A Linguagem do Amor, de Lola Salgado

|  Por Clara Taveira  |

Um dia desses, rolou uma promoção doida (ou foi um bug?) na Saraiva: a cada R$ 70,00 em livros, ganharíamos R$ 10,00 em desconto. Por livro! Achei meio louco, mas comprei uns livros mesmo assim. Menos de uma hora depois, a promoção acabou, o que nos levou à conclusão de que, sim, era um erro de programação. Até achamos que a compra seria cancelada, o que faria sentido, mas a Saraiva honrou com seus compromissos e mandou os livros. Ponto para ela, afinal o consumidor não pode ser culpado pelos erros da empresa, certo?

No meio dessa comprona estava “O Ar que Ele Respira” (resenha em breve aqui), livro que eu li rapidamente, apesar do tamanho, mas fiquei muito decepcionada com o final. Muito mesmo. Tipo, MUITO. Me senti meio enganada, pois me prometeram um livro com vibe de história real, contemporânea, possível, mas me deram um final tão… Enfim, terminei o livro me sentindo incompleta, sabem como é?

Eis que estava passeando pela Amazon, quando vi “A Linguagem do Amor”, que segue uma premissa semelhante ao OAQER (sim, eu sempre uso siglas, me perdoem): um mocinho barbudo, bonitão, rude, possivelmente com um passado sombrio. Mas as semelhanças acabam aí. A mocinha pode até ter um passado complicado, mas em nada se assemelha à protagonista de OAQER. Ufa. Não estou muito no clima de mergulhar em desgraceira, confesso. Decidi apostar no  livro de Lola Salgado, então. Melhor coisa que fiz no meio daquela ressaca.

O livro nos conta a história de Rebecca, uma jovem de 17-quase-18 anos com prioridades bem definidas na vida: fazer sua faculdade de Letras e ir trabalhar em uma grande editora. Nada de meninos, nada de distrações, nada de nada. Eu, como uma pessoa formada em Letras e que trabalha no mercado editorial, me senti representada e até um pouco orgulhosa. Afinal, é muito comum calouros que entram na Letras achando que pisar no prédio do curso já te dá um ingresso para entrar na Companhia das Letras ou na Intrínseca, sabe? Becca, não. Ela quer entrar para trabalhar nos bastidores! Vem, miga, vamos ser colegas e tomar café juntas! <3

Eis que um professor surge na faculdade, dotado do kit preferido da mulherada desse final da década de 10 (me incluo nessa): barbudo, desinteressado, gostosão. Ok, ele é um pouco rude demais, confesso que isso me incomodou, pois entre o desinteresse e a falta de educação há um limite bem definido. Mas tudo bem, eu já comecei o livro imaginando que ele teria um passado sombrio (que nunca justifica a grosseria, mas eu dou uma chance do amor pra ele, vai). Inclusive, o apelido que Becca dá para ele é Chewbacca, o que eu achei sensacional: peludo, imenso e bronco.

Ao contrário do que li em umas avaliações negativas na Amazon (duas dentre 400 positivas, ARRASA, LOLA, VIADA!!), não achei que foi abrupta a transição entre desinteresse grosseiro para interesse carinhoso, de verdade. Achei muito boa. Inclusive, ele começa a ser mais educado com ela quando ocorre um evento que o relembra de seu passado ruim. Ou seja, faz sentido que ele se sinta na obrigação de ajudar Becca naquele momento que ele conhece muito bem. Não é tipo "hoje te odeio, amanhã te amo".

Becca, como já disse antes, é uma adolescente-quase-adulta. E nesse pacote de New Adult, está incluída a maior de todas as características de mocinhas de romance: ela é virgem. Mas, OPA! Não há nada de clichê na virgindade dela! Ela não “escolheu esperar”, tipo Anastasia Grey, “nunca me senti assim antes”. Ela simplesmente não quis perder tempo com namoros, afinal, ela queria ao máximo se distanciar de sua mãe, uma pessoa com óbvios problemas psicológicos, que a rejeitou desde a gravidez. Sua mãe é um pouco… dada, digamos assim, e como sempre tratou a filha que nem um lixo, Becca, que a partir de certa idade passa a ser criada pelos avós, decide ser o oposto extremo dela. Faz TODO sentido para mim. Não é uma virgindade imposta por motivos machistas, do tipo “precisa ser pura para ser uma mocinha”. É uma escolha com razões nítidas e sensatas. Eu provavelmente teria feito o mesmo que ela.

