Diário de Leitura com Spoiler #5 Farenheit 451, de Ray Bradbury

terça-feira, outubro 09, 2018


|  Por Raphael Pellegrini  |

Muito deslocamento tem ocorrido durante a leitura de Farenheit 451. Em parte, pelo livro, em parte, pelo tempo político. É estranho como as palavras de um cara lá da década de cinquenta ainda possam ter um sentido tão reconhecível. Esse cara escreve numa época que a maior tecnologia de mídia existente era o cinema, e mesmo assim é assustadora a capacidade de previsão de Ray.

O drama de Montag tem sido um pouco também o meu. O orgulho do discurso de Beatty, ao contar como a sociedade pós-livro se constitui, é assustador. O resumo do resumo do resumo, livros que se transformam em manchetes e, por que não, manchetes que se transformam em hashtags. Em paralelo, a busca pela permanente felicidade, pela anestesia, pelo entretenimento em todos os lugares, vindo até mesmo das paredes de sua casa (Hololens, é você?)

 "Clássicos reduzidos para se adaptarem a programas de rádio de quinze minutos, depois reduzidos novamente para uma coluna de livro de dois minutos de leitura, e, por fim, encerrando-se num dicionário, num verbete de dez a doze linhas. Estou exagerando, é claro. Os dicionários serviam apenas de referência.

[...] — Acelere o filme, Montag, rápido. Clique, Fotografe, Olhe, Observe, Filme, Aqui, Ali, Depressa, Passe, Suba, Desça, Entre, Saia, Por Quê, Como, Quem, O Quê, Onde, Hein? Ui! Bum! Tchan! Póin, Pim, Pam, Pum! Resumos de resumos, resumos de resumos de resumos. Política? Uma coluna, duas frases, uma manchete! Depois, no ar, tudo se dissolve! A mente humana entra em turbilhão sob as mãos dos editores, exploradores, locutores de rádio, tão depressa que a centrífuga joga fora todo pensamento desnecessário, desperdiçador de tempo!"


O nazismo é de esquerda. Comunista!

 "Resumos de resumos, resumos de resumos de resumos."

Bolsonazi! x Fora PT!

"Política? Uma coluna, duas frases, uma manchete!"

Por isso tem sido tão impactante reconhecer o livro todo dia quando desço para ir na esquina. Ontem meu porteiro, hoje a conversa compartilhada no elevador, mas, em todos os casos, sempre resumos rápidos, afinal não podemos desperdiçar tempo. Não temos tempo para nada. 

Será?

"A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?"

E assim vamos deixando de lado um outro tempo, que é de si, do self, do pensamento que não se faz instantaneamente, na velocidade de um interruptor de luz, e que não precisa ter utilidade, aplicabilidade prática.

Lembrei de quando publiquei um vídeo no Facebook e a plataforma me mostrou que a taxa de retenção nos primeiros quinze segundos era de quase 70%, o que me levou a pensar: qual conteúdo eu seria capaz de produzir em 15/30 segundos? Porque assim eu conseguiria passar minha mensagem para mais pessoas. Não cheguei a uma conclusão na época, mas hoje me dou conta de que é impossível transmitir o que desejo em 30 segundos, um minuto ou dez, simplesmente porque criar qualquer tipo de conexão demanda o movimento oposto, o de não resumir, o de não simplificar, o de não automatizar a relação, e o tempo para isso é outro, não segue a cronologia do mercado.

"— Você é um romântico incurável — disse Faber. — Seria cômico se não fosse trágico. Não é de livros que você precisa, é de algumas coisas que antigamente estavam nos livros. As mesmas coisas poderiam estar nas “famílias das paredes”. Os mesmos detalhes meticulosos, a mesma consciência poderiam ser transmitidos pelos rádios e televisores, mas não são. Não, não. Absolutamente não são os livros o que você está procurando! Descubra essa coisa onde puder, nos velhos discos fonográficos, nos velhos filmes e nos velhos amigos; procure na natureza e procure em você mesmo. Os livros eram só um tipo de receptáculo onde armazenávamos muitas coisas que receávamos esquecer. Não há neles nada de mágico. A magia está apenas no que os livros dizem, no modo como confeccionavam um traje para nós a partir de retalhos do universo. É claro que você não poderia saber disso, é claro que você ainda não pode entender o que quero dizer com tudo isso. Mas intuitivamente está certo, isso é o que conta. Três coisas estão faltando. A primeira: você sabe por que livros como este são tão importantes? Porque têm qualidade. E o que significa a palavra qualidade? Para mim significa textura. Este livro tem poros. Tem feições. Este livro poderia passar pelo microscópio. Você encontraria vida sob a lâmina, emanando em profusão infinita. Quanto mais poros, quanto mais detalhes de vida fielmente gravados por centímetro quadrado você conseguir captar numa folha de papel, mais “literário” você será. Pelo menos, esta é a minha definição. Detalhes reveladores. Detalhes frescos. Os bons escritores quase sempre tocam a vida. Os medíocres apenas passam rapidamente a mão sobre ela. Os ruins a estupram e a deixam para as moscas. Entende agora por que os livros são odiados e temidos? Eles mostram os poros no rosto da vida. Os que vivem no conforto querem apenas rostos com cara de lua de cera, sem poros nem pelos, inexpressivos. Estamos vivendo num tempo em que as flores tentam viver de flores, e não com a boa chuva e o húmus preto. Mesmo os fogos de artifício, apesar de toda a sua beleza, derivam de produtos químicos da terra. No entanto, de algum modo, achamos que podemos crescer alimentando-nos de flores e fogos de artifício, sem completar o ciclo de volta à realidade. Você conhece a lenda de Hércules e Anteu, o gigantesco lutador cuja força era invencível desde que ele ficasse firmemente plantado na terra? Mas quando Hércules o ergueu no ar, deixando-o sem raízes, ele facilmente pereceu. Se não existe nessa lenda nenhuma lição para nós hoje, nesta cidade, em nosso tempo, então sou um completo demente. Bem, aí temos a primeira coisa de que precisamos. Qualidade, textura da informação."

Por isso,  estipulei horários fixos em que me permito mergulhar no mundo e um horário fixo em que desacelero o tempo e volto para um vida diferente. O resultado disso é que tenho lido mais, tenho debatido mais e tenho até conseguido escrever um pouco, o que tem me feito muito bem. 

Fahrenheit 451 tem sido brilhante em seu traje de mundo.

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