chip Kidd é um dos mais aclamados designers editoriais da atualidade, criador de capas antológicas, como a do livro Jurassic Park, cuja ilustração inspirou a identidade visual do filme de Steven Spielberg."



Ler (e re-ouvir) o discurso do Gaiman me trouxe um mar de sensações muito, muito coloridas à mente. Lembram da resenha-impressão-de-leitura-caos que fiz de Respire Fundo, da Camila Marciano? Mencionei nela uma névoa turquesa com glitter, se recordam disso? Então, há tempos que eu tenho repensado minha arte por meio de reflexões e leituras, e tais reflexões se assemelham a uma névoa gostosa, como essa, em que eu me sinto plenamente satisfeita com os pensamentos, decisões, redecisões e afins.

Faça Boa Arte foi só a cerejinha do bolo.

Novamente vou dizer o que afirmei lá no texto de Respire Fundo: eu não critico quem faz literatura pensando em dinheiro. Boletos não se pagam sozinhos, e há aí um certo privilégio no discurso do Neil Gaiman motivado pelo fato de ele ter construído sua carreira sendo um homem branco, solteiro, sem filhos, nascido e criado na Inglaterra. Se ele fosse uma mulher solteira, com dois filhos, caixa de supermercado em Simão Pereira, Minas Gerais, a situação não seria tão... "simples" quanto poderia ser.

Mas, opa, foco nas aspas. "Simples". Ele mesmo menciona que não há essa simplicidade em todo o tempo. Que tudo pode parecer simples, mas no fundo pode ser difícil pra caramba. Então nem oito, nem oitenta aqui.

Voltando para a minha experiência com o texto, me vejo muito refletida no discurso do Gaiman quando ele diz que todo projeto movido por dinheiro deu errado. 

Veja bem, só a trilogia Amor nas Alturas já bateu a incrível marca de UM MILHÃO DE LEITURAS na Amazon. Some a UM MILHÃO DE LEITURAS no Wattpad e você vai ver que eu jamais reclamaria de barriga cheia. Também não estou dizendo que tudo que fiz na primeira fase (Clara Taveira) e na segunda fase (C. Caraciolo) da minha escrita foi um fracasso. Jamais, amei escrever cada um dos livros que publiquei.

O lance é que em vários momentos, eu pensei: "e se eu mudasse isso aqui para vender mais?", "e se eu botasse uma cena de sexo extra, para chamar atenção?", "e se um terno, tanquinho ou casal se pegando fosse mais comercial?". Não me culpo por esses pensamentos, nem culpo quem utiliza desses artifícios absurdamente comuns e justificáveis para se vender seus livros. Boletos precisam ser quitados, não estamos na Inglaterra em 1996.

Não encontrei as capas antigas de Lena, mas tenho, é claro, as capas da trilogia separadamente. Você notou que a foto do livro físico (a que eu postei com link clicável mais acima) mostrou uma imagem só? É que a capa da trilogia completa é diferente da capa dos 3 livros de Amor nas Alturas.

Além do fato de uma capa ter sido feita por mim e por meu marido (dois professores de português e literatura e revisores) e de a outra capa ter sido feita pela Laís Lacet, uma designer profissional, há outras diferenças, notou? Se não, eu explico numa boa, vamos lá.

O ensaio dos dois livros é exatamente o mesmo: mesmos modelos, mesmo cenário, fotógrafo, roupas, etc. Inclusive, sigo o modelo, Artem, no Instagram, ele é divertidíssimo. Só que na capa profissional, eu não abri mão de algumas coisas que abri na capa amadora, por diversos motivos.

Lembrando: capa amadora é a vermelha. Profissional, a de colagem (mas acho que é óbvio, né?).

Listando: eu amo xadrez vermelho, coloco em um monte de livros. Sempre gostei. Na capa amadora, o ensaio foi escolhido SOMENTE POR CAUSA DA ROUPA XADREZ DA MODELO. Na capa profissional, fomos além: juntamos o que eu sempre quis, uma colagem, com... mais xadrez. A tira vermelha que aparece atrás do título é de um vestido meu, presente de meu pai.