Sim, não podemos esquecer também que não há uma idade certa para se perder a virgindade, vamos ser sinceros. Respeitando os limites do bom senso em relação a faixa etária, ninguém é obrigado a entrar na faculdade transão. A vida não é American Pie. Eu, por exemplo, perdi a minha com a mesma idade de Becca. Tenho amigos que perderam com 19, com 20, com 23. Cada um com seu tempo, com suas escolhas, poxa vida.

Enfim, voltando para a história, Adônis, o professor barbudão, mexe com as estruturas de Becca, mas não de um jeito zzzzzzzzzRONC. De novo, Lola Salgado conseguiu pegar um clichê blé (aluna e professor, ODEIO, porque já rolou professor abusado pra cima de mim, então eu já associo) e transformou em algo legal! Sem a coisa do macho poderoso ameaçador, sabe? Fez uma história que tinha muito para dar errado (ao menos para mim, que não gosto dessa soma escolar-acadêmica), mas deu certo, e muito! Ponto para Lola!!

Claro que nem tudo são flores em uma resenha, certo? Não posso deixar de comentar algumas coisinhas que me incomodaram. Primeiro, o excesso de referências. Lembram da tchuca de Cinquenta Tons de Cinza? Ela não falava toda hora o “holy cow”? Então, Becca toda hora fala algo assim, mas com referências nerds: “Pelas barbas de Dumbledore”, “Pelo capacete de Ned Stark”, por aí vai. No começo, é engraçado, mas depois é meio… muito. Mas é aquilo: ela tem 17 anos, é uma nerdzona, então acho que pode fazer um certo sentido. Só acho que a autora errou um pouco a mão, sabe?

EDIT: A partir desse pedaço, a resenha falará sobre algo que a autora explicou. Vou deixar a explicação no final desse trecho pintado de cinza, ok?

Em segundo, estou até agora confusa com Adônis ter 25 anos, mas ser professor de universidade federal. Supondo que ele tenha entrado na faculdade com 17 anos e concluído a faculdade com 21. Some mais dois anos de mestrado e quatro de doutorado, ele deveria ter, pelo menos, 27 anos. A não ser que ele fizesse o doutorado-cinco-anos, sabe? Quando a pessoa pula o mestrado e acrescenta um ano ao doutorado? Aí ele deveria ter… Espera, sou de humanas. Vamos por partes:

Entrou com 17 anos (o que já é meio prodígio, mas beleza). Saiu com 21. Entrou no doutorado-cinco-anos, saiu com 26. Aí, até passar no concurso (a não ser que seja contrato), coloca pelo menos um ano aí. Isso sem considerar os intervalos, né? Você não sai do mestrado e começa o doutorado no mês seguinte. Em geral, os professores universitários têm, no mínimo, 29 anos, e se começam a dar aula nessa idade, já são considerados avançados. Afinal, o combo 4+2+4 anos é real, e são pouquíssimas (quase nenhuma) universidades que aceitam professores sem doutorado. Em federais, então... Em Letras, então!!

OBS: A autora, fofa, entrou em contato comigo e disse que a universidade em questão é uma das poucas que aceitam professores sem pós. Porém, como não somos obrigados a saber disso, ela disse que vai consertar na próxima edição. Lola é uma das minhas crushs literárias, cá entre nós. :D

Enfim, números, muitos números, eu sou de humanas de verdade, sou péssima com eles. O ponto é: não tem algo errado aí não? A minha estranheza não para aí: Adônis está com planos de fazer um troço lá (que não vou dizer para não dar spoiler), então ele está juntando dinheiro e… Espera. Ele já juntou. Uai, já conseguiu, mesmo trabalhando há tão pouco tempo como professor? Esse moço deve ter um vira-tempo, na boa!

