O Leitor do Trem das 6h27, de Jean-Paul Didierlaurent


|  Por Clara Taveira e Raphael Pellegrini  |


Que narrativa doce e cinematográfica!

Nem dá para citar o que foi mais incrível nesse livro. As imagens do banco retrátil do trem, do vigia pendurado na porta do caminhão, o papel higiênico colado com fita, os pés caminhando no shopping vazio… Foram tantas as cenas, tanta espacialidade sem que o ritmo ficasse lento, que O Leitor do Trem das 6:27 se tornou uma das gratas surpresas literárias de 2017.

Operário discreto de uma usina que destrói encalhe de livros, Guylain Vignolles é um solteiro na casa dos trinta anos que leva uma vida monótona e solitária. Todos os dias, esse amante das palavras salva algumas páginas dos dentes de metal da ameaçadora máquina que opera. 
A cada trajeto até o trabalho, ele lê no trem das 6h27 os trechos que escaparam do triturador na véspera. Um dia, Guylain encontra textos de um misterioso desconhecido que vão fazê-lo buscar cores diferentes para seu mundo e escrever uma nova história para sua vida.  
Com delicadeza e comicidade, Didierlaurent revela um universo singular, pleno de amor e poesia, em que os personagens mais banais são seres extraordinários e a literatura remedeia a monotonia cotidiana.

Rolou uma certa surpresa por um livrinho tão curtinho e pequeno não ser corrido, mesmo que tudo aconteça muito rápido - são apenas 176 micropáginas. Também foi inesperado o modo como tudo se desenvolve de um jeito que nós não estamos muito acostumados, frente a muitos livros corridos, apressados, com uma ação intensa.

Ao contrário de outros, O Leitor do Trem das 6:27 muito nos pareceu um Fabuloso Destino de Amélie Poulin com um protagonista masculino. Foi muito gostoso somente seguir a narrativa sem ter uma grande questão inicial que deveria ser resolvida no livro. Procuras por aquela lógica de criar um problema no começo do livro para que as seguintes resolvam? Desculpe, mas ela não ocorre nesse livro. E isso é delicioso! 

Tudo é muito mais suave e, até certo ponto, cotidianamente natural. Nós só vamos pegando o trem, trabalhando junto do protagonista e, quando menos esperamos, aquilo que buscávamos sem saber simplesmente está estampado na nossa cara. Simplesmente acontece. Prosaico, singelo, comum, belo. Mágico como todo novo despertar.

Outro ponto que para mim foi perfeitamente trabalhado e honestamente comprometido com a proposta do texto foi a ausência de fechamento ou conclusão. Isso seria algo que destoaria demais de tudo que foi narrado anteriormente. Uma única página relatando um encontro amoroso seria suficiente para estragar uma beleza que se faz pela impossibilidade de se saber o que vem pela frente. 

Mesmo que, como leitores, tenhamos desejos, expectativas e anseios para os personagens, saber deixar somente para a imaginação daqueles que consomem a obra o que se dará após aquela carta foi um movimento perfeitamente coerente com tudo que a obra se propôs a ser.

O Leitor do Trem das 6:27 foi para mim uma história de gente comum, com problemas comuns, com possibilidades impensadas iguais as que surgem para todo mundo, todos os dias. E por isso é tão bom, afinal o que temos de potência no comum é a nossa capacidade de produzir diferença. Quero mais é mergulhar nessas histórias comuns, que aquecem o coração num fim de tarde chuvoso de domingo.

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