No escuro, de Elizabeth Haynes

|  Por Clara Taveira  |


Trigger Warning: esse post contém descrições que podem ativar gatilhos sobre estupro e relacionamentos abusivos.


Sabe quando um livro te tira tanto da zona de conforto, que você acaba caindo na zona da incerteza, sem saber se gostou ou não? Foi isso que eu senti lendo esse livro, publicado pela Intrínseca há alguns anos.

O livro nos apresenta Cathy, a personagem principal, em dois momentos de sua vida. Um em 2004, quando Cathy é uma mulher feliz, bem sucedida, sensual, divertida e rodeada de amigos, e outro em 2008, quando a mesma Cathy é uma mulher tensa, aterrorizada, completamente rendida a um TOC sério, com estresse pós-traumático e com cicatrizes que vão além de seu corpo outrora cheio de vida. A diferença entre as duas Cathys é gritante, mas bem explicada, à medida que os dois momentos de sua história são contados simultaneamente.

Os problemas de Cathy começam em 2004, quando conhece Lee, um homem incrivelmente sensual, divertido, sedutor, que logo se apaixona por ela e a envolve com seu jeito atencioso de príncipe. Suas amigas a invejam, suas noites de sexo são incríveis, os momentos de carinho são perfeitos, em suma, sua vida está nos trinques, certo?

Errado. Lee começa a mostrar um lado controlador, obsessivo e ciumento, tornando lentamente sua vida um inferno. Tudo começa devagarzinho, com ele lendo sua agenda de compromissos ou vasculhando a cesta de roupa suja, e vai se agravando, passando por grampos no telefone, controle da quilometragem de seu carro até chegar nas agressões verbais e físicas.

Entramos em um ponto muito bem escrito no livro: todas as violências descritas no livro são extremamente bem escritas, por mais que eu relute em usar a palavra "bem" perto de "agressões". Uma das humilhações acometidas por Lee, quando ele quebra o nariz dela e a obriga a fazer sexo oral nele, apesar de todo o sangue que escorria e a fazia quase engasgar, me fez torcer para que ele caísse sentado em uma vassoura, de tão violenta e chocante que foi. Me fez odiar cada homem semelhante a esse bárbaro desalmado, cada-um-deles. Foi bem dolorido de ler.

A cada dia que se passa, Cathy sente mais dificuldade de fugir dele, o que é compreensível, já que, graças à sua profissão, Lee dispõe de todo um arsenal para rastreá-la e caçá-la. Em 2008, vemos uma Cathy já marcada pelos traumas, checando as fechaduras das portas e janelas por horas a fio, escolhendo caminhos diferentes na volta do trabalho todo dia, não realizando certas atividades em dias ímpares, tendo horários fixos para tomar chá e lutando contra ataques de pânico ocasionados por qualquer barulho ou desconfiança de ter visto Lee no rosto de um desconhecido. Por mais que estivesse preso, seu ex seria solto um dia, e isso tornava Cathy cada vez mais acorrentada ao TOC, ao pânico e à tensão.

Sua situação começa a mudar quando Stuart, doutor em psicologia, se muda para um apartamento em seu prédio. Stuart é preocupado e atencioso, mas sem ser meloso, já que, pelo que Cathy imagina, não parece sentir nenhum tipo de interesse que não profissional em sua vizinha. Ele a aconselha a procurar ajuda profissional, a ajuda com os ataques de pânico e, para alívio de Cathy, tranca bem a porta do prédio. Tudo começa a caminhar para uma calmaria quando a detetive Sam liga para avisar que Lee foi solto. Uma palavra define esse momento do livro: ferrou!

O livro, como disse antes, possui cenas muito verossímeis. Porém alguns detalhes me incomodaram, e muito! Por exemplo, o suspense feito em torno da agressão principal de Lee, ou seja, a que mais traumatizou Cathy, é tão grande, mas tão grande, que eu imaginei coisas horríveis e indescritíveis. Sim, o que ele fez é monstruoso, mas antes disso, no já citado momento em que ele quebra metade do rosto dela e a obriga a fazer sexo oral mesmo com todo o sangue e coriza escorrendo e depois a estupra violentamente, me pareceu muito pior e violento do que ele faz no final. Talvez possa ser impressão minha, afinal, acho a violência sexual pior e mais traumatizante do que a violência física "tradicional", sem o estupro envolvido. Pode ser uma besteira imensa de minha parte (provavelmente é), mas eu me sinto mais agoniada na cena do sexo oral forçado do que nas de agressão, ainda que tudo, no final, seja a mesma coisa: uma covardia sem precedentes.

Dito isso tudo, de forma confusa, afinal, é assim que os meus sentimentos perante este livro são, eu digo que não recomendo esse livro como um suspense incrível, por motivos puramente pessoais. É bom, é bem escrito, mas me trouxe mais aflição do que prazer e, por mais que sair da zona de conforto seja excelente, principalmente quando falamos de violência doméstica, sexual etc., estou numa zona além da do desconforto. Estou na zona da incerteza. E da aflição.

Não recomendo de modo algum a quem tenha experienciado algum tipo de violência de gênero. Ativou gatilhos em mim mesmo sem eu ter passado por algum tipo de agressão em minha vida. Foi cansativo e desgastante, me deixou arrasada e me deixou no maior banzo por dias.

Porém recomendo para muitas pessoas, em especial a aquelas que dizem que o feminismo não é necessário nos dias de hoje. Leia esse livro e me diga se você continua achando isso. Eu te desafio!

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