Dumplin', de Julie Murphy



|  Por Clara Taveira  |

Todo mundo que me conhece ou acompanha o Capitu Já Leu (ou ambos!) sabe que eu sou apaixonada no Wattpad. Além de embaixadora de lá, sou autora E leitora (é bom especificar isso, já que agora está rolando uma modinha de autores que não gostam de ler para “não influenciar em suas obras”. What?), e acredito muito no potencial de uma pá de autores lá.

Mas preciso confessar que nem tudo são flores. Há um problema muito sério em alguns (não vou dizer muitos, pois só de usuários brasileiros ativos, o Wattpad já ultrapassou um milhão, então não posso falar como se conhecesse a maioria, né?) autores da plataforma. Ao contrário da Amazon, o Wattpad permite que você comente não somente em cada capítulo, como em cada PARÁGRAFO. E qual é o problema disso, você me pergunta. O problema é que muitos autores iniciantes levam a sério as opiniões do leitor e acabam modificando MUITO seus textos por isso.

“Ai, Clara, tá dizendo que o autor não deve ouvir críticas?”

LÓGICO QUE DEVE. O problema é que não pode ser nem oito nem oitenta. Vejo muitos autores relatando que mudaram traços da personalidade do personagem por causa de comentários como esse: 



Esse print tirei do meu e-mail sobre meu livro Amor nas Alturas. Alguém chamou minha personagem de chata porque ela disse que não queria ser reduzida a “namorada de Fulano”. Ok, opinião dela, muito obrigada pelo comentário, não vejo nenhum mal em alguém dar sua opinião de modo respeitoso, pelo contrário! Quero mais é que comentem, digam o que agradou, o que não agradou! Amém, aleluia!

O problema se encontra quando o autor olha e diz “droga, a personagem não agradou!! Vou mudar isso, isso e aquilo”. Sabe qual é o resultado disso em 90% dos casos que eu presenciei? Personagens planos, que não hesitam, que não tem dúvidas, que respondem provocações imediatamente, como aquele povo da novela Rebelde Brasil, lembram? Não? Aqui, ó, se liga nesse diálogo pré-beijo do casal:



Claro que esse tipo de escrita e comportamento não é padrão no Wattpad. Há centenas (talvez milhares) de livros INCRÍVEIS e que fogem dessa característica do personagem-perfeito. Estou mencionando isso tudo porque, depois de ler Dumplin’, fiquei pensando nos personagens humanos, reais.

“Ai, Clara, o que isso tem a ver com o livro, mulher?”

Tudo!! Porque a Dumplin’ é o oposto extremo desses personagens planos, perfeitos, que não têm dúvidas, profundidade, que tem resposta para tudo na hora, sem nem pegar ar antes de falar algo. Senti, em diversos momentos da leitura, que a Willowdean era alguém extremamente plausível, possível. Fui invadida por uma salada de sentimentos por suas atitudes, dúvidas, posturas: ora queria dar um abraço, ora um tapa na cabeça, ora quis chorar e chutar a cara dos babacas que a tornaram insegura, ora queria balançar pompons comemorando suas tiradas.

Dumplin’, ao contrário do que muita gente espera (ou diz), não é um livro que mostra uma adolescente gorda e totalmente empoderada, que desfila pelos corredores da escola sem se importar com ninguém. Não, Dumplin’, que é o apelido dado por sua mãe (e significa “salgadinho”, tipo uma coxinha, ou um croquete, uma bolinha de queijo, sabe?), é um livro sobre uma adolescente gorda (olha, odeio chamar de "gordinha", parece que "gorda" é um pecado, uma ofensa bizarra) que poderia ser sua vizinha. Uma jovem, humana, de carne e osso, que não consegue não se importar todo dia com o fato de que as pessoas não a aceitam. Simples assim. Willowdean é alguém verdadeiro, que nem sempre dá conta de se sentir segura todos os dias. Cá entre nós, alguém consegue isso??

Sério, gente, eu realmente acho que até a Beyoncé, a Adele, o Will Smith e o Jared Leto têm dias de insegurança. Essa coisa da pessoa que se ama todo dia, 24X7, é meio coisa de Tumblr, meio irreal. As pessoas podem se sentir uma porcaria de vez em quando, é humano. E tudo bem! Tudo bem a gente não estar 100% satisfeito sempre com nossa imagem, nossas atitudes! Como diria a maravilhosa drag queen Latrice Royale, “tudo bem errar, tudo bem tropeçar”!



Entrando mais no enredo, Dumplin’ é uma adolescente filha de, veja só a ironia, uma organizadora de um concurso de beleza (só me lembro daquela senhora do filme Miss Simpatia, lembram?), daquelas que dedicam a vida ao concurso. Como era de se esperar, sua mãe é dessas paranoicas com beleza, magreza, essas coisas que não necessariamente se complementam. Em contrapartida, Will tem a tia Lucy, que a aceitava totalmente.

Aqui eu entro no único aspecto do livro que me desagradou: as duas irmãs parentes de Will são dois extremos que não considero nem um pouco saudáveis. Uma é totalmente grilada com emagrecimento (principalmente pela parte estética), a outra é completamente “não me importo” com o fato de pesar 250 quilos. Minha implicância é que, mesmo que uma delas tenha morrido por causa desse modo extremo de pensar, Will a defende com unhas e dentes. Tipo, tia Lucy não morreu em um acidente de carro, ou tropeçando e rolando pela escada. Não, ela morreu por causa dos 250 quilos! Seu coração PAROU! Não tem como defender isso, cara.

