Diário de Leitura com Spoiler #4 Farenheit 451, de Ray Bradbury

sexta-feira, outubro 05, 2018



|  Por Raphael Pellegrini  |

Sexta-feira, cinco de outubro de dois mil de dezoito, e eu sinto medo. Eu leio Fahrenheit 451 como um desafio a esse medo, como  enfrentamento de um pensamento que teima em caminhar para outros textos. Para o livro do Milton Hatoum que ainda não li, e que nem sei se daqui a dois anos Montag já não terá agido (penso que esse primeiro volume da trilogia poderá ser o único a ser lançado). Para o livro de Benedetti, que resenhei aqui nesse blog (que já foi outro antes desse). Para Modiano, ou para Primo Levi, quando a ideia se torna extrema.

" - É um trabalho ótimo. Segunda-feira, Millay; quarta-feira, Whitman; sexta-feira, Faulkner. Reduza os livros às cinzas e, depois, queime as cinzas. Este é o nosso lema."

E na minha cabeça essa fala não acabou aí. Montag também falou de Ana Maria Machado e de Luiz Puntel. E de... Bem, eu preferi não pensar e não olhar mais para o lado. Preferi não imaginar tanto, porque a tristeza é certeira. Conversamos sobre mudanças de planos, viradas que não gostaríamos de dar, mas que são necessárias quando tudo fica mais difícil. A gente até se pergunta: mas será que só eu estou sentindo isso? Será que é só comigo?

"Não tenho amigos. Isso é o bastante para provar que sou anormal. Mas todos que conheço estão gritando ou dançando por aí como loucos ou batendo uns nos outros. Você já notou como as pessoas se machucam entre si hoje em dia?"

Em casa a gente conversa. Passamos o dia fazendo isso. Bem, é nosso trabalho escutar essas vozes e, em alguns casos, trocar uma palavra por outra, sem, de fato, mudar muita coisa. Palavra por palavra, palavra na palavra, palavra com mais palavra. Mas mesmo resistindo no dizer, também dizemos do nosso receio, que vai muito além do salário ou daquele lançamento desejado. É um receio da potência do sabujo, e da necessidade da epígrafe do texto de Bradbury: "Se te derem papel pautado, escreve de trás para frente."

Essa é uma sexta-feira diferente de todas as 1700 que vivi, e não pela unicidade da vida, mas porque o medo é verdadeiro. Porque enfim parimos uma identidade, e a criança é feia. Poderia até ser anunciado seu nascimento da seguinte forma:

No fundo do rede-social nasceu o VerdeAmarelo, herói de nossa gente. Era branco leitoso e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo da televisão, que a bela, Pátria Amada pariu uma criança feia.

Bom domingo.

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