Os 27 Crushes de Molly, de Becky Albertalli

| Por Clara Taveira |


Meninos do céu, estou completamente apaixonada por literalmente tudo nesse livro! Sério, tudo. Pelos crushes, pela família maravilhosa da protagonista, por seu emprego, pela escrita deliciosamente simples da autora, pela capa divina, pela edição como um todo e, principalmente, pela Molly, que é adorável e… gorda! Eba! Mais uma protagonista gorda!

Caso você seja novo aqui, eu preciso deixar algumas coisas bem definidas:

  1. Eu sou magra. Sim, sou e reconheço meus privilégios por isso. Porém, já fui gorda, meu marido já foi obeso, portanto sei bem o que uma pessoa gorda passa. Já senti na pele e já testemunhei o suficiente para poder dar opiniões sobre o assunto.
  2. Eu ODEIO falar em “gordinha”. Se você se ofende comigo falando em “gorda”, te peço mil desculpas, mas colocar coisas no diminutivo como que para dissolver seu significado, colocar água no feijão, me irrita. É gorda e pronto, não há problema nenhum em ser gorda e eu não acho “gordo” uma ofensa, então não vejo motivo para modalizar um adjetivo desse modo. É o mesmo que “viado”, se me chamam de “viado”, eu agradeço. Não é ofensa para mim.
  3. Eu realmente não ligo a mínima para o que você ou ela ou ele comem ou deixam de comer ou quantos quilos pesam. De verdade. Com todo o respeito, não estou nem aí, cada um faz com seu corpo o que achar melhor. Contanto que ninguém queira se meter no que eu como ou deixo de comer, acho que cada um pode fazer o que quiser de sua vida, e eu jamais vou julgar ou me meter. Então não procure críticas a nenhum tipo de estilo de vida ou alimentação nesse texto, porque não vai ter nenhuma.
Dito isso, vamos voltar aos livros com protagonistas gordas! Cá entre nós, adoro que estejam pipocando livros assim. Eu tenho adquirido todos que vejo e tenho lido muito feliz da vida. Ganhei Dumplin’, da Julie Murphy, da Editora Valentina, Poder Extra G, da Thati Machado, de uma amiga e comprei mais alguns, como Amor Plus Size e As Grandes Aventuras de Daniela. Estou lendo aos poucos, porque estou numa vibe muito Kundera agora, mas logo voltarei para as delícias cremosas dos livros citados.

O primeiro que li foi Dumplin’ (resenha aqui), e confesso que foi difícil não comparar os dois livros, ainda que as histórias sejam diferentes. Como são duas narrativas que estão sendo muito faladas, foi imediato pensar nas duas protagonistas lado a lado. Mas a comparação foi breve: Dumplin’ é gorda. Molly também. As coisas semelhantes acabam aí. São personagens totalmente diferentes, com vidas diferentes e famílias diferentes.

Ah, vamos começar a falar sobre o livro por aí, então: família.

MEU DEUS, MOLLY TEM A FAMÍLIA MAIS LINDA DO MUNDO!

Começando com suas duas mães (olá, representatividade extra!), que finalmente vão poder se casar, agora que é permitido em seu país, sua irmã gêmea totalmente diferente, tanto fisicamente quanto de personalidade e mesmo de orientação sexual (Molly é hétero, Cassie é lésbica), e seu irmão mais novo, um bebê fofo que não tem lá muita importância, mas é fofo. Todos são filhos do mesmo doador com as mães (as gêmeas de uma, o bebê de outra), mas são MUITO diferentes entre si, e isso é tão lindo, tão potente! Só faltou um personagem negro para eu ficar 100% feliz, mas, poxa, já estou 99% feliz com tanta representatividade! Mencionei que é uma família judia?

Molly é uma garota tímida que prefere ficar na zona segura. Já teve vinte e seis paixonites, mas nunca nem ao menos beijou, pois prefere não experimentar nada do que levar um fora. Quando sua irmã se apaixona e começa a namorar sério pela primeira vez na vida, a bichinha começa a se sentir sozinha. Cassie decide, então, arrumar um boy magia para ela. Mas nem tudo é tão fácil na vida de uma adolescente gorda, então entre encontros, desencontros, uma vigésima sétima crush, momentos de gordofobia e de empoderamento, as coisas vão acontecendo de um modo ao mesmo tempo leve, mas sem tentar adoçar a pílula.

