Quando o Amor Bater à Sua Porta, de Samanta Holtz

|  Por Clara Taveira  |


– Admita: você não morreria de raiva se esses dois terminassem a história separados?

Malu estufou o peito para argumentar, porém sabia que aquela era uma batalha perdida. 

Rendida, apenas fez que sim com a cabeça, para deleite do companheiro.

– Viu só? Um final romântico não tem problema nenhum. Além disso, você disse que esse filme é um sucesso, não é?

– Sim, é um sucesso. E, sim, eu torci para que o casal ficasse junto no fim. O problema é que a vida real não funciona desse jeito! – Ela baixou o volume da música quando os créditos subiram na tela. – Quero transmitir uma mensagem mais realista às minhas leitoras.

– E quem é que abre um livro para ler mais daquilo que já vive todos os dias?

Pense na minha felicidade quando li esse diálogo no livro da autora Samanta Holtz, Quando o Amor Bater à Sua Porta, publicado pela Arqueiro! Eu, que já fiz post falando sobre clichês (leia AQUI), ameeeeei a pergunta de Luiz Otávio, o homem sem memória que bate à porta de Malu, uma autora de sucesso e protagonista desse delicioso romance.

Confesso que pedi esse livro na parceria do mês porque adoro livros com perda de memória como pano de fundo (sonho em escrever um assim, confesso) e amei o fato de a protagonista ser uma escritora!!!

O livro já começa com Malu dando uma entrevista maçante, onde as mesmas perguntas de sempre são feitas para ela. Rolou uma identificação? Rolou, pois, como revisora, conheço muitas autoras que vivem dando entrevistas e me relatam sempre que é por aí mesmo, sempre as mesmíssimas perguntas. “Quando começou a escrever?“, “Sua família te apoia?”, “Como é sua rotina de escrita?“, “Tem dicas para os escritores iniciantes?“. Confesso que ri MUITO quando vi as respostas mentais ácidas de Malu. Ela já ganhou meu coração logo nas primeiras páginas.

Apesar da pouca idade da escritora, quase trinta, eu logo associei seu jeito meio sério, meio na dela, meio sarcástico com o da Clarice Lispector. Cara, não adianta, a associação foi muito rápida: eu penso na Malu, já imagino a Clarice quando novinha, linda, com aquele batom escuro, o cigarro entre os dedos, sabe?

Quanto à história, o conflito gerador acontece quando Malu, que está passando por um momento enjoadinho com seu editor e consigo mesma por causa de um final de um de seus romances, já que ela deseja que seu livro seja realista e não cheio de amorzinho, ouve alguém batendo à sua porta e dá de cara com Luiz Otávio, um bonitão que, além de ter o mesmo nome de seu protagonista (o que eu achei meio blé, cá entre nós), tinha um compromisso marcado com a autora. O problema é que ele não lembra do motivo desse encontro. Aliás, Luiz não lembra de nada, nem mesmo de quem é, já que sofreu um acidente e perdeu a memória. A única coisa que ele sabe é que se chama Luiz Otávio Veronezzi e que tinha um compromisso marcado com Malu, compromisso esse que a mesma não compareceu por um erro de sua lerdinha assessora.

Malu, apesar de ficar com o pé atrás, acaba tentando ajudar o pobre homem desmemoriado, o que, mesmo sem querer, abre portas para que Luiz se aproxime cada vez mais da jovem escritora e descubra que ela não é essa fortaleza toda que deseja mostrar ao mundo. Nesse encontro entre dois mundos distintos de descobertas (o mundo de Luiz e o mundo verdadeiro de Malu), uma linda história de amor vai surgindo.

Se eu gostei do livro? Gostei, bastante! A autora escreve com maestria, a escrita é deliciosa, fácil de ler, os personagens são todos encantadores, daqueles que você quer ser amigo, tomar umas cervejas, discutir política ou o álbum novo da Beyoncé em um barzinho. Até o avô ultra velho de Malu, por exemplo, é adorável. Apesar da rigidez de um aposentado de guerra, ele tem certas atitudes que são muito bonitinhas! Por exemplo, ele se derrete de carinhos quando a neta chega em sua casa de repousos, onde ele não passa um minuto do seu dia sem ver um bom Charlie Chaplin na televisão. Achei fofo, achei gracinha!

Porém o que acho que fez com que eu não amasse o livro por completo foi exatamente a questão do clichê e do final previsível. Calma, eu já explico! O livro fala muito no final feliz, no quanto Malu gostaria de escrever um final real para sua personagem, no quão previsível pode ser um final de livro, etc e tal. E a discussão sobre isso é ótima, principalmente para mim, já que eu curto um clichê, como todos já sabem. Concordo plenamente com o que Luiz Otávio diz no trecho que abre a presente resenha: eu não abro um livro esperando ver mais do meu dia a dia, poxa!

O problema foi o final do livro, gente. Calma, não vou dar spoiler. O problema é que eu achei tudo muito previsível, previsível até demais, entende? E olha que eu sou super lerda pra adivinhar mistérios, viu? O mistério, por exemplo, de quem é o Doutor Love, colunista de um jornal que Malu adora ler, eu decifrei na metade do livro. Juro!! Eu não sei se fico orgulhosa de mim ou se acho que realmente tava na cara. Vou ficar com a primeira opção, é bom pra mim e para a autora, que não tem o livro dela chamado de previsível, né? :)

Outra coisa que não curti muito também foram as resoluções clássicas de romance. Quem é quem, o que aconteceu, por que aconteceu, essas coisinhas. Esperava motivos mais intensos para Malu ser quem era, a escritora séria, meio sisuda, na vibe de Clarice Lispector. Esperava mais de Carlos Eduardo, um personagem que aparece no meio do livro e que eu senti vontade de chutar a canela do começo ao fim de sua aparição. Esperava mais da relação de Malu com sua assessora. Esperava mais da amnésia de Luiz Otávio. Esperava mais da vida “real” de Luiz Otávio, sabe? Achei tudo muito encaixadinho!

Sim, o final é previsível até pra burraldina que eu sou. Mas não pense que ele tirou o encanto do livro, não tirou!! Achei ele muito gostoso, muito bem escrito, muito, muito, muito legal, de verdade!! Dou nota 9 exatamente por causa do fim, da previsibilidade dele. Mas é aquela historia, né? Nem sempre o que importa é o final, mas sim a historia a ser contada. Lembrem-se de How I Met Your Mother! :D

E essa história é muito, muito show de bola. Recomendadíssimo!

Ah, sim, antes que eu me esqueça: essa resenha foi postada originalmente no blog Encontros Literários, e a autora do livro comentou lá, olha que bacana:



Não é um amor? Amei de paixão!

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