Deuses Americanos, de Neil Gaiman

|  Por Raphael Pellegrini  |

Desde que começamos com o Capitu, lá em 2013, tenho um grave problema para falar sobre certos livros. Esse é um problema comum, pelo menos aqui em casa – Clara também passa por isso –, que se resume na imensa dificuldade de falar/escrever sobre livros muito maravilhosos. Clara passou quase cinco minutos de um vídeo repetindo “Que lindo”, “Que livro maravilhoso”, “Que coisa fantástica”, e por aí seguiu. Para quem nunca tinha lido uma página de Vaclav e Lena, acredito que a gravação serviu apenas para gerar uma curiosidade cega, já que quase nada foi dito. E até hoje ela repete as mesmas palavras para se referir ao livro.

E é aí que eu entro nessa história. Domingo (28/05), por volta das nove da noite, virei a última página de Deuses Americanos, e hoje ainda não consigo produzir muito mais do que “Esse é um dos livros da minha vida. Um dos livros que quero reler todo ano. Um dos livros que tenho certeza que descobrirei algum detalhe perdido a cada nova leitura.” A sensação que ficou é que falar sobre a experiência de ler Deuses Americanos se parece um pouco com o que Neil Gaiman afirma na entrevista presente no final do livro:
“De um lado está você, e do outro estão os Estados Unidos. O país é bem maior que você. Então você tenta entende-lo. Tenta compreendê-lo, algo que às vezes, não é bem recebido... Como escritor, tudo o que eu podia fazer era escrever uma parte do todo.
E mesmo assim ela era grande demais.” (p. 573)

Deuses Americanos é muito grande, muito maior do que um texto seria capaz de dizer. 
“A melhor maneira de descrever uma história é contando a história. Entende? Alguém que descreve uma história, seja para si ou para o mundo, conta a história. É um ato de equilíbrio, e é um sonho. Quanto mais preciso o mapa, mais ele se parece com o terreno. O mapa mais preciso possível seria o próprio terreno – e, portanto, perfeitamente preciso e perfeitamente inútil. A história é o mapa que é o terreno.” (p. 515)
Por isso, pela impossibilidade de fazer o livro novamente, vou tentar produzir um mapa de Deuses Americanos. Meu mapa de emoções, de sonhos, de fantasia construídas a cada página. Como título, em caixa alta de meu mapa, escolho DEUSES AMERICANOS – LIVRO PARA ENCANTAR A VIDA. Pois é esse o objetivo do meu mapa de leitura, minhas rotas, encantar minha vida com muita fantasia. Um tipo de magia presente no cotidiano, daquela que a gente brinca com a sua impossibilidade. Seriam os trovões um efeito atmosférico ou ação de um Deus? Ou seria tudo isso a mesma coisa? 
“Um rastro de relâmpagos cortou as nuvens, e Shadow se perguntou se era o pássaro do trovão voltando para o alto do penhasco ou se era apenas a descarga atmosférica ou se as duas ideias eram, de alguma forma, a mesma coisa.” (p. 501)”
Acredito que a primeira palavra que deve ser escrita no meu mapa, logo após o título, é a palavra sonho. Shadow, personagem principal da história, caminha pelo mundo dos sonhos muitas vezes. Em diversos momentos, é nos campos dos sonhos que se dão seus encontros.
“Eu sinto como se estivesse em um momento com uma lógica própria. Com suas próprias regras. É como quando estamos em um sonho e sabemos que há regras que não devem ser quebradas, mas não sabemos quais são nem o que significam. Não tenho a menor ideia do que estamos falando, nem do que aconteceu hoje, nem de quase nada do que aconteceu desde que saí da cadeia. Só estou seguindo o fluxo, sabe?” (p. 100)
Sei, Shadow, pois foi exatamente assim que seu deu minha leitura. Não sei realmente o que aconteceu com o livro. Pode ter sido pelo fato de ler sempre antes de dormir, ou talvez porque outras forças possam agir em nós, mas um efeito constante durante essa semana de leitura de Deuses Americanos foi o sonho com o livro. Todas as manhãs acordei com a sensação de que tinha sonhado com os personagens, com a história, com alguma coisa que se ligava aquele mundo. Essa foi a primeira vez que isso aconteceu comigo, e só posso dizer que gerou uma imersão muito grande no livro. Como um fio que conecta dois pontos, foi pelo sonho que me senti permanentemente conectado na história.

