Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson

|  Por Raphael Pellegrini  |

Escrever sobre Eu sou a Lenda me fez lembrar de Bauman, mais especificamente de uma passagem dele sobre o medo, porque, pelo menos para mim, Eu sou a Lenda é um livro sobre o medo. Assim, acho que seria oportuno seguir o texto em paralelo com uma passagem de Cegueira Moral para que eu possa tentar narrar um pouco do que me chamou atenção durante a leitura.

Existem, e sempre existiram em todas as épocas, três razões para se ter medo. Uma delas era (é e continuará a ser) a ignorância: não saber o que vai acontecer em seguida, o quanto somos vulneráveis a infortúnios, que tipo de infortúnios serão esses e de onde provêm.

Neville está sozinho em casa. Neville está sozinho em seu bairro. Neville está sozinho em sua cidade. Neville provavelmente é o último ser humano sobrevivente no planeta. Neville está sozinho.

Basicamente, uma bactéria que se propaga pelo ar – e nesse universo de Matheson, as guerras produziram um clima bastante propício para a propagação de tal praga: passa a afetar os humanos os transformando em vampiros (esqueça os zumbis do filme, aqui o lance é vampirismo mesmo). Foi por meio dessa doença que nosso protagonista perdeu sua filha, depois sua esposa, depois seus amigos, seu mundo.

Nesse universo de Eu sou a Lenda, a morte é quase um recomeço para muitos dos humanos atingidos pela doença. Um tanto menos inteligentes e bastante esfomeados, aqueles que renasceram rondam diariamente a casa de Neville esperando qualquer brecha que ele possa dar. Mas quem dera se fossem apenas esses seres os causadores de todos os problemas.

Esse é a primeira razão do medo de Neville: ele não sabe como enfrentar isso, como curar essa doença, como tudo pode evoluir. Até alguns meses antes, ele tinha esposa, filha e trabalho. Agora apenas pensa em como se manter vivo. Ele não sabe se na noite seguinte suas armadilhas funcionarão como antes, se suas táticas de fuga e sobrevivência serão válidas, se sua mente vai resistir à loucura daquele mundo, se seu corpo vai continuar funcionando com tanto álcool e comida congelada. Neville não sabe quem começou isso, nem se tudo que ele está passando terá um fim.

A segunda era (é e continuará a ser) a impotência: suspeita-se que não há nada ou quase nada a fazer para evitar um infortúnio ou se desviar dele, quando vier.

Neville não pode mudar o mundo, nem trazer de volta sua mulher, filha, trabalho... sua vida. Tudo se foi, e a sensação de impotência gritou na minha cara em todas as páginas. Ele é um sobrevivente e, como tal, sobrevive a duras penas um dia de cada vez. No fundo, eu sabia que aquilo não caminhava bem. Ok, ele estava vivo, resistente, armado para se defender. Mas dá para lutar contra o mundo inteiro quando se abre a porta de casa e contra uma mente perturbada quando se fecha a porta? Seria possível enfrentar os dois por dez, quinze, cinquenta anos?

Mesmo nos momentos mais otimistas do livro, naqueles em que o protagonista encontra “saídas” para seus conflitos, eu internamente sabia que a via era de mão única e que, por isso, o final alguma hora iria chegar.

E aqui para mim surgiu a voz de Calvino falando da cidade:

Mais do que com a máquina, é a comparação com o organismo vivo na evolução da espécie que pode nos dizer alguma coisa importante sobre a cidade: como, ao passar de uma era para outra, as espécies vivas adaptam seus órgãos para novas funções ou desaparecem, assim também as cidades. E não podemos esquecer que na história da evolução toda espécie carrega consigo características que parecem de outras eras, na medida em que já não correspondem a necessidades vitais, mas que talvez um dia, em condições ambientais transformadas, serão as que salvarão a espécie da extinção. Assim a força da continuidade de uma cidade pode consistir em características e elementos que hoje parecem prescindíveis, porque esquecidos ou contraditos por seu funcionamento atual.

A praga do vampirismo mudou o organismo vivo da cidade. Se para uma forma mais ou menos evoluída, isso não importa. O ponto central para mim é que as espécies e a cidade se adaptaram às suas novas condições, menos Neville. Ele é de outro tempo, outra geografia, outra forma de percorrer o mundo, e não há jeito de permanecer vivo nessa nova configuração. Na seleção natural daquele planeta, Neville se tornou a presa mais fraca, organismo em extinção.

A cidade e o mundo mudaram, e espécimes como Neville já não fazem mais parte do organismo vivo que é o mundo. Uma nova ordem biopolítica surge, e a grande questão é: terá espaço para Neville nela?

A terceira era (é e continuará a ser) a humilhação, um derivado das outras duas: a ameaça apavorante à nossa autoestima e autoconfiança quando se revela que não fizemos tudo que poderia ser feito, que nossa própria desatenção aos sinais, nossa indevida procrastinação, preguiça ou falta de vontade são em grande parte responsáveis pela devastação causada pelo infortúnio.

Se a ameaça surge de todos os lados, o cuidado e atenção com cada detalhe necessário para se manter vivo são imprescindíveis. Entretanto notei em Neville a culpa do sobrevivente, daquele que, por sabe-se lá qual motivo, resistiu à tormenta, mas não conseguiu impedir que os seus fossem levados. Toda a autoconfiança se esvai pelas mãos e copos de uísque ao longo do livro. Preguiça, raiva, tudo bastante motivado pelo isolamento e pela culpa, são sentimentos que perpassam toda a obra.

Fiquei com a sensação que a figura do cachorro (sim, como no filme, existe um cachorro, mas o papel dele é bem diverso daquele retratado no longa-metragem) representa um pouco essa terceira razão para se ter medo. Desde o surgimento do animal até o desfecho, muitos desses traços se fazem presentes.

Muito mais coisa poderia ser dita sobre o livro. Em alguns momentos pensei no isolamento de Neville como o isolamento da cidade grande, dos prédios com incontáveis apartamentos por andar, nos quais é impossível conhecer aquele que mora na porta ao lado. Pensei nos sujeitos sem cara, sem corpo, sem identidade que a cidade produz todos os dias, e que, na maioria das vezes, precisamos nos anestesiar frente à injustiça e desigualdade, caso contrário não se consegue viver. Pensei em muitas outras coisas, mas achei que o medo merecia uma atenção a mais.

Afinal, existem, e sempre existiram em todas as épocas, três razões para se ter medo, e a que vivemos não é nada diferente.

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