Veja, não sou dessas hipócritas que enchem o pulmão de fumaça preta, bebem absinto três vezes na semana, comem potes de açúcar por mês, mastigam a gordura da carne no churrasco como se fosse um rolinho de queijo muçarela, mas dizem “AY, OLHA AQUELA GORDA, A SAÚDE DEVE ESTAR HORROROSA”. Nem pensar, odeio esse tipo de gente que se mete na saúde (e na vida) alheia. 

PORÉM…

Tia Lucy morreu do coração por causa da obesidade, cara! E, mesmo assim, Dumplin’ briga com a mãe, falando em aceitação, etc. Ora bolas, Dumplin’, você pode se aceitar gorda, mas defender a tia que morreu por causa disso é demais para mim. E digo isso como uma pessoa que já perdeu muita gente na família pelo mesmo motivo. Eu realmente esperava que Dumplin’ fosse um meio-termo entre a loucura da mãe e o comodismo da tia, ainda mais porque a jovem sente uma falta horrorosa da amada Lucy. E o que levou a Lucy embora? Os 250 quilos! 

Fora esse detalhe, o livro é maravilhoso. Will é a rainha dos comentários maravilhosos e reflexivos! Fiquei com vontade de selecionar umas fontes lindas, imprimir suas frases e colocar uns cinco deles em um quadro na parede. Por exemplo:

Detesto ver gordas na tevê ou no cinema, porque parece que o único jeito de o mundo aceitar um gordo é se ele estiver infeliz com o próprio peso ou se for o melhor amigo piadista.


TOMA NA SUA CARA! Fala se isso não é 100% verdade??? E, como sempre, esse tipo de coisa vem acompanhado daquele discurso hipócrita de saúde, o que eu mencionei ali em cima!!

Gente, olhem meu Facebook. Eu tenho 1,71m, peso 64kgs. Estou longe de ser gorda, e minha saúde, até mês passado, quando eu comia basicamente carboidratos e açúcar, estava UM TERROR!! Sério!! Minha pele, minha disposição, minhas noites de sono, tudo horrível. Nem vou mencionar exames de sangue, porque aquilo tudo é assustador demais. Diabetes? Quase ali!! Me diga: eu, no alto desses sessenta e tantos quilos teria algum tipo de moral para falar de alguém com noventa quilos?

E, mesmo se tivesse, se minha saúde fosse maravilhosa, isso me daria algum tipo de direito de me meter na vida, saúde, corpo alheios? Ah, pelo amor de Deus, adotem um gato e cuidem das sete vidas dele!!

Voltando para a história (desculpa, gente, mas essa resenha vai ser toda assim, porque o livro mexeu e muito comigo), está tudo caminhando normalmente na vida de Willowdean, até que ela se apaixona por Bo, seu colega de trabalho em uma fast-food. E, veja, ele retribui! Que bom, né? Tudo deu certo!

Não.

Entra aí a dicotomia que Will é: totalmente corajosa e totalmente insegura. Em vez de curtir seu amor de adolescente, ela se sabota. Sente medo, pensa no que os outros vão falar, no que vão pensar do jovem gostosão de mãos dados com a gorda. Lembra do que falei sobre a vontade de dar um tapa na cabeça? Aqui, essa vontade veio com tudo, mas também quis dar um abraço. Sabe aqueles apertos que você dá nas BFFs falando “ô, meu amor… você é uma besta.”? Então!

Ao mesmo tempo, a Will corajosa percebe que está se sentindo inferior por causa de um cara, algo que nunca teve a ver com ela! O que a bicha decide? ENTRAR NO CONCURSO DE MISS!

Tudo (...) me deixou na maior raiva, porque eu não queria ser uma daquelas garotas que se sentem mal em relação a si mesmas por causa de um cara.

Mas, calma: não há nada daqueles clichês da gorda “de rosto bonito” (ai, como odeio esse papo!) entrando no concurso de miss e ganhando só o Miss Simpatia, e olhe lá, ou vencendo todas as meninas esqueléticas, de cabelo e pele sedosos. O final é deliciosamente refrescante e surpreendente, ao menos para mim. Achei na medida certa, sem exageros, no ponto.

“Beleza, Clara, você adorou o livro. Mas o que tem a ver com o lance do Wattpad, que você mencionou no começo?”

Simples: o livro é contado em primeira pessoa, mas cada personagem tem uma voz diferente, cada personagem tem sua profundidade. Veja, não estou dizendo que os livros do Wattpad são ruins, longe de mim!! EU AMO O WATTPAD E SUAS HISTÓRIAS. O que mencionei foi aquele lance de se modificar tanto a história tentando agradar, que o personagem fica flat

E é esse o ponto, nenhum personagem em Dumplin’ é flat. São humanos, são reais, são possíveis! Causam diferentes tipos de reação, nos fazem pensar sobre nossas ideias fixas sobre certas coisas, enfim: são cheios de curvas.

Ops...

Perdão pelo trocadilho!


Um comentário:

  1. Arrasou na resenha! E, sim, se a gente não se vigiar dentro do Wattpad as coisas podem sair do controle e os personagens se tornam "on demand". Will parece ser o meu tipo de personagem: cheio de camadinhas ♡

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