Mar de Histórias: de Gaiman a Mil e Uma Noites

|  Por Raphael Pellegrini  |

Por algum tempo, eu pensei em escrever sobre esses livros, mas na maioria das vezes achei que ainda não era hora. De uma forma ou de outra, o texto parecia não servir de exemplo para o que eu desejava dizer, não conseguia atingir os lados e caminhos que eu queria explicar. Então fui trabalhando as ideias na cabeça e lendo. Foi quando finalizei a leitura de Haroun e o Mar de Histórias que percebi o que faltava: um fio, provavelmente daqueles bem antigos, com todos os elementos das histórias mais contadas, do tempo das primeiras histórias. Era sobre isso que eu desejava escrever, e por isso o texto é sobre não apenas um livro, mas direcionado a essas leituras que me fizeram voltar para outros tempos, leituras do maravilhoso.

Tudo começou lá em 2013, quando li o primeiro volume de Mil e Uma Noites. Ainda me lembro bem daquela sensação labiríntica, de uma história dentro de outra história, que puxava outra e mais outra, me levando pela mão em um labirinto sem fim. Não havia tempo para se desligar com o mundo exterior, o livro de sugava para aquele universo de Gênios, truques e velhos jogos que até hoje podem ser usados para ganhar pequenas vantagens.

Foi lendo Os Filhos de Anansi, de Neil Gaiman que tudo isso retornou forte. Anansi tomou para si as histórias do mundo, que antes dele eram apenas sobre dor e morte. Anansi as ganhou pela astúcia e trouxe para o mundo a possibilidade da esperteza. E a linha entre Mil e Uma Noites e Os Filhos de Anansi se fez. São histórias que parecem vir de outros tempos, quase como se fossem criadas momentos após o começo de tudo. Não terminei a leitura de todos os volumes das Mil e Uma Noites, mas não duvido que Sherazade me contasse sobre como como o homem que é metade aranha tomou para si todas as histórias do mundo.
 Bem, Anansi ganhou as histórias. Ganhou, não. Ele as conquistou. Anansi as tirou do tigre e deu um jeito para que o tigre não pudesse mais entrar no mundo real. Não em carne e osso. As histórias que as pessoas contavam passaram a ser histórias de Anansi. Isso foi há, o quê? Dez, quinze mil anos. 
“Bem, as histórias de Anansi têm inteligência, astúcia e sabedoria. Agora as pessoas do mundo inteiro não pensam mais só em caçar e serem caçadas. Estão começando a pensar em soluções para os seus problemas, o que, às vezes, só cria problemas ainda maiores. Elas ainda precisam encher a barriga, mas agora tentam dar um jeito de fazer isso sem trabalhar, e é aí que começam a usar a cabeça. Tem gente que pensa que as primeiras ferramentas foram as armas, mas estão erradas. Primeiro as pessoas descobriram as ferramentas. A bengala vem sempre antes da clava. Porque agora todos estão contando histórias de Anansi, e passaram a pensar em como ganhar um beijo ou conseguir algo de graça sendo mais espertas ou engraçadas. É aí que elas começam a criar o mundo.” (Os Filhos de Anansi, Neil Gaiman - p.236-237)
E se por um lado eu encontrava com o astuto Anansi, por outro, me encontrava com outro Deus bastante astuto, mas talvez um tanto azarado: Loki. Como foi delicioso rever esses deuses que aparecem em outra obra de Gaiman, Deuses Americanos, mas dessa vez com um olhar mais próximo  eu nem imaginava que seria possível. Do começo ao fim, do início de tudo ao Ragnarok. Histórias de Deuses caprichosos, que jogam com os outros seres em função de seus desejos mais mesquinhos. Buscam manter um equilíbrio onde possam permanecer recebendo seus agrados, presentes mágicos que tornam suas vidas maravilhosas. Mais uma vez as ideias mais centrais de uma história aparecem, a magia acontece a cada linha.
“Odin, o Pai de Todos, não era gentil, sábio irascível; na verdade era brilhante, misterioso e perigoso. Thor era tão forte quanto o que conheci nos quadrinhos, e possuía um martelo igualmente poderoso, mas não era… Bem, para ser sincero, ele não era um deus conhecido pela esperteza. E Loki não era mau, ainda que com certeza não agisse em prol do bem. Loki era… complicado. (Mitologia Nórdica, Neil Gaiman - p.10)”
Como o próprio Gaiman diz, Loki não era um completo vilão (talvez seja só um cara que tenta ganhar a vida se divertindo sem medir as consequências), Thor era um tanto burro e Odin era bastante astuto e principalmente perigoso. Aliás, perigo foi uma palavra que sempre pensei enquanto lia Deuses Americanos. Ler Mitologia Nórdica depois de ter lido Deuses Americanos me fez compreender um pouco mais dos caminhos desses deuses no momento contemporâneo. Tudo fez mais sentido, inclusive minha surpresa com o desfecho de tudo. Os tempos atuais possuem outros Deuses e nem sempre os antigos costumes conseguem manter tais Deuses vivos. Como numa linha que vai conectando histórias, Mitologia Nórdica fez com que os nuances de Deuses Americanos ficassem mais evidentes, mais justificados, sem que uma obra revelasse segredos que comprometeriam a experiência de leitura da outra.

