Diário de Leitura com Spoiler #6 Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

quinta-feira, outubro 11, 2018



|  Por Raphael Pellegrini  |

Passei algum tempo pensando no que deveria escrever sobre o final de Fahrenheit 451, principalmente porque dois trechos específicos tocaram em pontos sensíveis, que venho pensando já há uns bons anos.

"— Vocês realmente acham que eles ouvirão?
— Se não ouvirem, teremos simplesmente de esperar. Passaremos os livros adiante a nossos filhos, de boca em boca, e deixaremos que nossos filhos, por sua vez, sirvam a outras pessoas. É claro que muito se perderá dessa maneira. Mas não se pode obrigar as pessoas a escutarem. Elas precisam se aproximar, cada uma no seu momento, perguntando-se o que aconteceu e por que o mundo explodiu sob seus pés. Isso não irá demorar muito."

Sempre pensei nas possibilidades de ser professor, nas atribuições da profissão e em suas responsabilidades, que em muito se assemelham aos livros. O professor deve ensinar - a literatura deve mudar a forma como as pessoas percebem o mundo -, o professor, se for bom, sabe como prender a atenção da classe, sabe controlar a turma, sabe transpor seu conhecimento para o outro do modo certeiro. Bem, só o que foi esquecido nessa lógica é que "não se pode obrigar as pessoas a escutarem. Elas precisam se aproximar, cada uma no seu momento". É nesse momento que a escola como local privilegiado de transformação social fracassa. É nesse momento que olhamos assustados para as redes sociais e vemos o crescimento do movimento nazi-fascista dentro dos núcleos mais escolarizados.

Quando foi que, no meio dessa equação produtivista da vida, esquecemos que o tempo do outro, o pensamento do outro, a escuta do outro é do outro, e não nossa? De nada adiantam técnicas, metodologias, tecnologias se não existir uma relação humana, de respeito ao espaço individual e ao tempo do outro. Encontraremos apenas ouvidos fechados e pouco desejo de produzir uma conversa.

Sinto o mesmo em relação à literatura. Em tempos sombrios, é fácil encontrar o texto literário como veículo para um mundo melhor. Seu poder transformador é anunciado por aqueles que sentiram suas mudanças permeadas pela relação com as narrativas. E essa é a questão: eram pessoas que desejavam escutar, que acreditavam que aquele momento era o seu momento de ouvir uma história, de baixar a guarda e suspender seus julgamentos, para então pensar junto com o livro.

"Elas precisam se aproximar, cada uma no seu momento..."

E os momentos de cada um não podem ser definidos no horário escolar, no grupo de leitura ou no tempo de campanha eleitoral. O tempo não pode ser linearizado em função da necessidade do outro. O tempo é sempre individual, singular, e não pode ser controlado pelo desejo do outro. É nesse ponto que acabo me colocando - quando assumo o papel de professor - como um dos andarilhos de Fahrenheit 451.

"— Fênix.
— O quê?
— Nos tempos antes de Cristo, havia uma ave estúpida chamada Fênix que, a cada cem anos, construía uma pira e se consumia em suas chamas. Deve ter sido prima-irmã do homem. Mas, toda vez que se queimava, ressurgia das cinzas e novamente renascia. E parece que estivemos fazendo e refazendo inúmeras vezes a mesma coisa, só que com uma vantagem que a Fênix nunca teve. Nós sabemos a estupidez que acabamos de cometer. Conhecemos todas as coisas estúpidas que estivemos fazendo nos últimos mil anos. Desde que não nos esqueçamos disso, que sempre tenhamos algo para nos lembrar disso, algum dia deixaremos de construir as malditas piras funerárias e de saltar dentro delas. A cada geração, escolheremos mais algumas pessoas que se lembrem disso."

Por isso penso na importância das narrativas, na força de contar histórias, percursos, movimentos humanos possíveis. São formas de guardar vida e história, que, talvez, um dia, para alguém disposto a se aproximar, possam produzir um pouco de questionamento sobre algo que viveu ou que está vivendo. Penso a literatura como a potência do encontro inesperado. Literatura como acontecimento.

A leitura também me levou para um outro debate interno - esse quase mencionado em todos os últimos textos - sobre a possibilidade de queimarmos livros simplesmente por eles não atenderem a certos requisitos sociais de nosso tempo. Sei que aquilo que escreverei pode ser desviado para caminhos muito violentos, porém é preciso ter a coragem de Montag e romper com o pensamento que vem ganhando cada vez mais força.

Muito se disse sobre o quanto a obra de Monteiro Lobato é racista. Bem, isso é verdade. Praticamente todos os trechos compartilhados na internet que mostram traços racistas são verdadeiros. Imediatamente surgiram as perguntas: o que faremos com esses livros? Como podemos oferecer para nossas crianças obras racistas?

E, em seguida, a solução: Monteiro Lobato é um racista babaca e ninguém deveria mais comprar esses livros. É racista e não deveria nem ser publicado. É uma vergonha uma editora lançar uma obra infantil racista.
Engraçado como as palavras de Beatty parecem tomar forma.

Por outro lado, poderíamos fazer o caminho reverso ao da fogueira. Poderíamos, sim, assumir o racismo presente naquela obra e também naquele tempo. Reinações de Narizinho é publicado em 1921, pouco mais de 30 anos após a abolição da escravatura. Somos racistas mesmo depois de quase 100 anos, o que são trinta nessa conta?

Poderíamos exigir edições críticas, comentadas, em que teríamos acesso às possibilidades do texto literário e à contextualização de seu tempo e do nosso. Poderíamos abrir espaço para que pesquisadores negros falassem do preconceito sofrido por um grupo da nossa sociedade. Poderíamos explorar a obra para produzir debate, para produzir escuta, reflexão e, quem sabe, algum tipo de mudança.

Mas a solução mais aclamada na maior parte dos espaços é a fogueira.

Por isso a fala de Granger é tão importante:

"Conhecemos todas as coisas estúpidas que estivemos fazendo nos últimos mil anos. Desde que não nos esqueçamos disso, que sempre tenhamos algo para nos lembrar disso, algum dia deixaremos de construir as malditas piras funerárias e de saltar dentro delas"

Por isso a literatura como resposta a um tempo e como receptáculo de vida se torna tão importante, se desejarmos parar de nos lançar na pira funerária novamente. Não será fabricando artificialmente nossa história que poderemos para de nos atirar no fogo.


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1 comentários

  1. Raphael escreve tão bonito que até dá vergonha dos meus textos literários haha <3

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