A Cor da Coragem, de Julian Kulski

|  Por Raphael Pellegrini  |

Durante o mestrado, uma de minhas leituras mais impactantes foi um texto-palestra de Jacques Derrida em que o filósofo falava sobre um texto tardio publicado por Maurice Blanchot. Na palestra, duas ideias marcaram profundamente meu modo de ver o mundo e principalmente minha relação com a ficção. A primeira, relacionada com algo que acreditava antes, torceu as noções de ficção e testemunho. Nesse movimento, Derrida defende a possibilidade de que mesmo o testemunho mais fidedigno a algo ocorrido guarda uma possibilidade de criação, de invenção, justamente por se dar na linguagem. A máquina tecnológica da língua, quando empregada para compartilhar o vivido, embute necessariamente uma possibilidade de invenção. Mesmo se relatando nos mínimos detalhes aquilo que de fato se viveu, o produto do relato se constitui como uma narrativa na linguagem, e, como tal, se faz como criação e, consequentemente, como invenção.

Se por um lado esse argumento desfaz a linha que separa o ficcional do não-ficcional, talvez tirando peso e importância do relato (tenho muitas vezes a imagem que a ficção é vista como coisa menor frente a um relato “do real”), por outro, essa ideia potencializa a literatura como forma de vivenciar mundos possíveis. Ao borrar as fronteiras entre um e outro, o texto se torna tecnologia de criação, que inventa mundos e formas de viver, sempre com partes de relato, partes de criação, partes de invenção, partes... A literatura ganha força e potência, e a possível hierarquia que a sobrepujava se desfaz, borrando possíveis limites na linguagem.

Derrida localiza o testemunho numa aporia, numa dupla camada de possibilidades de ser e não ser simultaneamente. O testemunho é único, captura do aqui-agora vivenciado por aquele que testemunha. Constitui-se assim como singularidade que guarda o instante do acontecimento. Entretanto, toda essa singularidade, apoiada também na noção de um testemunho verdadeiro, fiel, porque vivenciado pelo que narra o acontecido, ao se fazer na tecnologia da língua se constitui numa técnica reprodutível. O testemunho na língua pode ser repetido, constitui um instante ideal[izado] e por isso desmembra o momento vivido, singular na sua única possibilidade de existir, partindo‐o e abrindo a possibilidade da ficção e da mentira. O testemunho não parece – por se dar sempre na língua – se libertar da possibilidade de ficção, da literatura.

A segunda ideia que me arrebatou nessa fala de Derrida tem a ver com a possibilidade de se sobreviver àquilo que acontece a partir do seu relato. Como o filósofo mesmo afirma, só é possível contar o que lhe aconteceu se você sobreviver a essa experiência. Nesse sentido, relatar aquilo que aconteceu é também uma forma de sobreviver, pela linguagem, ao ocorrido.
“só se testemunha lá onde se viveu mais tempo do que aquilo que acabou de acontecer. (DERRIDA, 2015, p.54)
E essa ideia tomou a centralidade de boa parte da leitura de A Cor da Coragem, de Julian Kulski, publicado pela Editora Valentina. Narrar o defeito na máquina de morte nazista – já que o narrador sobrevive a ela, como aquilo que escapa de seu funcionamento maligno –, faz existir a experiência de sobrevivência de alguma forma de humanidade em um tempo sombrio de nossa história. Fazer existir esse mundo e essa história que, pelo menos para mim, guarda tanta dor, desespero, tristeza e desencanto é um movimento necessário de reconhecimento da existência em nossa história de toda a maldade que nossa humanidade é capaz de produzir. O relato do acontecimento é também a possibilidade de sobrevivência para aquele viveu o horror e a possibilidade de capturar os sentidos de um tempo de violência absoluta, que ecoam em muitas histórias interrompidas

No próprio prefácio, Julian Kulski revela aquilo que o filósofo argelino menciona em sua palestra: 
Depois da libertação, eu me vi sozinho aos 16 anos, na Inglaterra, sofrendo do que hoje é conhecido como transtorno de estresse pós-traumático. Minha saúde física ainda era frágil. Na minha cabeça, eu revivia constantemente as batalhas, a morte e toda aquela devastação. De repente, estava atirando granadas em meio a um pavoroso tiroteio... para descobrir, então, que tinha jogado o abajur da mesa de cabeceira durante um violento pesadelo.

Finalmente, um sábio médico militar me recomendou redigir minhas experiências com a maior precisão possível, como uma forma de deixar a guerra para trás e começar uma nova vida. Assim teve início a minha crônica da Segunda Guerra Mundial. (p. 22)
Foi também com Kulski que reencontrei outras leituras que retratam com olhares distintos o período sombrio. Vi suas táticas de desaparecimento das placas de sinalização, assim como Kundera, em A insustentável leveza do ser, narra. De um lado, o exército alemão perdido pelas ruas sem nome da Polônia; do outro, o exército russo sem orientação nas ruas da Tchecoslováquia.

Encontrei também em suas descrições e nas imagens de uma Polônia bombardeada as palavras de Böll. A destruição que apaga as singularidades locais, a cultura e a arquitetura. Multiplicam-se os escombros e o pó. Entretanto, também encontrei o mesmo Anjo Silencioso de Böll em Kulski. Mesmo sob toda violência, um fio de esperança persiste.

Também notei o encontro da narrativa de Modiano, mais precisamente do retratado em Ronda da Noite, quando o jovem Kulski relata a presença de grupos de mercenários contratados pelo regime nazista com o objetivo de praticar todo tipo de violência contra judeus. Se narrados de modos completamente diversos – Modiano emprega uma voz da memória, fragmentada, nebulosa, incerta, que nasce do silêncio dos não ditos, Kulski relata o momento vivido, experienciado por ele mesmo – ambos trazem cenas de um mesmo modo de operação.

Relembrei de trechos de Primo Levi e de tantos outros autores que abordam sob óticas distintas esse período terrível. Cada um a sua maneira, tais narrativas vão se tecendo como caminhos de sobrevivência à guerra. Da violência absoluta, que destrói tudo de mais humano que possa existir em nós, tais escritos vão produzindo resistências, (re)existências, alargando novamente o mundo com aqueles que sobrevivem ao acontecimento da guerra.


BÖLL, H. O anjo silencioso. São Paulo: Estação Liberdade, 2001.
DERRIDA, J. Demorar: Maurice Blanchot. Florianópolis: Editora UFSC, 2015.
KULSKI, J. A cor da coragem. Rio de Janeiro: Editora Valentina, 2016.
KUNDERA, M. A insustentável leveza do ser. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
LEVI, P. Assim foi Auschwitz: testemunhos 1945-1986. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
MODIANO, P. Ronda da Noite. Rio de Janeiro: Rocco, 2014


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