Entre Quatro Paredes, de B. A. Paris

|  Por Clara Taveira  |

E lá vamos nós…

Não gosto de fazer resenha negativa. Não julgo quem faz, essa escola é pessoal, é algo meu, sabe? Se o livro não me agrada, eu não perco meu tempo falando dele. Não quando há tantos livros bacanas por aí, né? Além do mais, não gosto de fazer propaganda para coisa que eu desgosto. Prefiro enfatizar a presença, não a ausência.

O problema é que de vez em quando o livro incomoda tanto, que eu pre-ci-so falar sobre ele. Isso aconteceu com o Verão Cruel e agora com esse livro, lançado em julho de 2017.

Todo mundo já notou que está na moda (há um bom tempo, na verdade) livros em que o marido é o vilão óbvio, né? Há diversos livros por aí com essa temática (creio que o mais famoso seja A Garota do Trem, que virou filme, não?), e eu acho muito bom que isso aconteça, gera debate sobre relacionamentos abusivos, então que fique na moda por décadas.

Até então, eu não tinha lido muita coisa nesse tema, e tudo que li não chegou nem perto de “livro da vida”, o que é uma pena. Sou bem fácil de agradar, na verdade.

Fiquei com isso na cabeça, até encontrar “Entre Quatro Paredes” em um camelô de livros no Catete. Custando modestos oito reais, o lançamento desse ano me atraiu pela capa belíssima e pela sinopse instigante:

O casamento perfeito ou a mentira perfeita?
Grace é a esposa perfeita. Ela abriu mão do emprego para se dedicar ao marido e à casa. Agora prepara jantares maravilhosos, cuida do jardim, costura e pinta quadros fantásticos. Grace mal tem tempo de sentir falta de sua antiga vida. Ela é casada com Jack, o marido perfeito. Ele é um advogado especializado em casos de mulheres vítimas de violência e nunca perdeu uma ação no tribunal. Rico, charmoso e bonito, todos se perguntavam por que havia demorado tanto a se casar. Os dois formam um casal perfeito. Eles estão sempre juntos. Grace não comparece a um almoço sem que Jack a acompanhe. Também não tem celular, que ela diz ser uma perda de tempo. E seu e-mail é compartilhado com Jack, afinal, os dois não guardam segredos um do outro. Parece ser o casamento perfeito. Mas por que Grace não abre a porta quando a campainha toca e não atende o telefone de casa? E por que há grades na janela do seu quarto? Às vezes o casamento perfeito é a mentira perfeita.

Pois bem. Vamos ler, então, né? Parece incrível.

Não era incrível.

Jack é um dos piores vilões de thrillers que eu já li. Extremamente clichê, daquele tipo “nossa, olha como eu sou mau, desde pequenininho, total psicopata, risos”. Sabe quando alguém reclama de meninas Tumblr que gostam de dizer que são bipolares? Essa é a sensação que tive ao ler a história de Jack. Quase pensei que ele ia postar no Facebook um “Sentindo-se uma pessoa muito má e temida”. Insuportavelmente e fracamente construído. 

Grace até foi uma protagonista melhorzinha do que Jack foi um vilão. Mas, ainda assim, clichê até dizer chega. E olha que eu curto um clichê, mas o marasmo dela, a falta de profundidade psicológica, o modo como ela reclamava das coisas era tão raso, tão chato, que eu cheguei a sentir raiva da vítima! Da vítima, gente!!

Que o marido era o vilão, isso já era óbvio no começo. Mas suas torturas, físicas e psicológicas, sua profissão (nossa, que revolucionário, um torturador que trabalha com vítimas de violência doméstica), suas falas, tudo era tão reto quanto a tela de um notebook. Não havia nuances, não havia nada ali que me fizesse sentir um pinguinho de medo, de susto, de tensão. Nada. Cada vez que esse pentelho aparecia, eu queria bocejar e falar “beleza, parça, você é mau como um pica-pau, já entendi”. 

Aí surge um sopro de esperança: a vizinha intrometida. Será ela a chave para tornar essa sopa de chuchu num livro bacana??

Não.

Tão rasa e chata quanto todos os outros personagens, e o pior: o modo como ela entra na história, como um possível porto-seguro disfarçado de pessoa chata e inconveniente, é tosquíssimo. E o final?? Ela se tornando a super-heroína do mundo? JESUS AMADO. Previsível desde o primeiro capítulo e muuuito conveniente.

Gente, estou pegando pesado? Eu sei, me perdoem. Conheço um monte de pessoas que amaram loucamente esse livro, então pode ter sido somente uma fase ruim para mim. Passei os dois últimos meses com minha vó doente, num humor horrível, morrendo de medo de perder quem me criou. Deve ser isso.

Deve ser isso.

Ok, não foi só isso. O livro é chato mesmo.

Aliás, não ando com sorte. Todo livro que leio sobre homens fazendo mal à mulheres me parecem irreais, sem sal, meio blé. Como se faltasse pesquisa, empenho, vontade de se relatar uma história que poderia ser real. Sobra vontade de chocar, faltam camadas de subjetividade, coerência. Sendo bem escrotona, parece que falta vontade de fazer arte e sobra vontade de lucrar com moda editorial.

Eu queria muito ler um suspense de tirar o fôlego, daqueles que a gente fica de olhos ardendo, lendo compulsivamente de madrugada, desejando que o vilão pague, ou ao menos que a vítima se safe das garras dele! Um suspense como os da Elizabeth Haynes, por exemplo!!

Até agora, o melhorzinho que li nos últimos tempos foi o A Garota do Trem, ainda que a droga do trailer do filme tenha contado a porcaria da história toda (ai, que raiva). Mas nem assim.

Nem assim, gente.

Saudades "No Escuro"...




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