Diário de Leitura com Spoiler #7 Trilha Sonora Para o Fim dos Tempos, de Anthony Marra

segunda-feira, outubro 15, 2018



|  Por Raphael Pellegrini  |


Parte I - Escrito em 13/10/2018

Das poucas certezas que tenho na vida, uma delas adquiri lendo Trilha Sonora Para o Fim dos Tempos: Anthony Marra leu Farenheit 451 e desejou ser um andarilho nessa história.

Tudo bem, não tenho como provar isso, e tal afirmação também não pode ser tão assertiva. Conheci Marra há menos de vinte e quatro horas e nada sei, de fato, sobre sua vida ou hábitos de leitura. Mas sei que se em algum momento ele falou verdadeiramente sobre alguma obra que o tenha influenciado a escrever essa história, com certeza ele pelo menos pensou em Ray Bradbury e nos andarilhos do fim do livro.

Mas de onde veio tal pensamento?

Surgiu do pequeno, das microscópicas astúcias de cada personagem, que fazem pela memória narrada no boca a boca a história atravessar os tempos mais sombrios, sejam eles em um dos extremos que Baumann menciona (segurança), sejam no extremo da liberdade.

Até esse momento da leitura, essas são ideias bastante trabalhadas. A violência se faz nos extremos, por isso, em tempos de mudanças radicais, é difícil apontar vilões e heróis. Ou talvez seja sempre impossível fazer isso, já que simplifica a vida de um modo absurdo.

A questão é que Anthony traz uma narrativa belíssima de pequenas desobediências, que buscam, em suas invisibilidades, marcar na história uma narrativa dissonante. Uma outra voz à história consagrada. Lembrei, logicamente de Michel de Certeau e seus praticantes do cotidiano, que sem ter poder, borram a história consagrada, jogando com o impoder de suas práticas. Fazem astutamente gestos, imprimem marcas, escrevem histórias, que só podem ser lidas por alguns poucos que, talvez num acaso, consigam encontrar uma garrafa perdida no meio do oceano com a mensagem depositada.

Lembrei de Ginzburg e o paradigma indiciário. Sobre as marcas que pintores imprimem em quadros, detalhes imperceptíveis... Será mesmo?

E daí lanço mais uma certeza: Marra leu Ginzburg e decidiu fazer sua história a partir daquilo que Morelli conta

Durante a leitura desses três primeiros contos marquei muita coisa, mas talvez esse texto poderia ser resumido somente na seguinte passagem, quando uma artista restaura uma obra modificada pelo regime stalinista, fazendo com que a pintura voltasse ao original:

"Não tomamos as ruas; não derrubamos governos nem trocamos líderes; nossa insurreição ocorreu em dez centímetros de tela."


Ou


"Demo-lhes tudo o que pudemos, mas nossa maior dádiva foi transmitir-lhes nossa própria marca de pessoas comuns. Eles podem reclamar de nós, podem achar que devíamos ser mais ambiciosas e me os bitoladas, mas algum dia vão perceber que só permanecem vivos graças ao que os torna comuns."


Parte II - Escrito em 15/10/2018

Por favor, somente continue por mais algumas páginas. Talvez seja essa a sensação nesse momento da leitura. O livro de Anthony Marra tem produzido quase a mesma sensação que um bom disco: um começo empolgante, seguido de um desejo de desbravar a próxima faixa e, por fim, a vontade que o disco se alongue um pouquinho mais, porque são apenas dez faixas, e você já está na oitava.

Relendo o que escrevi sobre os três primeiros contos da história, percebo não mudaria uma letra, mas nesse momento posso acrescentar algumas. Acrescento que nunca imaginei encontrar uma narrativa que trouxesse a mesma sensação que tive ao ler A Visita Cruel do Tempo. Diferentemente da história de Egan, aqui temos a estrutura um pouco mais frouxa no que toca uma ideia de romance. Em compensação, a ideia de se tratar de um livro de contos também não cola. Existe em Trilha Sonora Para o Fim dos Tempos o mesmo movimento de pular no tempo e na voz de personagens para, dessa forma, compor cenários diversos e lacunados. Como na vida, nunca se sabe tudo por todos os pontos de vista.

E quanta beleza nos pequenos gestos existe nesse livro. Talvez seja isso que mais brilhe para mim nessa leitura, a potência do pequeno, do desimportante, daquilo que, no nosso cotidiano, não tem valor algum. Como metáfora disso, retomo a fita que Kolya carrega consigo, com a instrução de ouvir somente quando estiver em seu último momento de vida. 

O conteúdo da fita, assim como em A Carta Roubada, de Poe, não é ouvido/lida, existe e não existe ao mesmo tempo, porque seu conteúdo não importa. A fita é uma materialidade de um gesto, uma âncora presa em um tempo e espaço diverso, em que os laços mais fortes se constituíram. Pensei nela também como um permanente lembrete de que mesmo na maior das desumanidades, aquele pedaço de plástico é um farol de esperança, mesmo que não mude a situação vivida por Kolya. A vida continuará degradante, mas o carinho do irmão permanecerá junto dele até o último dos dias.

"Eu dei a fita a Kolya no dia em que foi embora...

 - Eu não tenho toca-fitas - disse ele.
- Não tem problema - respondi.
- Não tem problema - repetiu ele.
- Volte para casa - mal consegui dizer."

De certa forma, nada pode mudar aquilo. Mas, mesmo assim, ainda existe um elo entre esse mundo sem humanidade e uma outra forma de existência guardada na memória afetiva, no laço de amizade, na crença de um amor capaz de se manter vivo, mesmo que somente na lembrança. 

Lembrança essa bastante trabalhada em Fahrenheit. Seria essa a saída de Marra e Bradbury para o fim dos tempos?

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