O Oceano no Fim do Caminho, de Neil Gaiman

sexta-feira, maio 19, 2017


Quando estávamos no outro domínio, postei no CJL um texto sobre minha nova paixão por O Oceano no Fim do Caminho, de Neil Gaiman. Disse que a leitura estava ainda no primeiro terço, mas que provavelmente esse seria o livro de 2017 – e olha que ainda abril nem tinha terminado.

Pois bem, a leitura está terminada, porém longe de finalizada. Como imaginava antes, sim, esse é um daqueles livros que fazem você vir por toda a sua vida, trazendo tudo de mágico que você já imaginou, todos os sentimentos mais conflitantes que você viveu e muita esperança de que nada permanece, porque o universo é muito maior do que qualquer coisa que você poderá um dia sonhar em conceber.

Pela última frase do parágrafo anterior, você pode imaginar o quanto é difícil escrever sobre algo que mexe tanto com você, que te leva pela mão pela sua infância, usando tais lembranças para reencantar seu mundo atual. Sim, O Oceano no Fim do Caminho é um livro encantador no sentido mais literal que essa palavra pode ter: ele encanta o mundo com uma magia já perdida na correria contemporânea. E é por esse caminho que eu quero tentar me dedicar um pouco nesse texto. Peço desculpas se ficar longo, mas é sempre difícil parar de escrever compulsivamente quando algo faz seu mundo girar.

Tudo começa quando a exigência em um funeral faz nosso protagonista – nesse momento quase cinquentão – retornar a sua cidade natal. Lembrar dos detalhes, ruas e atalhos é narrado como uma jornada em busca da memória ao sermos levados pelo narrador pelas estradas – inicialmente de asfalto, porém findando em um pequeno caminho de terra. Ao fim, uma casa: a casa da Família Hempstock. A sensação que tive, enquanto o narrador dirigia um tanto sem direção, porém guiado para o caminho certo, era a de que algo ali fazia sentido. Para além de uma sensação de que a história precisava andar, a forma como Gaiman vai narrando aquilo foi quase um convite para que eu fizesse também meu caminho. Quais eram as minhas estradas que precisavam ser revisitadas?

É por essa estrada, e nela também, que surgiu para mim um dos primeiros elementos cinematográficos da história. Em muitos momentos, pensei naqueles campos de trigo americanos, nas fazendas de gado, com seus enormes celeiros, naquele filtro amarelado das imagens de estrada de terra. Por outro lado, dentro do carro tinha um personagem que fugia de um velório, das pessoas, das formalidades e mergulhava em si. Pela descrição das primeiras páginas, um mergulho necessário para buscar respostas para a pergunta: e aí, tudo aquilo valeu a pena?

É exatamente esse aquilo – que não falarei nessa postagem para não estragar o percurso da leitura – que toda a história gira em torno. Num retorno aos seus sete anos de idade, o narrador vai rememorando – da forma que pode, consegue e/ou deseja – um evento ocorrido quando criança e suas implicações.

Como um mergulho em um oceano de universos, não se pode permanecer igual depois
de tudo que aconteceu. Na verdade,

“Nada nunca é igual – respondeu ela. – Seja um segundo mais tarde ou cem anos depois. Tudo está sempre se agitando e se revolvendo. E as pessoas mudam tanto quanto os oceanos.” (p.172)

O retorno, ou talvez a viagem de volta aos sete anos de idade, de nosso protagonista foi um dos convites mais cativantes que vivenciei na literatura. A voz da criança protagonista, que não se faz pura e cândida, mas sim com seus desejos, medos e discordâncias, é fantasticamente constituída por Gaiman. A sensação de um mundo muito maior do que podemos conceber, de problemas que nunca seremos capazes de solucionar, a sensação de isolamento, frente a um impasse impossível de ser compartilhado e compreendido pelo outro – porque é individual, singular, pessoal – faz com que a aventura do protagonista seja também nossa. Afinal, quantos medos, fantasmas e impressões temos todos os dias que seriam impossíveis de serem ditas para o mundo? De quais monstros temos medo e quais são os medos de nossos monstros?

– Ah, os monstros têm medo – disse Lettie – É por isso que são monstros. E os adultos... – Ela parou de falar, coçou o nariz sardento com um dedo. – Vou dizer uma coisa importante para você. Os adultos também não se parecem com adultos por dentro. Por fora, são grandes e desatenciosos e sempre sabem o que estão fazendo. Por dentro, eles se parecem com o que sempre foram. Com o que eram quando tinham a sua idade. A verdade é que não existem adultos. Nenhum, no mundo inteirinho. – Ela pensou por um instante. Então sorriu. – Tirando a vovó, claro.” (p.136)

É nessa aventura, de combate aos monstros, que o livro se conecta com muito do que já vimos em nossa infância, além de encantar nossa vida adulta. Monstros, magia, tudo do sobrenatural aparece na história, nos levando desde os filmes mais marcantes da Sessão da Tarde, até mesmo para uma das séries Netflix mais badaladas, Stranger Things.

Aliás, Stranger Things parece ter bebido bastante nas águas de oceano. Eleven se parece muito com Lettie – logicamente resguardadas as proporções das histórias -, nosso protagonista ora se parece com Will – em uma cena do livro, nosso protagonista precisa se manter enclausurado numa determinada área, o que remete bastante ao abrigo de Will no mundo invertido -, ora se apresenta como Mike, no que toca sua relação com Eleven.

Para aproximar mais ainda as duas histórias (se você não viu Stranger Things, continue a leitura no parágrafo seguinte, para fugir do spoiler. Se viu, marque a área a seguir, pois o texto está com a cor branca
tanto Will, quanto nosso protagonista, guardam pedaços de seus monstros consigo

Existem outros elementos que encantam o leitor, como a ambientação da fazenda da família
Hempstock, que me parece uma mistura da casa da família Weasley com a Toca do Hobbit, as descrições dos campos, das noites, que guardam toda a história. Mas, principalmente, o que brilha são os personagens e seus sentimentos. São oceanos desconhecidos e impossíveis de conhecer, porque são mágicos e são maiores do que qualquer compreensão que poderemos ter.

“Então você já soube de tudo? – Ela franziu o nariz.
– Todo mundo já soube. Como disse antes. Não é nada especial, saber como as coisas funcionam. E você precisa realmente deixar tudo para trás se quiser brincar.
– Brincar de quê?
– Disso.” (p.164)

O Oceano no Fim do Caminho é um livro de desconhecer, de lembrar e inventar. De possibilidade de mudar nossas ações a partir da lembrança de uma infância na qual a magia fazia parte. No meu caso, as tardes jogando International Superstar Soccer e Rock and Roll Racing no Super Nintendo, o cheiro da quadra de basquete do Aterro do Flamengo às sete da manhã, o restinho de massa de bolo raspada com uma colher microscópica para demorar mais para acabar. Magia de descoberta que não se importava de não conhecer tudo de antemão, mas se jogava na brincadeira de viver.

“Não tenho saudade da infância, mas sinto falta da forma como eu encontrava prazer em coisas pequenas, mesmo quando coisas maiores desmoronavam. Eu não podia controlar o mundo no qual vivia, não podia fugir de coisas e nem de pessoas nem de momentos que me faziam mal, mas tinha prazer nas coisas que me deixavam feliz.” (p.169)



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