Como cortejar livros

quarta-feira, outubro 17, 2018



|  Por Raphael Pellegrini  |


Tudo começa como nos filmes. De um lado da praça o rapaz está encostado em um canto, olhando o movimento. Do outro, uma menina, junto de mais duas ou três amigas, passa pelo campo de visão do garoto, que subitamente é atraído por aquele movimento. E esse é o primeiro contato. Uma espiada, rápida, fugidia, distante, mas suficiente para criar uma linha de conexão. Antes eram dois sujeitos seguindo suas vidas, depois desse momento, um dos dois já não vê mais o mundo da mesma forma.

Mas o acaso é algo bastante engraçado. Aquele grupo de meninas poderia simplesmente estar no caminho de algum evento importante, poderia, cada uma das meninas, voltando para casa, com pressa, porque o último capítulo da novela preferida iria ao ar em poucos minutos. Uma delas, inclusive, atravessara a praça com tamanha pressa que nem notara o que ocorria no entorno. Só pensava na televisão que ainda estava desligada, no sofá que ainda não estava preparado e nas suas vestimentas. Sim, porque não existe possibilidade de assistir ao último capítulo e viver as emoções de um último capítulo com a mesma roupa usada na rua. A novela pede o pijama, a roupa confortável, a liberdade completa de movimentos. Pede o conjunto completo, que vai desde a simultaneidade de milhares de pessoas estarem assistindo juntas as mesmas cenas, até o cheiro e a textura da roupa confortável, usada nos momentos mais relaxados da vida. Mas, enfim, isso é apenas uma hipótese e nem mesmo existe novela nesse momento. O que acontece naquele dia, o do encontro fugidio de olhares é uma pequenas festa junina na praça. 

Algumas barracas com brincadeiras, muitas crianças correndo, idosos sentados e pais de meia-idade comendo espetinhos. Há também os jovens, em grupos - como as meninas - e outros um tanto mais reservados, olhando o movimento. Há também os românticos, aqueles que se apaixonam pela presença de pessoas, pelos sorrisos trocados, pelos amores despertados em questões de segundos. Bem, esse é o caso do jovem encostado no canto. Ele é um romântico, e por isso observa as crianças correndo, os idosos conversando e os pais de meia-idade comendo. Participa da festa apenas com sua presença feliz, um corpo de alegria por estar naquele local com tanta gente.

Mas não é somente de alegria dos outros que ele se alimenta. Aquele grupo de meninas passando produziu um efeito diferente em seu coração. Algo quase visual. De um instante para o outro, as crianças foram parando de correr e gritar, os idosos começaram a sussurrar, os pais se mantiveram de bocas fechadas. Também acontece um pequeno problema técnico e parte da iluminação do local se apaga. Provavelmente uma das crianças tropeçou nos fios do gerador e uma tomada foi desconectada. Mas a praça não fica totalmente às escuras, um holofote permanece acesso, e bem, ela, aquela que fez tudo isso acontecer em seu coração se ilumina em contraposição de todo o escuro do entorno.

São breves momentos, mas desde quando o tempo é linear? Um segundo depois do outro? Balela! Aquele momento dura minutos, horas, uma vida inteira condensada em microssegundos. E depois tudo volta ao normal, quer dizer, nem tudo. Agora, para o rapaz, existe no mundo uma pessoa que é capaz de produzir tudo isso. A questão que surge ao romântico é direta: o que fazer a partir daí? Se apresentar, trocar olhares, buscar saber o nome, se apresentar ou simplesmente voltar para casa com a felicidade de ter vivido um momento de extrema felicidade?

Mas o destino é caprichoso e muitas vezes não facilita a vida das pessoas. Pois bem, a menina responsável por toda a revolução no coração do romântico para exatamente em frente a ele. No início apenas observa o entorno, como se procurando a barraca de pipoca? Ou seria a de churros? Talvez nenhuma das duas. O importante é que na busca, encontra algo que não esperava. 

Esse encontro é deveras estranho, porque ela sempre imaginou que só acontecesse naquele tipo de novela, que na nossa hipótese inicial apresentaria o último capítulo exatamente naquele momento. Os efeitos são bem similares ao do jovem: crianças silenciando, idosos sussurrando, pais de meia-idade de boca cheia, luzes se apagando, luz se acendendo. Tempo desconjuntado, desarrumado, coração acelerado.

Pronto, enfim o primeiro contato se estabeleceu. Ufa, como é difícil fazer duas pessoas se encontrarem.

A partir daí tudo ocorre como um roteiro. Ele dá um sorriso tímido, que não dura nem um segundo - enquanto se pergunta mentalmente se não está sendo patético ou se a menina não olha para alguém que esteja vindo por trás. Quem olharia para um garoto como eu, pensa ele simplesmente por achar que aquela felicidade de ser correspondido seria demais para uma noite, ainda mais de viver toda aquela cena em câmera lenta.

Ela, por sua vez, retribui o gesto e cochicha com as amigas, que também já notaram um desajuste na amiga. Sabe aquele momento em que você percebe que seu amigo já não escuta mais a conversa? As piadas perdem o tempo certo do riso e da réplica, e as expressões faciais já não acompanham o tom da conversa. É nessa hora que todas pensam: ok, definitivamente está acontecendo algo com ela. No que ela está pensando?

