Distância de Resgate, de Samanta Schweblin

sábado, setembro 16, 2017

|  Por Raphael Pellegrini e Clara Taveira  |

Ficamos pensando se seria possível falar desse texto sem dar spoiler, estragar a experiência daquele que ainda não leu e deseja olhar uma resenha apenas para saber se vale a pena investir umas 30 pratas no livro. Pensando nisso, acreditamos, pelo menos nesse momento imediatamente após a leitura, que sim, vale a pena comprar o livro se você tiver em mente que essa não é uma obra que se abre para você em uma forma convencional, com diálogos devidamente separados - as vozes não se confundem, mas as passagens de cena são rápidas, precisamos ficar atento em muitos momentos - quando as cenas vividas pelos personagens são alternadas. 

E essa é uma das graças do livro. Porque toda confusão que possa existir nele faz parte da narrativa, é proposital e brilhantemente construída. Sentimos como se fosse o esforço necessário para fazer na linguagem aquilo que a narrativa necessitava. Naquela brincadeira bem simplista de forma e conteúdo, aqui existe uma forma que se desloca do modelo mais tradicional a fim de poder fazer uma narrativa. Ou, por outro ângulo, existe uma narrativa tão potente, que a forma é dobrada, curvada como a luz no entorno de um buraco negro, servindo a um desejo muito forte de contar uma história. 

Além disso, posso também falar para você, possível leitor dessa obra, que o texto é daqueles que te pegam quando lidos numa sentada (é um livro curto que merece uma tarde de mergulho vertiginoso) e que deixam a sensação de que precisam ser lidos novamente em outras fases da vida. Como Dom Casmurro para nós dois, esse é um daqueles títulos que precisam de mais leituras, em que apenas conhecer a história não basta, fica um desejo de experienciar novamente o percurso. O importante aqui é a conexão leitor-obra, uma relação totalmente singular, temporal e mutante. Tenho absoluta certeza que nunca mais conseguiremos ler esse texto da mesma forma, e isso é o mais maravilhoso.

Por isso, se você chegou até aqui e não deseja receber qualquer spoiler, meu conselho é que compre o livro e depois volte para ler o restante dessa postagem. Mas, se você já leu o livro ou não liga para possíveis informações da história, inclusive para possíveis interpretações e divagações mirabolantes, siga em frente, pule uma casa e gire novamente a roleta, porque temos muito o que falar do livro.

Antes de fechar a sessão sem spoiler, deixo claro nosso intuito de publicar esse texto antes de ir ao encontro do Leia Mulheres justamente pelo desejo de gravar minimamente nossas primeiras impressões e possibilidades de leitura antes de encontrar outras vozes que relatem suas ideias e pensamentos. O hype para o encontro está lá nas alturas, então, preferimos debater entre nós dois e ir de ouvidos muitíssimos abertos para escutar os diversos outros sentidos produzidos.



A partir daqui, spoilers (ou teorias, na verdade... Quem sabe?)



Sobre pais ausentes e a pressão esmagadora do mundo sobre as mulheres

Distância de um Resgate parece nos apresentar (pois nada nunca é preto no branco em nenhum livro, o que dirá esse) pais ausentes. Pais imprestáveis, pequenos, desimportantes e, principalmente, que agem como pais do modo que mais conhecemos no cotidiano. São homens “ocupados” com o mundo - porque suas esposas não são, né?! -, com o trabalhos, com seus negócios. Pais como os da capa da edição especial da Folha no Dia dos Pais em 2017. Pais que produzem um mundo em que seus filhos devem ser totalmente criados por suas mulheres, que não precisam ir além de mero aplicador de espermatozóides, que acham que suas companheiras, esposas, namoradas, crushes, aprendem desde cedo seu papel como mães, como dom natural da mulher. Que acreditam que mulheres - todas elas, sem exceção, como condição sine qua non de seu gênero- passam, geração após geração o significado de distância de resgate. Como a própria narradora diz, é conhecimento passado de mãe para filha. Não de pai para filho.

Nessa perspectiva, o campo apresentado na obra, surgiu para nós como uma grande metáfora dessa parcela da sociedade, de suas concepções e expectativas. As mulheres não são as responsáveis por todo aquele veneno, não são responsáveis por toda aquela degradação crescente, não são responsáveis por toda aquela violência produzida contra o ser humano. Entretanto, precisam cuidar de tudo, evitar as catástrofes de acontecerem. Precisam evitar que aquilo que chegará inesperadamente, que cairá no seu colo sem aviso prévio, aconteça. Tarefa impossível, fadada ao fracasso.

