A Garota no Trem, de Paula Hawkins

|  Por Clara TUTUveira  |

Lembra quando eu mencionei que ainda não havia conseguido ler um thriller com parceiro como vilão que me agradasse? Ou todos eram previsíveis, ou usavam de cenas de estupro como recurso gráfico para chocar (melhorem, autores, há modos incríveis de fazer o leitor levar um susto além de socar 18 cenas de violência sexual em um livro). Ainda que ache muito bom essa vibe, já que está trazendo à tona o debate sobre relacionamento abusivo, fiquei frustrada com a ausência de algo que eu lesse e falasse no final “uau, senti o impacto”, como foi com o MARAVILHOSO “No Escuro” (resenha aqui), da Elizabeth Haynes, lido em 2013, se minha memória não falha.

Pois bem. Não sei exatamente qual foi o livro que deu o pontapé nessa onda de thriller psicológico sobre relacionamento abusivo nos mercados editoriais por aí, mas sei que um dos primeiros foi A Garota no Trem. Protelei um século para ler, até que o livreiro do Beta de Aquarius, uma livraria-sebo que amamos, disse que era MUITO bom. Como a ênfase dele me deixou curiosa, comprei e fui ler.

Confesso que li aquele livrão em dois dias. Li muito rápido, muito rápido mesmo, e… não senti o impacto.

Desculpa, não senti.

Mas, olha, sendo bem honesta, há um abismo entre esse livro e todos os outros que li. De zero a dez, eu dou nota oito para ele tranquilamente! É bom, gostoso de ler, dá agonia, faz o coração bater mais forte... O único problema é que eu não senti o impacto no final. Isso pode se justificar por uma coisa:

HÁ UM SPOILER GIGANTE NA DESGRAÇA DO TRAILER DO FILME.

Sério, gente, quem editou aquele trailer?? Eu FUI ASSISTIR para ver quem eram os atores (amei todos, por sinal), bum na minha cara: OLHA AQUI QUEM É A PESSOA VILÃ, TARAAAM. Alguém viu o trailer e sentiu isso também? Na metade do livro, eu já tava fazendo o Muttley e resmungando sozinha, pois já tinha 100% de certeza de quem era a pessoa má da história.

“Ah, Clara, mas você colocou esse livro na categoria de ‘relacionamentos abusivos’, portanto você está dando spoiler e dizendo que o vilão é o marido da moça desaparecida, né?”

Não, não. Isso tá na sinopse. Não estou dizendo nada. Pode ser ele, como pode ser outros personagens, pode ser a protagonista, pode ser qualquer um. É o suspense da história, afinal de contas, e tudo no início e sinopse do livro coloca o marido como suspeito. Não sou eu quem coloca o livro nessa categoria.

Aliás, bem lembrado: sinopse!
Um thriller psicológico que vai mudar para sempre a maneira como você observa a vida das pessoas ao seu redor.

Todas as manhãs, Rachel pega o trem das 8h04 de Ashbury para Londres. O arrastar trepidante pelos trilhos faz parte de sua rotina. O percurso, que ela conhece de cor, é um hipnotizante passeio de galpões, caixas dágua, pontes e aconchegantes casas.

Em determinado trecho, o trem para no sinal vermelho. E é de lá que Rachel observa diariamente a casa de número 15. Obcecada com seus belos habitantes a quem chama de Jess e Jason , Rachel é capaz de descrever o que imagina ser a vida perfeita do jovem casal. Até testemunhar uma cena chocante, segundos antes de o trem dar um solavanco e seguir viagem. Poucos dias depois, ela descobre que Jess na verdade Megan está desaparecida.

Sem conseguir se manter alheia à situação, ela vai à polícia e conta o que viu. E acaba não só participando diretamente do desenrolar dos acontecimentos, mas também da vida de todos os envolvidos.