Além disso, há muito mais arte, montagens, colagens, elementos, cores, itens, conceito do que na primeira. Minhas amigas e colegas autoras são testemunhas de que eu queria uma capa com colagem artística desde 2015. Só em 2018 fui conseguir uma que me agradasse plenamente.

Parece bobagem, mas essas pequenas mudanças nas duas capas mostra muito sobre tudo que abri mão em minha arte quando estava em busca de dinheiro.

Ei, não há nada errado em buscar dinheiro com sua arte, já falei mil vezes! O problema é que para o Neil Gaiman e para mim, grana ser o único objetivo dela se torna um imenso elefante branco que senta com seu rabão gigante em cima de muita coisa importante.

Talvez hoje eu não faria a capa com esse ensaio, ainda que goste muito do Artem, das fotos, da celulite de Lena, discreta, mas presente, enfim. Gosto muito de tudo. Mas talvez, muito talvez, eu brincasse com outras coisas, como fiz com a capa de Não Me Dê Flores, ou como quando comprei a capa da LA Design (você pode ver todas essas capas no meu Facebook clicando aqui) para Formas de Amor, enfim, capas com ilustrações, brincadeiras e tudo mais.

Talvez, não sei. Há momentos e momentos. O próprio Gaiman diz que há livros dele que nunca conheceram a luz do dia. Então talvez Amor nas Alturas fique bem com essa roupa (linda) feita pela Lacet mesmo. Realmente não sei.

Uma das coisas mais curiosas sobre a (re)leitura desse texto é quando Gaiman menciona sobre as consequências da relação dinheiro-arte. Quando ele fala que fazer por dinheiro é ruim porque, caso não dê dinheiro, você talvez não tenha nada (nem $ nem orgulho pela obra), eu dei altas risadas. Porque é isso mesmo. Eu tenho livros que ficaram em primeiro lugar no ranking, mas que não me causaram TANTO prazer quanto uma novelinha que lancei um dia desses na Amazon, mas que não rendeu 1/3 do que outros livros meus.

https://amzn.to/2RMELSe

Fiquei triste? Absolutamente não. Poderia listar aqui umas 20 resenhas de blogueiras (parceiras ou não) e leitoras falando o quanto amaram Cinco Imprestáveis. Em um dia de lançamento, fiz um monte de gente rir e chorar com meu velho rabugento, e mesmo que o livro não pague nem uma conta de luz, eu ainda tenho a satisfação sensacional de saber que mexi com muita gente. Vou deixar de exemplo essa resenha aqui. Se quiser ver completa, é só clicar na foto.


https://www.instagram.com/p/BouhuI0nL3k/
Claro, ganhar dinheiro é show. E necessário. Como disse, não somos homens solteiros de 20 e poucos anos morando na Inglaterra em 1996, em um momento pré-internet em que podemos mentir para ganhar emprego (que feio, Gaiman).

Porém, para mim (e vou enfatizar o "para mim" mil vezes), minha arte não pode ser movida pelos meus boletos. Por isso eu tenho dois empregos, para que não jogue uma carga desnecessária em cima do que eu escrevo. Por isso eu não tenho me importado mais com ranking, com leituras Kenp, com um monte de coisas que moviam tudo que eu fazia antigamente. Claro, continuo trabalhando arduamente na minha literatura, divulgando, fazendo parcerias, enfim.

Mas o objetivo agora é outro.

Todas essas reflexões sobre minha arte, minhas capas, minhas histórias, meus textos, enfim, tudo isso é algo que eu venho trabalhando nos últimos tempos. Como disse, o livro de Gaiman foi a cerejinha do bolo. Por essas e outras razões, eu digo com uma certeza que nem imaginava ter:

FAÇAM BOA ARTE.

O resto vem. Se não vier, a gente corre atrás de outra coisa. Dar um jeito pra tudo é uma característica muito incrível do brasileiro, não é? Resiliência, que chama?

Como prometido: teve bolo. Só não teve o vídeo. Mas joga no YouTube, que você acha rapidinho. Ah, e se for ler o livro, leia a versão física. É mais agradável que o e-book, que ficou meio caótico, ok?



Gostou desse caos e quer ler o livro? Comprando por esse link, você ajuda o CJL a se manter e não paga mais nada por isso. E ele tá em promoção, viu? Doze reais, olha que cremoso.

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