Elas não têm escolha na obra e, muitas vezes, na vida cotidiana, simplesmente por serem quem são. Tudo é muito mais difícil quando você tem que pagar uma taxa extra, quando você é incubida de evitar algo que não está no seu controle. O papel das mães é manter seus filhos alimentados, felizes, saudáveis, fortes, proporcionar um bom ambiente familiar, formar um cidadão honesto e capaz de viver em sociedade de forma democrática. As mães devem isso, devem aquilo, devem aquilo mais, mas sempre precisando garantir que suas ações no outro sejam totalmente eficazes. Além disso, a responsabilidade é total, não há compartilhamento, mesmo que na concepção nada tenha sido gerado de maneira unilateral. Enquanto isso, os pais cuidam de cavalos, de tratores, de construções, de grandes plantações.

Distância de Resgate trouxe para gente a tentativa de duas mulheres, duas formas distintas de cuidar de seus filhos. De um lado, Carla, que tentava deixar uma corda mais extensa, pensava numa forma mais livre. Do outro, Amanda, que restringia o alcance de suas ações ao mais próximo possível. Duas formas que nos pareceram sempre fadadas ao fracasso, independente de quão forte essas duas mulheres segurassem suas crianças. O acontecimento não pode ser prevenido, e exigir dela esse poder é desumano e desleal. É fazê-las jogar um jogo de cartas marcadas, no qual somente elas podem jogar para que somente elas produzam a derrota. 

Os acidentes que ocorrem na história são acontecimentos, e como Derrida já dizia, não se pode prever ou antever um acontecimento. Se fosse possível perceber que ele está quase chegando, que está vindo, não seria um acontecimento. Por isso é cruel que somente aquelas mães joguem esse jogo da vida, e que joguem simplesmente por serem o que são: mulheres.


Do conhecimento que vem pelos vermes.

Se por um lado Distância de Resgate trouxe para nós toda essa discussão sobre a injustiça que é provocada sobre a mulher contemporânea, toda a parte espiritual fantástica presente no texto brilhou mais que o sol. E a seguir vamos tentar explicar um pouco como lemos essa maravilhosa história.

Temos duas vozes principais no texto: Amanda, que fala como espírito no corpo de Diego, e Diego, que fala pelo corpo que fica após o transplante de almas realizado pela senhora da casa verde. Será isso mesmo? Pode parecer louca a ideia, mas temos bons indícios que toda a história gira em torno de um corpo que busca sobreviver e de um espírito que busca entender tudo que está acontecendo. Mas também pode não girar.

Algumas pistas valem a pena ser perseguidas, e vou citar duas delas: a pergunta constante de Diego sobre os vermes e os tempos verbais empregados por Amanda. A primeira pista traz um conhecimento do corpo. No transplante de alma, todo o saber aprendido pela alma de Diego se foi, por isso sua única pista é a sensação do envenenamento. É um conhecimento que fica, um formigamento bem específico, que pode ser usado para tentar entender como tudo está se desenvolvendo.

No que toca os tempos verbais, pode parecer em alguns momentos que Amanda narra algo do passado, mas, pode acreditar, mais para o meio do livro a gente ficou bem certo que tudo acontecia em tempo real. E é aí que o truncamento da história acontece.

Quem narra parece ser o espírito de Amanda, mas ela conta o que acontece com o seu corpo, que guarda a alma de Diego. O procedimento que salva a vida do menino aparentemente cria essa conexão entre os dois. Tudo que ela pode dizer é conhecimento do corpo, como se existisse um fio que a liga seu espírito e seu corpo. E isso é que foi uma das partes mais brilhantes dessa leitura. Aquilo que chega até nós, leitores, é uma narrativa que é do corpo e da alma de duas pessoas distintas, misturadas e trancadas dentro de corpos que não são os seus de nascimento. Ou não.

Outras pistas bem bacanas são reveladas, como o fato de Amanda não conseguir escapar do hospital, nos fazendo lembrar da corda de sisal utilizada para trancar o espírito no corpo; também vale notar o fim da voz de Amanda e o gesto de Diego dentro do carro do pai de Nina, o que justifica em parte Diego ainda estar vivo. Ele cumpre o pedido de Amanda, mesmo sabendo que nada iria mudar. Assim como aconteceu com ele, depois da troca, nada voltaria a ser como antes.

Essa é uma de centenas, milhares, milhões de possibilidades sobre a obra. Nenhuma delas é verdade absoluta (a não ser para o leitor que a concebeu, claro), mas todas elas parecem contribuir para um fato: Distância de Resgate não é livro de se ler uma vez e trocar no sebo.

É livro de se ler sempre.

E vocês, quais são suas teorias? 

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