Uma narrativa extremamente inteligente e repleta de reviravoltas, A garota No Trem é um thriller digno de Hitchcock a ser compulsivamente devorado.
Confesso que achei meio exagerada essas comparações, cá entre nós. Mas acho que, apesar de ser meio medrosa, eu não me assusto tão facilmente com literatura. Talvez eu seja mais visual no sentido imagético puro da palavra: imagens saltando e berrando na minha cara me congelam o coração, mas nunca li um Stephen King que não me desse nada além de sono (me perdoem, fãs, eu sei que estou sendo herege e prometo ler um dia um bem porreta para ver se pago a língua).

Sobre a história em si, eu AMEI como a Rachel é construída. Ela é absurdamente irritante, e isso é delicioso. Adoro quando um personagem que não é o vilão necessariamente dito me desagrada. Eu já tenho uma tendência a amar protagonistas e odiar antagonistas (eu adoro o Raskolnikov, gente, pelo amor de Deus, qual é o meu problema?), então esse plot twist foi delicioso. Rachel é chata, mesquinha, egoísta (quis matá-la quando ela vomitou no carpete da casa da amiga e não limpou. MANO, A CASA NÃO É SUA E VOCÊ DEIXA SUAS NOJEIRAS PELO TAPETE DA ESCADA??), obsessiva com um relacionamento que não deu certo, e eu só quis empurrar a bicha na frente do trem para verificar se é verdade que as roupas são arrancadas do corpo. Que chata essa mulher!!

Amei a Rachel.

Esse sentimento agridoce de “quero te guardar num potinho: uma urna funerária” foi a melhor coisa do livro. Sem sombra de dúvidas, foi delicioso. O suspense em si, mé. O ódio pela pentelhona da Rachel moveu minha vida naqueles dois dias, juro.

E o pior: a Rachel, coitada, só se ferrou. O ex-marido a largou por uma moça mais nova, grávida, sendo que a protagonista sempre quis ter um bebê, mas nunca conseguiu, ou seja: QUE BABACA DE MARIDO. Para completar, além de ter chutado minha amada-odiada Rachel, o safado infiel ainda ficou morando com a esposa nova na casa que eles compraram juntos.

Eu sei que ela é vítima dessa infidelidade que só ferrou a vida dela. Mas ela exagera, cara. Eu não quero odiar essa menina, mas odeio, porque tudo que ela passou não é motivo suficiente para ser tão mesquinha assim. Parece uma daquelas amigas que todo mundo tem, sabe? Aquelas que a gente fala “Fulana, não faz isso, pelo amor de Deus”, e ela responde “Ah, faço sim, se der errado, deu”. Obviamente dá errado, e você fica impotente e querendo torcer o pescoço da pessoa. Você já teve um amigo assim? Eu tenho uma há pelo menos dez anos e toda hora há um incêndio a ser apagado por ela e o desejo de empurrá-la no metrô do Cantagalo. Inclusive, a encontrei fim de semana passado e desejei empurrá-la no metro do Flamengo, bairro onde ela ficou hospedada.

Voltando para A Garota no Trem, digo que, na minha humilde e blasé opinião, é um bom livro. Bom, bom, muito bom. Gostei de verdade. Eu apenas não gostei o suficiente para querer ficar com ele em minha estante.

Faltou o impacto.

Só isso mesmo.


(Agora me conta: o Thomas na imagem de capa desse post não ficou adorável? Ah, vai! Eu olho pra essa animação e só penso nele dizendo "VOU TE MOSTRAR O IMPACTO, CLARA, QUANDO EU PASSAR POR CIMA DE SUA ALMA FAZENDO TU-TU". Acho fofo.)



Ficou curioso com o livro? Comprando por esse link, você dá uma forcinha para o CJL sem pagar nada por isso!
Tu-tu!

3 comentários:

  1. Eu vi o trailer, mas como sou meio lerda, não peguei quem é o vilão! Mas depois dessa resenha a vontade de ler o livro só aumentou!!

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  2. Eu li por acaso há uns dois anos talvez. Gostei, mas achei o final muito marromeno. A maneira como a coisa se desenrola é atabalhoada. Sei lá. Gostei mas não amei, como geralmente amo os da Gillian Flynn.

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