Fica como “curiosidade bem curiosa” o fato que Clara começou a ler concomitante comigo a história e, na primeira manhã após a leitura, me relatou ter sonhado com algo da história. Para aumentar mais ainda o quanto isso foi inesperado, até aquele dia eu tinha guardado para mim meus sonhos esquecidos. Tinha dito apenas que estava adorando a obra e que me sentia muito conectado com a história. Quando ela me revelou ter sonhado, percebi que talvez não tenha sido apenas um delírio da minha cabeça.
“Shadow abrira e fechara a porta para o homem, e mesmo assim era incapaz de lembrar qualquer detalhe sobre ele. Ele se virou no banco do motorista e olhou para o convidado de Wednesday, reparando bem em seu rosto, seu cabelo, suas roupas, registrando tudo para reconhecê-lo caso voltasse a encontrá-lo, e se virou para a frente de novo para ligar o carro. O homem escapuliu de sua mente. Restou uma impressão de riqueza e nada mais.” (p. 143–144)
Isso foi para mim mais um indício que Deuses Americanos não é somente um livro sobre uma guerra entre Deuses. Existe muito, mas muito mais nessas mais de quinhentas páginas. Além da fantasia, pensei em meus planos, meus projetos, na energia que dedico a cada coisa que faço e em como tais coisas existem enquanto as mantemos vivas em nossos pensamentos ou ações. O próprio Capitu passou por esse movimento. Imaginei esse blog, que antes era vlog, como algo que murchou, enfraqueceu, quase desapareceu. Não entendam isso como uma comparação com os Deuses, mas para mim, isso tudo se aproxima quando penso neles como ideias, como pensamentos que ganham força e poder conforme cumprimos os ritos que os mantêm vivos. Um blog só existe se movermos energia para escrever nele, para divulgar, para pensar o espaço. 
“Deuses morrem. E, quando morrem para sempre, não há luto nem memória. É mais difícil matar uma ideia do que uma pessoa, mas, no fim das contas, ideias também podem morrer.” (p. 71)
E é nisso que o livro brilha. Gaiman traz muitos Deuses para a América. Não de uma forma forçada, apenas como mote para uma batalha, mas sim como uma forma de mostrar que os Estados Unidos são muito maiores do que se imagina. Lá, Deuses do velho continente, das Américas, da África e da Oceania dividem o terreno, as crenças das pessoas. São ideias que circulam entre o caos da modernidade.

Foi aí que me lembrei de Mia Couto e de seu trabalho com o fantástico moçambicano, com a tentativa de encantar o mundo a partir de histórias que não podem ser esquecidas. Voltei para Muidinga, de Terra Sonâmbula, para toda aquela destruição incapaz de matar uma ideia. Histórias que resistem na fé, no passado, nas identidades. 

Gaiman faz isso em Deuses Americanos. Traz Anansi, Czernobog, Anubis e tantos outros. Eles habitam os corações daqueles que habitam aquela terra. São milenares e guardam histórias mortas, ideias não mais presentes nesse tempo. Mais fantasia, mais ficção, mais uma aula de Gaiman. Quem habitava a América antes da invasão americana? 

Voltando para a trama principal, a tempestade anunciada desde as primeiras páginas é magistralmente encadeada. Quando chegamos nos últimos capítulo, as pontas soltas vão sendo conectadas, dando uma conexão quase previsível, porém – pelo menos para mim – impensada. Talvez aqueles que pegarem Deuses Americanos após a leitura de Os Filhos de Anansi e de Mitologia Nórdica consigam perceber algumas pistas largadas pelo autor sobre o desfecho.

Para mim, que fui direto para esse bonitão, o final teve tudo que eu desejava para o livro.


Sobre os truques com moedas e forma da narrativa.



Gaiman afirma no livro que a ideia inicial para Deuses Americanos surgiu com a manipulação de moedas como característica do personagem. Ainda não sabia nada da história, mas tinha certeza que aquele traço seria importante. Shadow faz mágicas com moeda, treina empalmadas, move moedas de um lugar ao outro sem que ninguém perceba. Aprende até um truque bastante interessante com um Leprechaum.

