Diário de leitura com spoiler #1 Interferências, de Connie Willis

sexta-feira, outubro 05, 2018


|  Por Raphael Pellegrini  |

Uma das situações curiosas de constituir um diário de leitura virtual e online é reescrever o texto por ter feito outros três primeiros parágrafos que nada têm de diários. Engraçado como no momento de escrever algo sobre si as palavras fogem e a escrita pasteuriza, colando num receptor distante que deveria estar apontado apenas para aquele que escreve (eu)

Interferência [ato ou efeito de interferir]

A leitura de Interferências tem mexido com tudo. Não por ser um livro que abala a estrutura pelo tema que aborda. Não começa como o recém-publicado livro da Svetlana, ou porque me leva para lugares difíceis como Sylvia Plath me levou. Na verdade, desde o começo achei que essa história seria como um bom limpador de paladar entre narrativas mais pesadas. Até que…

Interferência [interação de movimentos]

Redes sociais

Interferência [oscilações]

Até o momento em que voltei a pensar nas redes sociais e no quanto elas podem ser prejudiciais para o momento que tenho tentado viver. É estranho se dar conta da existência sem humanidade das pessoas virtuais. Essa ausência de humanidade (ausência de corpo, de cheiro, de pele, de toque, de uma presença impossível de ser apagada, pelo menos para quem não pensa em matar o vizinho do lado) é algo que tem rondado meus pensamentos nos últimos tempos. É possível constituir uma relação humana se você tira tudo aquilo que caracteriza o humano? Mas, principalmente, é possível constituir uma relação humana quando a existência do outro depende apenas de um botão?

Interferência [energia não desejada]

Isso tudo surgiu na cabeça enquanto lia Interferências. Simplesmente porque a ideia central do livro é a possibilidade de criar mais conexão entre as pessoas num mundo aparentemente conectado.

Interferência [afeta a recepção]

Lembro daquele vídeo do Bauman, da questão das redes, e do movimento, e da facilidade de ter novos “amigos” e perder os “novos amigos”, e que a diferença entre 499 e 500 é a mesma de 0 e 500, porque esse número se faz em questão de horas.

Interferência [sinais indesejados]

E quando isso acontece, quando penso no que vejo hoje pelo Facebook e uso o pensamento reverso, sinto, de fato, que todo o radicalismo, violência e clubismo se origina por essa premissa e se potencializa pelos algorítimos de interação, que querem mais é que você comente em todas as postagens, brigue, grite e esperneie virtualmente, afinal, você está online. Enquanto responde aqui e curte ali, olhe esse anúncio desse produto pensado para você, que passou dez minutos olhando esse site ou parou em frente a determinada loja. E se tudo der errado, se todas as relações constituídas na rede derem errado, amanhã você cria um novo perfil, com o outro sobrenome e adiciona outras 500 pessoas. Ou melhor, adiciona as mesmas 400 de antes e deixa aquelas 100 problemáticas bloqueadas.

Interferência [intromissão]

E por isso tenho ficado incomodado com a violência que leio, uma violência gratuita que só existe na internet. Por isso tenho ficado incomodado com a facilidade com que as pessoas fazem e desfazem amizades. Talvez o que me incomode nisso tudo é que não há espelhamento nem transferência daquilo que um dia vivemos offline (o modo como fazíamos amizades) e qualquer relação online, simplesmente por ser uma limitação da plataforma. Não é possível ter corpo online, e o corpo é a diferença.

Interferência [distorção]

E aí a Briddey, C.B. e Trent ganham outros sentidos, porque o triângulo amoroso da história não é um triângulo simples como qualquer outro. É uma disputa entre projetos de mundo que se apoiam em pilares distintos, em desejos distintos. Online x Offline. Leio na narrativa de Connie a minha narrativa nesse mundo, de uma aproximação cautelosa da conexão (vide esse texto/tentativa de diário), na minha disputa de produzir alguma existência que não se resuma a um simples click (follow/unfollow).

Interferência [recepção]

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