Mais um detalhe que me desagradou um cadinho: o tamanho do livro. Não me leve a mal, adoro livros imensos. Mas acho que esse livro poderia ter sido dividido em dois. Uma duologia (melhor neologismo do mundo), sabe? Acho que a leitura seria mais fluida! PORÉÉÉÉM eu entendo totalmente a escolha da autora. Sou autora também, sou revisora e sei como o mercado editorial independente funciona. Vou explicar para quem não o conhece:

Em geral, os livros mais vendidos são aqueles chamados de oneshot: livros únicos, sem ser “duologia”, trilogia, série, etc. Muita gente tem resistência a começar um livro de série, afinal, se for ruim, a pessoa vai ficar curiosa, né? Aí vai acabar lendo vários livros que não agradam só para saciar a curiosidade. Entendo totalmente, já passei por isso e, confesso: não me animo muito com séries mais. Estou no #teamOneshot, no momento.

Além disso, há leitores malvados que dizem que duologia é uma desculpa do autor para ganhar mais dinheiro. “Partiu o livro em 2 só para ganhar o dobro!” Ou seja, o autor independente tem que ralar na boquinha da garrafa para agradar o máximo de leitores possível. Lola está totalmente perdoada pelo livro imenso.

Fora esses detalhes que me incomodaram, posso afirmar que ALA é uma história de amor muito boa e muito bem temperada! E não digo isso por cenas de sexo, não. Digo porque tem tempero! Afinal, de nada adianta o livro ter um milhão de cenas de sacanagem, mas não ter história, não ter enredo, não ter… sabor! Salsichas batendo na bochecha da mocinha não são suficientes para tornar algo palatável.

Eu acho que se uma cena está no livro sem propósito, apenas por estar, então ela é descartável. Sério. Isso vale para cenas de sexo, cenas de violência, diálogos, tudo. Se não há um propósito em narrar mil vezes as mil transas do casal, então elas são dispensáveis. Lola soube dosar isso perfeitamente. Seu livro está longe de ser um livro hot (não que seria ruim se fosse um), as cenas de love são sutis e bem trabalhadas, encaixadíssimas, com propósitos nítidos dentro da história. É um dos motivos para eu sentir sabor na história: não é só um pornô, o que é louvável, conseguir ficar no topo da Amazon sem sacanagem explícita!! É a prova de que há tempero na história!

Tomperos, tomperos!
Ao contrário do final de O Ar que Ele Respira, achei o final de ALA  muito gostoso. Muito mesmo. Mais real, mais possível do que o de sempre: largamos tudo um pelo outro, temos 7 filhos e moramos em uma casa com cerca branca. Gosto de finais sinceros, que você sente que poderiam acontecer com amigos, com conhecidos, com você. Sabe? Terminei o livro com aquela sensação de How I Met Your Mother (mas calma, o final não tem nada a ver com o da série, prometo!), de que nem toda história precisa seguir um roteiro pronto para ter um final feliz. Ele pode, sim, ser feliz e ser surpreendente! Os desejos e carreiras podem mudar, as pessoas podem amadurecer, a vida é imprevisível, e nem sempre isso é ruim. Amor é amor, independentemente de você ser CEO ou verdureiro, não?

A Linguagem do Amor é um dos melhores livros que li essa ano, uma aposta deliciosa para se ler em um dia frio, em um lugar confortável (preferencialmente a cama), ouvindo Kimbra. Espero, de coração que a Verus (que, creio eu, seja o melhor selo para o casal ChewBecca - melhor nome de ship do mundo) pesque esse livro e lance uma edição lindona, com capa fosca cartonada diva, como a capa de Os Doze Signos de Valentina e de Vaclav & Lena (ok, nenhum dos dois é do selo, mas vocês me entenderam).

Fly, Lola, fly!

Um comentário:

  1. Muito boa a resenha! Também achei meio longo! Mas a história me prendeu do início só fim! Se tiver livro físico eu quero!!! Amei! Parabéns a autora!

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