A Improbabilidade do Amor, de Hannah Rothschild

terça-feira, outubro 09, 2018


|  Por Clara Taveira  |


Pois é, cá estou eu num daqueles momentos em que não sei muito o que falar de um livro. O desejo é somente dizer que ele é lindo, lindo, lindo e me perder num mar de adjetivos doidos (como foi no Instagram Os 111 Livros de Clara - inclusive, segue lá). Mas prometo fazer um esforço aqui e falar mais sobre o livro do que na última resenha/impressão de leitura. Chega mais.




"Quando Annie McDee encontra um quadro sujo em um obscuro brechó, ela não tinha ideia do que descobriu. Chef talentosa, mas falida, Annie cedeu ao impulso e gastou as últimas libras que tinha no bolso em um presente para um homem que mal conhecia. Enquanto se debate com a solidão de um coração partido e a falta de perspectiva, ela está longe de imaginar as repercussões de sua pequena extravagância: singelamente pendurada em sua casa está agora uma obra-prima. 

De repente, Annie se vê sugada pelo tumultuado mundo das artes de Londres, povoado por socialites, oligarcas russos, leiloeiros desesperados e comerciantes sem escrúpulos, todos planejando colocar as mãos em sua grande descoberta. 

Na tentativa de desvendar o passado da pintura, Annie descobrirá não apenas uma lista de antigos proprietários ilustres, mas alguns dos segredos mais sombrios da história europeia. E, quem sabe, se abrir novamente ao amor."


Já comecei roubando, né? Socando a sinopse para dar mais corpo ao texto? Não, juro, não foi esse o objetivo. Só quis trazer a sinopse para dizer algo: ela não dá conta do livro. Dá não, sério. Quando li, achei bacana, juro que achei, mas ao mesmo tempo pensei "lá vem mais um romance igual a outros 489 que já li". Aí comecei a ler e mordi a língua. "Não julgue o livro pela sinopse" é o novo "não julgue o livro pela capa"? Não sei, mas enfim: a sinopse não faz jus ao livro.

A Improbabilidade do Amor é um livro de fôlego. Principalmente para quem estava de ressaca literária semanas atrás, como eu: há mil detalhes sobre arte, culinária, história, tudo muito rico - e muito "afastável" para um leitor impaciente.

Mas apesar dos pesares, sou muito, muito paciente com livros que me interessam. Então me joguei de cabeça nele, e vou te falar: amei cada momento. A riqueza de detalhes sobre a paixão de Annie pela culinária, somada a outras riquezas minuciosas, como história da arte, do mercado de obras, mesmo a trajetória da pintura que dá nome ao título, seu passado contado, pasmem, por ela mesma, o remexer de um legado riquíssimo e controverso de uma poderosa empresa, tudo, tudo é minunciosamente contado de forma a te enfiar na história de um jeito que você não sai - nem se quiser.

Confesso que, no meio do livro, ele fica um cadinho morno. Deixa, momentaneamente, de ser fascinante, mas isso logo acaba à medida que você, teimoso, prossegue com a leitura. Os muitos personagens vão tomando forma em sua mente, o resgate das memórias do quadro de Watteau e as buscas de Rebecca (uma personagem que começa apagada, mas vai crescendo ao longo da história) por uma verdade até então inquestionável são temperos incríveis para pensarmos (e repensarmos) a monetização exacerbada da arte, bem como suas consequências.

Um dos momentos mais incríveis, ao meu ver, é quando Annie revela gostar mais da culinária enquanto arte do que de quadros. Seus argumentos (e não vou citá-los, seria um spoiler sem gosto) são tão deliciosos, que confesso: concordei com todos eles. Inclusive, refleti muito sobre a questão do que é arte ou não, principalmente no que tange a moda e costura, uma de minhas formas de se expressar favoritas, além da literatura. É só tecido, é só letra? Como diria a própria pintura, ela própria é só pano com poeira e tinta numa moldura bonita, mas faz diferença no preço e reconhecimento do objeto artístico?

Curiosamente, essa reflexão me veio exatamente no momento em que uma obra de arte do Banksy "se destruiu" após ser vendida por um milhão de libras - o que foi um valor baixíssimo, comparado com os outros preços de outras obras detalhadas no livro.

Foto: Portal R7
Terminei o livro em uma sentada. Como disse, do meio para o final, a ação cresce e culmina num desfecho não esperado (mas esperado, ao mesmo tempo), então foi difícil soltar o livro até saber o que aconteceria. O modo como a narrativa é construída é muito curioso, então não tenho do que reclamar de absolutamente nada sobre o livro - nem sobre o meiuco meio insosso, sabia?

Clicando aqui, você vai para o Instagram "Os 111 Livros de Clara". Lá, posto fotos bonitcheenhas e textos sobre os livros. Mas nunca resenhas, no máximo impressões de leituras. :)

AIDA (sim, eu uso siglas sempre, não desistam de mim) consumiu o restante da minha ressaca literária, me fez mergulhar em um mundo de arte tão intenso, que me fez repensar a minha própria arte, meus livros, o modo como eu conto minhas histórias e como narro as coisas. Quando um simples livro te faz olhar para o modo como você lida com o que trabalha, é porque, como diria o poeta, "o bagulho foi sério".

Por essas e outras, creio ser o melhor livro do ano. Mas eu comprei outros quatro da editora, a Morro Branco, vai que eu mude de ideia ainda, não?



Esse livro só tem versão física. Mas além de ser um preço show de bola, o projeto gráfico dele é muito lindo, então vale totalmente a pena. Comprando por esse link, você ajuda o CJL a se manter e não paga nada por isso :)

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