Apenas uma Garota, de Meredith Russo

|  Por Clara Taveira  |

Já mencionei várias vezes, vou mencionar mais uma: amo livros com representatividade. Personagens fora do padrão europeu magro, branco, rico, etc. Tenho pavor de livros tipo Gossip Girl, repletos de “white people problems”, morro de tédio e reviro os olhos até enxergar a cor do meu cérebro. 

Pois bem, imaginem minha felicidade quando descobri que a Intrínseca (minha maior crush editorial) ia lançar um livro não somente com protagonista trans, como também escrito por uma mulher trans.

Escrito.

Por uma.

Mulher.

Trans.

Quase pirei. Comprei imediatamente, feliz da minha vida, e li bem rápido. 

Infelizmente, minha experiência não foi 100%. Opa, mas calma lá: adorei o livro. Achei gostoso, de escrita agradável, edição deliciosa. Mas senti que foi mais um livro adolescente de romance, sabe? Com a diferença, é claro, de que retrata a vida de uma adolescente trans.

É óbvio que isso já é suficiente para eu guardar o livro em meu coração. Antes uma ficção adolescente com personagem trans do que um clássico contemporâneo maravilhoso com zero representatividade, dependendo do caso. É só que… eu esperava mais, sabe? Porém, isso não tira o valor desse livro. Eu apenas não sou o público-alvo dele. Tenho vinte e sete anos. Talvez, dez anos atrás, ele fosse o livro da minha vida.

Antes de falar sobre a história, preciso mencionar algo que me deixou encantadíssima nela: o modo com as coisas são ditas sem serem ditas diretamente. Brilhante, delicado. Por exemplo, há um momento constrangedor em que Amanda, a protagonista, está no carro com seu pai. Ela está totalmente desconfortável, e ele também, então o que a autora faz? Narra tudo o que a Amanda enxerga pela janela do carro. Outdoors, grama, coisas do tipo, como se Amanda estivesse tentando focar em tudo, menos na torta de climão no carro. Você sente o desconforto dela de longe, sem precisar, em momento algum, ler a palavra “desconfortável”. Isso em um livro adolescente é divino.

Outra coisa que amei muito: história cronologicamente intercalada. Amo essa coisa de um momento no presente, outro no passado, um momento no presente, outro no passado. Adoro quando se quebra a coisa linear na narrativa, e no livro é feito não só de um jeito incrível, como também bonito pela edição: as páginas do passado são cinza. Lindas, lindas. 

Vamos à história:
Prestes a entrar na vida adulta, Amanda Hardy acabou de mudar de cidade, mas a verdadeira mudança de sua vida vai ser encarar algo muito mais importante: a afirmação de sua identidade. Tudo que ela mais quer é viver como qualquer outra garota. E, embora acredite firmemente que toda mudança traz a promessa de um recomeço, ainda não se sente livre para criar laços afetivos. Até que ela conhece Grant, um garoto diferente de todos os outros. Ela não consegue evitar: aos poucos, vai permitindo que Grant entre em sua vida. Quanto mais eles convivem, mais ela se sente impelida a se abrir e revelar seu passado, mas ao mesmo tempo tem muito medo do que pode acontecer se ele souber toda a verdade. Porque o segredo que Amanda esconde é que ela era um menino. 
Em seu romance de estreia, Meredith Russo retrata o processo de transição de uma adolescente transexual, parcialmente inspirada em suas próprias experiências. Enquanto traz à tona questões difíceis como dilemas existenciais, preconceito e bullying, o livro também fala de forma esperançosa e leve sobre amizade, descobertas e autoaceitação.
Deu para sacar, né? É um livro incrível. Como eu disse, não senti o coração disparar e pensei “livro da vida” porque não sou o público dele (além da idade citada, eu estou com cabeça de velha. Comecei a tomar chá e ir dormir nove horas da noite, acreditam? Total idosa), mas não deixa de ser um livro importante e delicioso. Não é um manual de "ideologia de gênero", caso alguém esteja preocupado com isso (aliás, odeio esse papo de “ideologia de gênero”, mas deixa para lá), é um romance com representatividade.

Assim como os já resenhados Dumplin’, Os 27 Crushes de Molly e O Ódio que Você Semeia, esse é mais um dos livros que todo adolescente deveria ler. Se eu ainda estivesse dando aula de literatura, com certeza seria o livro do semestre. Provavelmente seria demitida depois disso, dependendo da escola… Mas me deixa sonhar com um ano do ensino médio com esses 4 livros sendo trabalhados, por favorzinho.

Nunca te pedi nada.



Quer dar uma força para o Capitu Já Leu? Compre o livro por esse link aqui.
Nós ganhamos uma porcentagem pequenina e revertemos o valor para manter o CJL no ar! :D

Nenhum comentário:

Postar um comentário