A resposta produz um riso contido em todas e milhares de pensamentos diversos. Julgamentos felizes, desejos reprimidos, projeções e imaginações. Também produz conselhos, dicas, cutucões com os cotovelos e zombaria. E nesse momento o rapaz entende: mesmo que não tenha decidido o que fazer, o destino fez isso por ele (o talvez tenham sido as meninas), e o momento do cortejo se iniciou. O primeiro encontro ocorreu e foi muito bem-sucedido, dando a oportunidade de ir além e, quem sabe, após essa fase, o rapaz não consiga até mesmo ter a possibilidade de se apresentar?

Com o novo momento iniciado, o primeiro movimento do rapaz é bastante assertivo, ele não quer deixar dúvidas sobre a possibilidade de ter entendido o movimento da garota e nem mesmo se mostrar desinteressado. Assim, ele caminha até algumas barracas próximas ao grupo. Durante o movimento se questiona se deveria ir até uma barraca com brincadeiras - exibir suas capacidades em busca de um prêmio pareceria primitivo? Infantil? São duas opções naquele momento: o jogo de argolas ou a barraca de pipoca. 

A cada passo tende para um lado. Direita, argolas, esquerda, pipoca. Argolas, esquerda, direita, pipoca... E assim vai caminhando lentamente sob o olhar atento do grupo de meninas. Por fim, decide pela pipoca, afinal, poderiam compartilhar a guloseima enquanto conversam. Se o assunto não fluísse, pelo menos teriam motivo para manter a boca ocupada. 

Já com o pacote em mãos - escolheu a doce e mediu a quantidade de leite condensado de maneira criteriosa, o suficiente para adoçar, mas sem que tornasse o pacote uma meleca contagiosa - senta em um canto bastante iluminado, já que não gostaria de passar uma impressão errada, afinal ele é o romântico da praça, lembre-se disso, leitor.

Como um jogador de xadrez, termina seu movimento e aperta o botão, passando a vez. Agora é a vez da menina de cortejá-lo e de mostrar que também deseja uma aproximação. Se tudo acabar ali, com o rapaz comendo pipoca e a menina conversando com as amigas, tudo bem. Muitas sensações gostosas foram vividas, e isso é o suficiente. Mas o destino é muito inteligente e detalhista. Eram três garotas no grupo, mas sua ação se deu exatamente naquela que desejava escapar do grupo de amigas. As duas outras moças eram interessantes, lindas e tudo mais, o problema é que uma estava zangada com o namorado, por uma briga boba, e a outra estava apaixonada por um rapaz da igreja. Assim, todas as conversas só giravam em torno da injustiça de um e das qualidades do outro. E, bem, nossa mocinha romântica só desejava uma história para si.

Assim, vendo a possibilidade de construir seu próprio caminho, e de lambuja ainda escapar daquela tautologia interminável, se despede das amigas e se direciona ao local que o rapaz romântico a espera. Será que espera mesmo? Será que isso não é apenas uma loucura da cabeça da jovem, um desejo produzido pela vontade de se livrar momentaneamente das amigas?

Ai, droga, eu sou uma idiota! Como assim eu vou sentar ao lado dele? E se eu tiver entendido tudo errado? Droga, não dá mais para voltar, ele me viu. Droga... droga... Ok, respire, pode não ser nada, eu levanto daqui a cinco minutos. Já sei, posso desamarrar o tênis, dando a entender que sentei ali somente porque o cadarço estava muito apertado e eu queria dar uma folga para meus pés. Isso, pronto, tudo certo. É só eu sentar e começar a desamarrar e amarrar o tênis. Ele vai ter uns trinta segundos para falar alguma coisa e, se não disser nada, eu levanto e volto para as duas. Isso, seguro, sem chances de levar um fora tão na cara.

E assim ela senta e faz tudo como o roteiro. Olha para ele, quase como um pedido de licença por sentar naquele local, desamarra o pé direito com calma, puxa a lapela e começa a amarrar novamente, dessa vez com delicadeza, deixando evidente que está ali apenas para afrouxar os cadarços. Ele, por sua vez, observa a cena e pensa em mil possibilidades de começar um assunto. Aquilo não pode ser um acaso do destino. Ela tinha olhado para ele, tinha sorrido, ele já tinha entendido. Ele dera o passo de iniciar o cortejo e ela havia correspondido.

Anda, pensa em algo. Diga alguma coisa. Droga, ela está soltando o cadarço do outro pé. Ela vai embora assim que terminar. Anda, não deixa passar.

Ok, dessa vez você foi muito longe em achar que esse garoto olhou para você, comprou uma pipoca só para você saber onde ele estava e depois sentou nesse local somente para esperar sua aproximação. Talvez seja hora de ouvir os conselhos de todos e dar uma chance para aquele chato.

Quando o segundo laço está quase finalizado, surge um pequeníssimo sussurro:

- Você aceita uma? - ele diz, colocando o pacote de pipoca no campo de visão dela.
- Poxa, obrigada.

Os dois comem silenciosamente, pensando quem daria o próximo passo, se existiria um próximo passo, com medo de ser um enorme erro. Gritos silenciosos, ritmados pelas batidas do coração. Até que novamente ele retoma a conversa, dessa vez com um pouco mais de coragem.

- Qual é o seu nome?
- Octavia Butler.




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1 comentários

  1. Um texto forte, para um livro forte, de uma escritora forte. Simples assim. Impactante assim.

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