A Caderneta Vermelha, de Antoine Laurain

quarta-feira, outubro 10, 2018

|  Por Clara Taveira  |

Minha relação com esse livro sempre foi meio de desprezo e carinho. É a segunda edição que tenho, a primeira eu tentei ler, soltei aquele "mé" desanimado e passei para frente depois de um ano de poeira acumulada na estante.

Eis que encontrei por cinco reais em um dos camelôs-sebos-barraquinhas de livros do Catete, no Rio de Janeiro, e pensei em dar uma segunda chance.

Que bom que dei.

A prosa de Antoine me lembrou bem de leve a de Patrick Modiano (que, inclusive, é um personagem secundário na história!), o que é de um prazer muito suave e gostoso. A história me incomodou um pouco pela ausência de travessão nos diálogos, então fiquei um pouco confusa no começo, mas depois que peguei, fui. Li em um ou dois dias, de noite, antes de dormir.

Confesso que não tenho interesse em livros que "retratem a cena da cidade/país tal", então não me importei muito com detalhes sobre Paris e tudo. Mas, salvo isso, foi uma história muito, muito gostosa de ler. Vou deixar a sinopse, como de costume:

"Caminhando pelas ruas de Paris em uma manhã tranquila, o livreiro Laurent Letellier encontra uma bolsa feminina abandonada. Não há nada em seu interior que indique a quem ela pertence – nenhum documento, endereço, celular ou informações de contato. A bolsa contém, no entanto, uma série de outros objetos. Entre eles, uma curiosa caderneta vermelha repleta de anotações, ideias e pensamentos que revelam a Laurent uma pessoa que ele certamente adoraria conhecer. Decidido a encontrar a dona da bolsa, mas tendo à sua disposição pouquíssimas pistas que possam ajudá-lo, Laurent se vê diante de um dilema: como encontrar uma mulher, cujo nome ele desconhece, em uma cidade de milhões de habitantes? "

A história tem detalhes muito cremosos. Você se sente parte de um momento um tanto quanto confuso do Lorrâ (porque eu só sei chamar ele assim) enquanto tenta desvendar quem é a dona da bolsa, assim como fica presa na história tentando descobrir o que houve com a moça. A narrativa é um cadiiinho, mas bem cadinho mesmo, travadinha de vez em quando, mas isso é compensado pela riqueza de detalhes sobre livros, livraria, pessoas e, claro, os itens da tal bolsa.

(Né muito Modiano isso de um milhão de detalhes de objetos?)

A caderneta que dá nome ao livro me fez querer ressuscitar um velho hábito de escrever em cadernos ou agendas, pois o modo não linear com o qual sua dona escreve me causou um prazer estético maravilhoso. Nunca fui muito boa em trabalhar de um jeito metódico e 100% organizado no que diz respeito ao que escrevo (seja ficção ou não ficção), então senti uma identificação.

Por último, menciono que se trata de uma história de um possível amor, ou não. De uma possível amizade, ou não. De um possível relacionamento, ou não. E isso é muito gostoso, pois te segura e te motiva a correr pelas ruas de Paris atrás ou da moça ou do livreiro.

Ah, claro: estou numa fase de leituras em livrarias, bibliotecas. Personagens livreiros têm me conquistado, tanto é que já pulei desse para A Pequena Livraria dos Corações Solitários (que é beeem diferente, mas me conquistou por ser um uplit... em livraria). Lorrâ me parece um cara meio perdido, meio sonhador, trabalhando em uma livraria, então isso o tornou um dos personagens masculinos mais adoráveis desse ano.

Preciso mencionar que o associei diretamente ao Nino Quincampoix, do Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Pensando bem, há algumas outras semelhanças entre o livro e o filme, sabia? Só agora, no final dessa resenha/impressão de leitura, é que me dei conta... Mas não vou mencionar quais, vai perder a graça. Vamos ficar somente com Nino-Lorrâ e uma história com sabor de café coado com biscoitinhos amanteigados.






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1 comentários

  1. ahh eu também adoro escrever em agendas/diários hahaha

    adorei a resenha <3

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