Primavera Num Espelho Partido, de Mario Benedetti

Essa resenha foi publicada no antigo blog do Capitu. Para ser bem sincero, nem sei se esse texto chegou a ganhar vida online. Estava nos rascunhos, no meio de muita coisa iniciada e não finalizada, lá em 2014. E aí, no meio disso tudo, veio a lembrança de um autor que me marcou na época. Me lembrei do coração apertado que fiquei ao ler "A trégua" e de como "Primavera num Espelho Partido" se mostrava forte num momento político que ainda estaria por vir. 

Deixo o texto abaixo com um desejo enorme de reler, de revisitar esse autor, de sentir tudo isso novamente. De retomar aquelas conexões e encontros com a literatura. 

Não poderia desejar nada de melhor para um começo de ano do que iniciá-lo com um livro cinco estrelas, e foi exatamente isso que aconteceu quando terminei a leitura dessa obra incrível de Benedetti. 

Em "Primavera Num Espelho Partido", somos apresentados a quatro personagens principais: Santiago, preso político durante a ditadura uruguaia, sua esposa Graciela, sua filha Beatriz e seu pai Rafael, todos exilados em algum país não mencionado.

Graciela é uma jovem mulher que, assim como todos os outros personagens da história, sente o peso do exílio e da distância de Santiago. Beatriz, por volta dos 11 anos, vê o pai como um herói que, por ter tantas ideias, e principalmente por serem tão boas, acabou preso. Rafael, viúvo e com seu filho preso, sente a cada dia a dor de saber que seu filho poderia estar, a qualquer momento, sendo torturado. Por mais que o pai assuma ao longo do livro que Santiago possuía uma relação mais próxima com mãe, é somente a ele que o filho faz sua principal confissão por meio de uma carta, demonstrando sua confiança no pai.

É nesse cenário, triste e doloroso, que a trama de Benedetti irá se desenvolver e nos mostrar que, mesmo massacrados por um regime político violentíssimo, ainda existe espaço para os sentimentos humanos mais convencionais, como uma nova paixão, a saudade de um velho amigo que se foi, o desejo de regressar às ruas de sua cidade natal. 

Cada capítulo do livro é narrado por um personagem. Quase em tom confessional, sentimos que aquelas palavras são ditas ao pé do ouvido, na privacidade. Nos sentimos confidentes de Rafael, Beatriz e Graciela. Quanto a Santiago, sua voz nos chega por meio de suas cartas destinadas à esposa e ao pai. Um detalhe importante é que a forma com que cada capítulo é escrito nos diz muito sobre os personagens. A escrita de Beatriz é corrida, as vezes até confusa em sua pontuação, como seria de fato o texto de uma menina de 11 anos. Rafael por sua vez é bastante reflexivo. Seus capítulos são mais longos e nos dão informações sobre sua vida no exílio. Graciela muitas vezes é mais curta e direta. Seus capítulos iniciais mostram sua infelicidade com a situação vivida, deixando no ar que existe algo além da prisão do marido que tira sua alegria.

Já Santiago é mais detalhista e nos dá informações tanto de seu presente como de seu passado. Nos conta como lidar com as memórias de modo que elas não o massacrem, como faz para controlar seus pensamentos de modo que cada um deles não torne a situação mais esmagadora do que já é.

Em todos os personagens é fácil perceber a presença pesada da ausência: ausência de Santiago, ausência da liberdade, ausência da terra natal, ausência da vida anterior. Além dos capítulos dos protagonistas, em alguns momentos quem toma a palavra é Rolando Asuero, companheiro de militância de Santiago e Graciela, que foi preso como Santiago, porém conseguiu a liberdade no exílio. 

A cereja do bolo nos é apresentada quando a voz narradora se mostra ser a de Benedetti. Sim, meu querido e amado autor vem à tona narrar sua experiência de exílio durante a ditadura uruguaia. A presença do seu discurso provoca um efeito interessantíssimo na estrutura da obra: não existe  mais separação alguma entre ficção e realidade. Os sentimentos e situações vividas por Benedetti e seus muitos conhecidos de militância são as mesmas que Rafael, Graciela e muitos outros. A presença desses capítulos que narram suas passagens por diversos países só reforça a ideia de que tudo é ficção e que todo fato será sempre mediado pela linguagem. O rompimento dessa separação foi para mim um dos pontos altos da obra.

Quanto à linguagem, não posso deixar de mencionar o maravilhoso trabalho realizado por Benedetti no último capítulo da obra, narrado por Santiago. Logo nas primeiras linhas, notamos a diferença na construção do discurso do personagem. Os períodos totalmente organizados, sem qualquer quebra de pensamento são substituídos por um discurso frenético, apressado muitas vezes interrompido por pensamentos transversais. Enquanto lemos as páginas finais da obra, sentimos que o Santiago tenta dar conta de uma simultaneidade da experiência por meio de palavras que são sempre sequenciais. Se por um lado tudo chega aos seus olhos e à sua cabeça de uma só vez, como uma grande enxurrada, seu discurso precisa seguir uma ordem, palavra após palavra, frase após frase. Nessa confusão entre simultâneo e sequencial é que Benedetti se sai tão bem, porque, apesar de Santiago não conseguir realizar tal tarefa, percebemos sua tentativa. 

     Benedetti também nos brinda com passagens encantadoras. Me apaixonei por Beatriz, com sua incrível capacidade de observação dos fatos e inteligência invejável. É dela a passagem a seguir:

"Meu avô sempre me diz que sou a mais mal-humorada da família e isso me deixa muito contente. Graciela também não gosta muito que eu a chame de Graciela, mas eu chamo porque é um nome lindo. Só quando gosto muito, muito dela, quando a adoro e a beijo e a aperto e ela diz ai pequerrucha não me aperte assim, então eu a chamo de mamãe ou mami, e Graciela se comove e fica toda derretida e faz carinho no meu cabelo, e isso não seria assim tão bom se eu a chamasse de mamãe ou mami por qualquer besteira."

Com Rafael, comemorei e me emocionei em:

"Me lembro da madrugada de trinta de novembro. Tinha dito a Lydia que não viesse. Queria ficar sozinho com meu ceticismo. Não acreditava no plebiscito, pois me parecia uma armação ridícula. Mas às três da manhã acordei com o impulso de ligar as ondas curtas. E a notícia veio como que misturada em meu sonho (que não era particularmente estimulante): o NÃO tinha derrubado a proposta dos milicos e só quando me convenci de que não se tratava de um adendo do meu sonho, mas de uma notícia real, só então pulei da cama e gritei como se estivesse no estádio e me dei conta de repente de que estava chorando sem nenhuma vergonha e até soluçando e que esse pranto não era excessivo nem ridículo e me surpreendi tanto com minha própria explosão que tentei lembrar quando tinha chorado assim pela última vez e tive que retroceder a outubro de 67, em Montevidéu, também sozinho e de noite, quando outra onda curta pormenorizou a tristeza informativa de Fidel sobre a morte de Che."

Eu poderia passar horas e mais horas selecionando os trechos que mais me chamaram a atenção, mas confesso que correria o risco de transcrever o livro todo nesse post. Por isso, prefiro parar por aqui e recomendar a todos esse livro tão maravilhoso de Benedetti. Tenho certeza que será uma leitura maravilhosa.