Mas por que comentar isso? Simplesmente porque, passados alguns dias da leitura, tenho a sensação que toda a história é desenrolada como um truque com moedas. 

Primeiro: uma moeda brilhante é mostrada em uma mão, sendo escondida logo em seguida. O que será que acontecerá no momento seguinte? Temos aí um conflito gerador. O mágico deverá fazer algo mágico, impensado. Mas será possível nos surpreender? Seria ele capaz de fazer a moeda desaparecer dentro de um punho cerrado sempre a vista do espectador?


Segundo: você viu a mão fechar, mas o mágico chama sua atenção, ele quer que você tire o olhar daquela mão por um milésimo de segundo. Quase como um mentos, que vai te requisitar uma mordida, o ilusionista fará você dar atenção ao que ele quer simplesmente contando uma história. A história que ele conta, o movimento com a outra mão, as expressões faciais, tudo será parte da ilusão, parte do que torna tudo aquilo mágico, porém também serão distrações para aquilo que acontece em um outro plano, naquele que somente o mágico habita.

Gaiman faz isso em Deuses Americanos. Nosso narrador não habita o mesmo plano que nós, leitores. Somos a plateia de coração acelerado que desafia o mágico a fazer algo impossível, e o narrador, nada mais é do que aquele que habita um outro plano, no qual é possível dobrar certas leis do mundo com suas palavras e gestos. Extrapola o que é possível no mundo sem violar nenhuma lei do mundo. A moeda sai da mão, e aparece, e desaparece no ar depois de um sopro forte, mantendo firme todas as leis do universo, porém sem se curvar a elas. Faz com elas e sem elas.

Terceiro: depois de vidrados no mágico, quando já prestamos toda atenção em seus gestos, sua história, somos levados a lembrar daquela moeda inicial. Afinal, quase nos esquecemos do desafio. A tempestade está chegando, a guerra entre os Deuses é iminente, mas quem são esses Deuses? E é aí que voltamos para a moeda inicial, para o primeiro encontro de Shadow com Wednesday, para Mr World, para a prisão e para Laura. 


Quarto e última passo – a revelação do maravilhoso: é aqui que o mágico faz parecer que tudo de maravilhoso aconteceu em poucos segundos, apagando todo o caminho anterior. A mágica é unir o começo ao fim apagando todo o caminho que realizamos para isso. Juntamos a imagem da moeda presa num punho cerrado com o gesto de soprar a mão e a moeda sumir. Só isso, nada mais aconteceu, mesmo que durante esse tempo estivéssemos entretidos com algo que tinha importância vital e não tinha ao mesmo tempo. (Lembre-se, os planos do mágico e do espectador são distintos, estão fora de sincronia.)

O desfecho de Deuses Americanos não é surpreendente, do mesmo modo que o mágico fazer mágica não é, mas ao mesmo tempo é. Sabemos que Gaiman não vai nos desapontar, afinal ele foi capaz de nos prender na história até aquele momento. Porém, sabemos que algo impensado vai acontecer, e não sabemos como. É aí que a mágica do escritor acontece. Ele coloca em suspensão todo o percurso, deixando em evidência o momento inicial e sua revelação final. Conecta os fios, une as pontas iniciais e finais, tirando o fôlego daquele que vê a manipulação da realidade acontecer bem na sua frente.

Por isso tenho pensado em Deuses Americanos como um grande truque com moedas, uma narrativa que tem sua forma desenvolvida de forma a seguir os passos de um bom ilusionista. O que torna tudo mais fantástico, pois constituir um livro que busca resgatar a fantasia do mundo seguindo os passos de um mágico é uma ideia genial.

Ufa! Acho que consegui escapar um pouquinho da saga "Que livro lindo!", "Lindo, maravilhoso, gostosão!", ou qualquer coisa parecida. Como disse no começo do texto, Deuses Americanos é muito grande, imenso, para dizer a verdade. Assim, esse pequeno texto tenta dar conta de alguns dos efeitos que a leitura produziu. Provavelmente, em algum momento, vou me lembrar de algo imprescindível que deveria estar no texto. Mas aí, só relendo o livro e vivendo tudo novamente. Afinal, o mais interessante de uma mágica é que mesmo sabendo que seremos surpreendidos, sempre desejamos ter vivenciar o inimaginário novamente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário