Garota do Cemitério, de Charlaine Harris, Christopher Golden e Don Kramer


|  Por Raphael Pellegrini  |


Nem surpreendente, nem desanimador, o primeiro volume da série Garota do Cemitério faz o dever de casa ao me deixar com vontade de saber o que de fato aconteceu com Calexa.


Imagine você acordar dentro de um cemitério com a sensação – talvez até mais do que uma sensação – que aquilo é um aviso, que você foi jogada ali por alguém que achava que já tinha feito o serviço? Entre túmulos malcheirosos, flores murchas e muitos defuntos, está você, sem memória, meio grogue, tendo apenas a ideia fixa na cabeça que a situação que você está passando não é um acidente.

É exatamente assim que Calexa, personagem principal do quadrinho Garota do Cemitério – Os Impostores, inicia a história. 

Jogada dentro de um cemitério enquanto estava desacordada, Calexa decide que permanecer ali seria o mais seguro para si, esperando que suas memórias trouxessem a razão de quase ter sido assassinada. Porém, se manter viva e escondida por semanas em um lugar até certo ponto movimentado não é uma tarefa tão simples. Entre se esconder do funcionário da manutenção e fugir dos visitantes diários, Calexa precisa viver.

E talvez essa seja a minha primeira implicância com o começo da história. Tive a sensação que o primeiro terço do quadrinho é quase como uma passagem, um corredor que você, leitor, segue para enfim chegar a algum lugar. Senti falta de um pouco mais de drama psicológico nessa parte, pois a personagem está sozinha, dormindo num mausoléu. Seus diálogos – mentais, já que ela não conversa com ninguém – são curtas e normalmente não me impactaram, mostrando seus medos ou devaneios. Mesmo em uma situação horrorosa, achei Calexa pouco desenvolvida nessa parte.

Porém, quase na metade desse primeiro volume da história, o quadrinho engrena, trazendo uma sequência de ações de outros personagens que vão influenciar diretamente em nossa protagonista. Essa parte, mais agitada, que exige uma personagem mais ativa – incluindo suas escolhas em correr mais riscos – torna a história mais fluída, dizendo mais a que veio. Os encontros de Calexa com desconhecidos é, para mim, o ponto alto. Acho que me interessei bastante pelo modo como os personagens secundários são apresentados, exatamente por serem retratados como se vistos por uma janela. É uma visão delicada, que retrata gestos simples e momentos fugazes desses personagens. 

Nesse sentido, ver tais personagens como Calexa provavelmente os via funcionou perfeitamente para mim. São vozes e construções bem distintas, que trazem um pouco das histórias e possibilidades de tais personagens. Ponto para o quadrinista!

Mais para o fim da história, Calexa é levada a uma situação difícil, e uma nova voz passa a interagir com ela. Nesse ponto, acho que o meu desejo de mais “perrengue emocional” por parte da protagonista é mais atendido. O jogo entre as duas vozes funciona bem e tem um desfecho bacana. O desfecho desse conflito é bem-feito, porém fiquei com a sensação que, tirando essa aventura, o livro não mergulha no seu principal problema: quem é Calexa? Ela corre perigo ao sair do cemitério?Quem tentou matá-la?; Existe alguém procurando por ela?

Enfim, sei que é uma sequência de quadrinhos e me mantenho com vontade de continuar a série, mas fiquei com a sensação que muito pouco foi dito nesse primeiro volume. Queria um pouco mais da mente da personagem, um pouco mais de conflito e de gancho para as próximas aventuras. Por isso, esse primeiro volume faz o dever de casa sem surpreender e me deixa com vontade de saber o que vai acontecer, mas não me tocou ou emocionou com alguma cena ou passagem mais forte. Está mais no clima de "toca o barco e vamos ver até onde vai".

Por fim, não poderia deixar de tocar em dois pontos que me chamaram atenção nas ilustrações dos quadros. O primeiro é que as expressões faciais nos quadros menores são bem indefinidas. Em alguns casos é difícil perceber as emoções no rosto dos personagens quando não temos um quadrinho de close. Como comparação, no quadrinho Valente, de Vitor Cafaggi, mesmo nos quadros que não dão enfoque somente ao rosto de Valente, percebemos as sensações do personagem. Em Garota do Cemitério – Os Impostores isso não fica claro.


Por outro lado, gostei bastante de algumas passagens de quadros. Algumas sequências são bastante bem-encadeadas, dando uma sensação de movimento muito legal. Alguns quadros de close também funcionam bem e se mostram bem escolhidos. 

Espero encontrar, no próximo volume, uma Calexa um pouco mais desenvolvida, além de suas principais questões mais exploradas. Mesmo que a trama paralela desse primeiro volume tenha afetado a protagonista e tenha sido preponderante para o posicionamento dela diante dos problemas que enfrenta, o primeiro volume me pareceu quase um prólogo frente aos principais conflitos da história.

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