Oryx e Crake, de Margaret Atwood







Esse era o problema do Blood and Roses: era mais fácil lembrar das coisas relativas a sangue. O outro problema era que o jogador Blood geralmente ganhava, porém vencer significava herdar uma terra devastada
Esse começo de leitura tem sido bastante difícil. Não pela linguagem, forma ou história possivelmente maçante, mas exatamente pelo oposto: tudo isso funciona magistralmente produzindo uma imersão avassaladora. Um texto que me faz pensar em Deleuze e Guattari e seu movimento de desterritorialização e territorialização do livro e do mundo.

Desterritorialização: um mundo pós-apocalíptico, até certo ponto distópico, tecnológico, controlado por grandes corporações que transformam a geografia física-política-social-econômica-estética-epistemológica em função dos seus próprios objetivos. Como tais, seus desejos e caprichos são direcionados pelo capital, não havendo barreiras que limitem suas ações;

Reterritorialização: mas nossa sociedade não me parece tão distante assim. Nossa comida é commodities em expansão, produzindo cada vez mais fome - seja daqueles que não têm, seja daqueles que possuem sempre mais do mesmo; nosso verde virou pasto, ou grandes lavouras de meia dúzia de grãos; nosso transporte é movido a petróleo com doses cavalares de aquecimento global, desmatamento e morte por tragédias climáticas. Não é somente um discurso de impacto contra o agronegócio ou as mega-corporações, é só uma reterritorialização possível do mundo. Uma reterritorialização que me faz pensar se em algum momento dessa cadeia produtiva existe espaço, tempo, possibilidade de existir algum tipo de percepção da humanidade existente à nossa volta para além apenas do consumo de muitos e do lucro de poucos. Se fôssemos todos norte-americanos no mundo, precisaríamos de pelo menos mais três planetas como o nosso.

Desterritorialização: animais modificados, plantas modificadas, máquinas vivas de órgãos para salvar vidas, mas somente aquelas que pagarem pelo procedimento. Cruzamentos que influenciam na biodiversidade, na genética, na cadeia alimentar, nos equilíbrios instáveis e naturais, nas plantas, nas matas, no clima, na vida que existe em todo lugar.

Reterritorialização: transgênicos modificados geneticamente com o intuito de ressaltar características, plantas modificadas para produzirem mais em menos tempo; pele feita em laboratório a partir de células tronco. Mas quem é o dono do laboratório e quanto ele cobra pela pele? Vidas serão salvas ou tudo isso será usado em clínicas de estética para produzir rejuvenescimento facial? As duas coisas podem coexistir, mas quem vai poder pagar por elas? Seria maravilhoso não existir fila de espera para órgãos, mas seria proporcionalmente infernal se isso dependesse de quanto dinheiro você tem na conta bancária. A escolha é sua, eles poderão dizer: você acha que sua vida vale menos do que a hipoteca da sua casa? 

O plano não cobrirá esse procedimento, e o governo já vendeu a saúde para as empresas. O mesmo que corta o procedimento muito custoso para saúde pública, oferece na esquina por em 42x com juros de 9% ao mês. Pequenas fortunas para permanecer vivo, o lucro em duas vias. Tudo isso decidido nos acordos marcados pelo dinheiro que não cabe mais em malas ou em apartamentos-bunker.

Desterritorialização: os jovens navegam na internet. Assistem pornografia infantil de algum país pobre e distante; mulheres apedrejadas, em algum estado fundamentalistas; violência sexual, física, moral, estética, política, epistemológica, apontada na direção de um gênero específico - por sinal, o mesmo a mais de dois mil anos - em duas telas simultâneas “Se você passasse de um para o outro bem depressa, tudo parecia fazer parte de um mesmo show.”

Reterritorialização: deep web; telejornais sangrentos; Datena e o Cidade Alerta, e o Ego e o TV FAMA, e o bico do peito da Anitta, e o bico do peito da mulher arrastada indevidamente pelo camburão, morta no asfalto.

É a mesma coisa quanto ao livro e ao mundo: o livro não é a imagem do mundo segundo uma crença enraizada. Ele faz rizoma com o mundo, há evolução aparalela do livro e do mundo, o livro assegura a desterritorialização do mundo, mas o mundo opera um reterritorialização do livro, que se desterritorializa por sua vez em si mesmo no mundo (se ele é disto capaz e se ele pode). (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p.28)

Margaret Atwood provavelmente permanecerá me aprofundando no livro e no mundo como Deleuze e Guattari me avisaram. Talvez eu possa estar sendo muito pessimista nesse movimento que fiz, o mundo pode não se parecer tanto com esse planeta de Oryx e Crake, mas talvez produzir pontos de encontros entre essas duas formas de vida seja interessante para que eu possa pensar se é isso que desejo para o futuro.

Por Raphael Pellegrini

Referências:

ATWOOD, M. Oryx e Crake. Rio de Janeiro: Rocco, 2004

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil Platôs: vol.1. São Paulo: 2011.

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