Mitologia Nórdica me trouxe também uma outra sensação muito interessante e que experienciei poucas vezes: a de uma história que poderia ser contada antes de dormir. Histórias de aventuras frustradas, de batalhas épicas, de trapaças e de consequências um tanto negligenciadas. É um livro que puxa para a superfície histórias de deuses bastante humanos, de sentimentos muito naturais e cotidianos, que em certos momentos nos aproximam de Loki, em outros de Odin ou de Thor.

Mas se tudo isso chacoalhava na minha cabeça me fazendo pensar em como essas histórias de outros tempos carregam ainda uma enorme potência, foi com Salman Rushdie e seu Mar de Histórias que tudo veio a tona, como um maremoto de histórias de diversas cores. Foi em Haroun e o Mar de histórias que percebi como uma boa história pode reencantar o mundo mesmo que nela encontremos elementos que passaram pela imaginação de qualquer ser humano. Se fosse listar alguns desses elementos, diria uma criança, um gênio, um mundo mágico ameaçado por um vilão malvado, a busca pela proteção do mundo mágico que, se destruído, tornaria o mundo humano um caos. Nada de novo, mas ali tem tudo de novo. 

Em Haroun pude me encantar com um mundo mágico que me joga vertiginosamente no mundo contemporâneo que vivo. Um deslocamento rumo ao centro do mundo, mesmo que de certa forma a gente saia dele. E, principalmente para mim, que desde o começo do ano vivo de histórias (como revisor profissional e marido de uma revisora e autora), a sensação de que é possível construir sua vida por esses fios.
“Mas porque você odeia tanto as histórias?”, interrompeu Haroun, perplexo. “As histórias são divertidas…”
“O mundo, porém, não é feito para ninguém se Divertir”, respondeu Khattam-Shud. “O mundo é para se Controlar.”
“Qual mundo?”, Haroun se obrigou a perguntar.
“O seu mundo, o meu mundo, todos os mundos”, foi a resposta. “Todos eles existem para serem Dominados. E dentro de cada história, dentro de cada Fio do Mar de Histórias, existe um mundo, um mundo de histórias, que eu não consigo dominar. Esta é a razão.”
E retornamos a Anasi, ao mundo sem histórias, onde nos preocupávamos apenas com a caça e a sobrevivência. 

Mas se por um lado me imaginava em parte Haroun, por outro, observava como uma prosa de elementos tão clássicos conseguia abordar temas tão cotidianos, como por exemplo a menina que precisa esconder sua condição de mulher para poder manter seu trabalho.
“Você é menina”, disse Haroun, fazendo um comentário um tanto óbvio.
“Shhhh!”, fez Tagarela, enfiando outra vez o cabelo dentro do gorro. “Você quer que eu seja despedida?” Arrastou então Haroun para dentro de um quartinho e fechou a cortina para que ninguém os visse. “Você pensa que é fácil para uma garota conseguir um emprego desses? Você não sabe que nós, meninas, temos de enganar as pessoas todos os dias da nossa vida, para conseguirmos qualquer coisa? Agora você, deve ter recebido tudo na vida numa bandeja de prata! A posto que te deram tudo na boquinha, com uma colherzinha de ouro; mas tem gente que precisa lutar na vida! (Haroun e o Mar de Histórias, Salman Rushdie, p. 87)
Quatro histórias que retomaram para mim uma outra forma de contar histórias, que reforçaram características que permanecem engendradas naquilo que temos de humano. Histórias que me deram força para acreditar que é possível viver nas histórias e, no meu caso, que isso é necessário. Histórias sobre a necessidade de se contar histórias, de se deslocar do mundo cotidiano para realizar um mergulho mais intenso ainda nele, mesmo que isso se dê trocando nomes, gestos e ações. Histórias de sentimentos humanos, que me confrontam com meus próprios sentimentos, encantando minha vida.



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