Como mencionei, foi difícil não comparar a Dumplin’ com a Molly, principalmente pelo fato de que a questão da saúde é tratada de modo quase leviano no primeiro livro (tudo é reduzido à aparência, tanto por parte da mãe dela quanto dela), enquanto em 27 Crushes ela não é tratada de modo algum. Nenhum! Sério. Nenhum! Não é incrível??

Vejam: não me recordo de uma menção à equação obesidade-saúde no livro. Se teve, eu nem notei, foi sutil, mas tenho quase certeza de que não rolou nada. E por que isso é brilhante? PORQUE NÃO É NECESSÁRIO DIZER NADA SOBRE ISSO. Peso não é sinônimo de saúde, e quando a autora não menciona nada sobre o assunto no livro, mesmo em uma família tão estruturada, amorosa e preocupada, isso fica bem nítido para quem presta atenção nessas coisas! Afinal, se isso fosse algo preocupante para Molly, sua irmã e suas maravilhosas mães, com certeza seria dito, debatido! Se bem me lembro, o único momento em que se menciona médicos ali é quando há uma desconfiança parental de que Molly talvez esteja prestes a iniciar sua vida sexual, então lá vem aquele papo desconfortável de proteção, camisinha, gravidez, etc.

Vai, me fala. Isso não é sensacional? Ao contrário da mãe de Dumplin’, que até pode fingir que está preocupada com a saúde da filha, mas só está pensando na parte estética, as mães, ao não trazerem o Cartão da Saúde em momento algum, mostram que “ei, está tudo sob controle, um gordo pode ser saudável tranquilamente, cuide da sua vida e se preocupe com o que interessa".

Confesso que toda vez que vejo um personagem gordo, eu já respiro fundo e tento adivinhar quem é o insuportável que vai trazer o Cartão da Saúde, essa gordofobia fantasiada de preocupação medicinal. Como a Willam, lembram dela quando entra no workroom de RuPaul’s Drag Race, vê os manequins plus size e faz piadinha sobre diabetes? Admite, minha filha, você não está preocupada com diabetes de ninguém, só quer se sentir superior porque sua barriga é chapada. MELHORE.


Já mencionei isso na resenha de Dumplin’, vou mencionar de novo: não gosto disso de ficar relacionando peso com saúde, como se houvesse uma escala saudável abstrata (acima de tanto: doente; abaixo de tanto: saudável), mas principalmente porque acho deselengantérrimo essa coisa de se METER NA VIDA DOS OUTROS.

Olha, se eu quiser comer dois quilos de açúcar (como minha vó faz) por mês ou se eu quiser nunca mais comer uma colherinha do pó branco do capeta (como eu realmente faço), o problema é de quem? Meu. Então fico bem nervosa quando alguém começa a querer dar pitaco na minha saúde, meu peso, minha alimentação. Isso vale para quem pesa 40, 60, 90, 100 ou 150 quilos. Meu corpo, meu peso, cada um que cuide do seu e que pare de achar que minhas escolhas pessoais são críticas ou desafios ou um convite para opiniões não requisitadas. O mesmo vale para o outro: seu corpo, suas regras, não é? Então pronto, isso também vale para o peso!

Enfim, voltando para o livro, é um romance adorável, adolescente, divertido e colorido. Essa foi a maior sensação que eu tive. Ele é colorido, é positivo, mostra o que tem que mostrar em relação à gordofobia, mas possui um sopro de esperança. Além, claro, da representatividade. Mencionei que uma das crushes de Molly era um homem trans??

Confesso que passei um tempão evitando o outro livro da autora publicado aqui, Simon Vs. A Agenda Homo Sapiens, mas depois dessa belezinha, já estou correndo pegar o meu. Até porque vai virar filme, né? E ler o livro antes do filme é tão mais gostoso!

Ao lado de Dumplin’ e O Ódio que Você Semeia (resenha aqui), Os 27 Crushes de Molly é um dos livros que todos os pais deveriam dar para seus filhos leitores saborearem, de um jeito bem sutil. Vale a pena e o valor investido. É adorável e importante.


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