Pequenas Cenas Literárias #1 - Uma Rua de Roma, de Patrick Mondiano


|  Por Raphael Pellegrini  |

Uma dos meus principais prazeres em um livro é quando o narrador cria com palavras uma verdadeira fotografia. Não uma imagem estática, mas sim uma composição com movimento, profundidade, sensações e sentimentos. Nem sempre percebo muitas delas em cada leitura, mas as que encontro são momentos de um prazer especial. Tamanha a potência desse gosto, muitas vezes costumo guardar na memória apenas esse instantâneo, perdendo com o tempo quase todos os dados do livro lido. 

Mas a imagem está sempre lá, associada a um coração aquecido por uma beleza inesquecível. 

Pensando nisso, tive o desejo de compartilhar um pouco dessa particularidade aqui no Capitu Já Leu. E para começar minha coleção de imagens literárias, trago um trecho de Uma Rua de Roma, de Patrick Mondiano. 

A cena em questão me chamou atenção porque fiquei com a imagem de um certo desconcerto de Guy, um certo alívio de Djagoriew, que passava adiante parte de suas origens, seu passado capturado em diversas imagens com seus respectivos nomes e datas. Curiosamente, Guy vai em busca de Djagoriew justamente para procurar seu passado. Os rostos desses personagens, mesmo que não narrados detalhadamente, não me saíram da cabeça. Todas as reticências de um lado, frente às poucas palavras um tanto desconcertadas do outro... 

E a caixa vermelha. Nossa, a cena toda poderia estar em tons de cinza e somente a caixa vermelha comporia toda a cor do ambiente.


— Desculpe-me – disse. Mas o teto é baixo demais. Se fica de pé, a gente sufoca.
De fato, só havia alguns centímetros entre o teto e o alto da minha cabeça, e eu era obrigado a me curvar. Aliás, tanto ele quanto eu tínhamos uma cabeça que era mais alta do que a porta de comunicação dos cômodos, e pensei que ele deveria ter frequentemente ferido a testa naquele portal. 
— Deite-se, o senhor também… se quiser… – Indicou-me um pequeno divã de veludo verde-claro, perto da janela. 
— Não se intimide… o senhor estará muito melhor deitado… Até mesmo sentado, a gente tem a impressão de estar numa cela pequena demais… Isto, isto… deite-se… 
[...] 
— Olhe – disse-me. – Não quero mais falar de todas essas coisas… Fico muito triste… Posso simplesmente mostrar-lhe fotos… Há os nomes e as datas atrás. O senhor se arranjará… 
— O senhor é realmente muito gentil, aguentando tanta amolação de minha parte.
Sorriu-me. 
— Tenho montes de fotografias… Coloquei os nomes e as datas no verso, porque tudo se esquece… 
Levantou-se e, curvando-se, passou para o cômodo vizinho.
Escutei-o abrir uma gaveta. Retornou, com uma grande caixa vermelha na mão, assentou-se no chão e apoiou seu dorso na beirada da cama. 
— Venha, fique do meu lado. Será mais prático olhar as fotografias.

[...] 
— Meu irmão mais velho…
Passava-me as fotografias, cada vez mais rapidamente, e nem mesmo as olhava mais. Aparentemente, tinha pressa de terminar com aquilo. 
[...] 
— Minha mãe guardava todas essas coisas…
Levantou-se bruscamente.
— O senhor se incomodaria se parássemos? Estou ficando com tonteira…
Passava a mão na testa.
— Vou me trocar… Se o senhor quiser, podemos jantar juntos…
Fiquei só, sentado no chão, retratos esparsos ao meu redor. Fui guardando-os na grande caixa vermelha e conservei apenas dois, que coloquei na cama [...].


— O restaurante é aqui ao lado – disse-me.
Apanhei as duas fotos que deixara sobre a cama.
— Senhor de Djagoriew – disse-lhe –, o senhor poderia me fazer a gentileza de me emprestar essas duas fotos?
— Dou-as para o senhor.
Apontou para a caixa vermelha.
— Eu lhe dou todas as fotos.
— Mas… eu…
— Leve.
O tom era de tal modo imperativo que não tive saída senão obedecer. Quando deixamos o apartamento, carregava a grande caixa sob o braço.

MONDIANO, P. Uma rua de Roma. Rio de Janeiro: Rocco, 2014. p.36-42

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