Diário de leitura com spoiler #3 Interferências, de Connie Willis

sexta-feira, outubro 05, 2018



| Por Raphael Pellegrini |

A noite de ontem foi uma das mais saborosas do ano. Virar a última página de Interferências (detesto a ideia de terminar a leitura, porque de fato nunca acaba; Olá, Bayard) foi quase como um reencontro com um tipo de literatura guardada na memória e no coração. Sim, a expectativa de que Connie Willis seria como Gaiman se concretizou, e a sensação foi quase a mesma da época em que lia Deuses Americanos.

O desfecho é bastante adorável e só reforçou algumas ideias que têm andado na cabeça por esses tempos. Ontem escrevi sobre as possibilidades de ser, e assim que apertei o botão para publicar, lembrei de Boaventura. O pensamento dele sempre guiou minhas ideias enquanto estava na universidade e não seria surpresa se eu o reencontrasse quando voltasse para a literatura.

A concepção de que todo conhecimento, todo percurso de experiência, produz saberes incompletos se constitui para mim como um caminho de enfrentamento de uma noção de verdade total, uma síntese, espremida como suco de laranja, o qual teve todo o bagaço filtrado por uma peneira deveras fina. No processo de espremer o fruto, na busca pelo suco mais puro, esquecemos que cada vez que tentarmos fazer uma laranjada, o gosto será diferente, a cor, a textura, o sabor, o processo de espremer e de beber serão diferentes. A busca pela verdade única que se esconde por traz da estrutura não cabe mais em um mundo em que se lute pela possibilidade da diferença.

Mas se onde surgiu esse papo? Dos clubismos, das posturas únicas, da impossibilidade da plasticidade de ser, em detrimento de meia dúzia de comportamentos acetáveis.

“ Uma das premissas básicas da ecologia de saberes é que todos os conhecimentos têm limites internos, referentes às intervenções no real que eles permitem, e externos, decorrentes do reconhecimento de intervenções alternativas propiciadas por outras formas de conhecimento.”

E outras formas de viver o mundo é o que mais existe em Interferências. Fazendo um recorte bem pequeno e descrevendo com bastante cuidado, Willis mostra tanta diferença na Commspan e na família de Briddey, que é até difícil fazer um mapa mental de cada personagem. Eles são descritos, desenvolvidos, mas ganham vida de tal maneira, que só é possível falar sobre eles como seria possível delimitar uma pessoa conhecida [parcialmente, ressaltando a incompletude de qualquer tentativa de delimitação].

Meave e a inteligência fora do padrão, Oona com uma sabedoria mais silenciosa, que pega os atalhos da vida, C.B. como um nerd que vive exatamente na linha da conexão permanente com o mundo e na desconexão com o mundo… Enfim, caminhos e percursos diversos, como de todo mundo, que se (des)fazem a cada instante. E por isso tem me incomodado tanto os clubismos apoiados em verdades duras, que pipocam a cada dia na internet.

temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades

Essa sempre foi minha luta em qualquer espaço que percorri, então dá para entender o incômodo quando todo conhecimento é total e quando toda igualdade se sobrepõe à diferença. E por isso resolvi escrever diariamente, para ressaltar uma diferença que não tem regime de verdade, é apenas percurso sem função (esses textos não servirão como análises literárias, como debates sociais, como fonte para outras pesquisas, como…). É só um modo de produzir existência pelo falar.

Por falar nisso, comecei Fahrenheit 451 e tenho a impressão que a leitura vai puxar mais ideias adormecidas.

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