Arte para criar conexões - Leitura em Andamento de "A Arte de Pedir", de Amanda Palmer


Iniciei esses dias a leitura de “A Arte de Pedir”, de Amanda Palmer – para quem não sabe quem é Amanda Palmer, vale a pena jogar no Google o nome dela e descobrir um pouquinho, bem pouquinho, quem é essa mulherona. Numa linha, só posso dizer que Amanda Palmer é uma das pessoas com que eu mais gostaria de poder conversar. Pelas suas andanças, loucuras e, principalmente, coragem, Amanda Palmer é, para mim, o símbolo da pessoa que acredita na arte, vive na arte e entende a arte como conexão. Conexão com o público e conexão em unir coisas no mundo a fim de criar algo que expresse um pouco de si para os outros, convidando seu público a conhecer você.

É nessa pegada que iniciar a leitura de “A Arte de Pedir” tem mexido comigo. Como acredito que toda leitura é bem referencial – ou seja, o que chamará minha atenção no texto não será o mesmo que poderia estar em evidência para Clara, porque o texto sempre vai responder às minhas questões – as primeiras páginas do livro me fizeram pensar na ideia de conexão entre pessoas. E isso se dá por alguns motivos, que gostaria de mencionar abaixo.

O primeiro é provavelmente devido ao meu trabalho como revisor. Quando pegamos em um texto, buscamos criar uma conexão com aquele autor, com aquele narrador, com os personagens. Não é somente acertar vírgulas, ortografia ou coisas do tipo, tem todo um trabalho de tentar entender como aquela pessoa usa as palavras para se conectar com outras pessoas. Não podemos nos colocar no meio dessa relação nem interferir nela ao mexer no texto. Na verdade, buscamos ao máximo somente limpar possíveis ruídos que a atrapalhem em sua conexão. O livro é uma forma de expressão de arte, uma forma de se colocar no mundo e, por isso, precisa ser respeitado como tal. Toda interferência precisa ser pensada e ponderada antes de ser feita.

Trabalhar com autores independentes também me remete à conexão no que tange o contato direto entre artistas e público. Sim, se por um lado o autor necessita custear todo o trabalho do livro, como um editor faria – e isso não é barato –, por outro ele tem a possibilidade de escutar de seus leitores o que acharam de seu trabalho. A possibilidade de acompanhar as reações, emoções e dialogar com esse público, é, para mim, um dos motores desse nicho da literatura. Não é possível conversar com aquele autor japonês que nunca ganha o nobel, mas podemos dialogar com a autora nacional que tem uma rede social super aberta à interação. E é aí que o mercado independente tem, no meu ponto de vista, a possibilidade de lutar em pé de igualdade com a “literatura estabelecida”.

“Não existe ‘caminho certo’ para se tornar artista de verdade. Você pode achar que vai ganhar legitimidade se fizer um curso de artes, se for publicado, se for contratado por uma gravadora. Mas tudo isso é conversa mole e está só na sua cabeça. Você é artista quando diz que é. E é um bom artista quando faz outra pessoa sentir ou vivenciar algo profundo ou inesperado.” (p.47)

Conexões, é disso que Amanda Palmer fala no começo do seu livro. Como viver por anos como uma estátua de rua, como abandonar as gravadoras e lançar um disco apenas por financiamento coletivo. Como encontrar pessoas dispostas a contribuir com seu trabalho artístico em troca daquilo que você tem a oferecer: sua arte.

Se o livro já me prendeu por se conectar diretamente com meu trabalho de revisor, também me chamou atenção por tocar num dos pontos que mais tenho tentado entender no meu tempo de lazer. Adoro games, desde criança, mas, desde que tive a possibilidade de voltar a universo, noto que se tornou bem difícil criar conexões.

Estranho dizer isso, mas, em um universo que busca desde suas origens a conexão de pelo menos dois players para alcançar um objetivo, hoje é bem difícil encontrar gente interessada em dialogar de fato sobre jogos. No geral, estamos todos trancados dentro de casa, jogando online com pessoas tão desconhecidas, que elas não passam de combinações de letras representando algum personagem. Mesmo sendo uma indústria que se constituiu com um sólido pilar no jogo cooperativo, hoje é mais fácil dialogar sobre livros – um produto de consumo individual – do que sobre games.


Voltando para Amanda Palmer, é incrível o quanto essa mulher conseguiu se conectar com pessoas, sejam elas desconhecidas, sejam amigos de infância. Sua crença na possibilidade de a arte romper o isolamento da vida cotidiana e busca por criar relações entre as pessoas é algo lindo e necessário no meu mundo. Ainda estou bem no começo do livro, mais ou menos no primeiro terço, mas é uma leitura rápida que não se foca necessariamente nos fatos da vida dela. Não é uma biografia que diz o quanto ela é foda ou o quanto passou perrengue. Não se trata disso.

O livro é sobre como ela pensa a arte dela, como ela pensa o papel do artista, daquele que acredita que pode conectar vários pontinhos do mundo fazendo uma linda obra de arte. É também sobre como você deve valorizar cada interação, cada emoção, cada conexão, por mais instantânea que seja. Aquela troca é fruto de sua arte.

As pessoas botavam todo o tipo de coisa esquisita no chapéu. Eu nunca sabia o que ia encontrar no fim do dia, além da coleção de notas e moedas; era um pouco como olhar uma meia de Natal bizarra. Todos os presentes aleatórios me surpreendia: havia agradecimentos, rabiscos no verso de recibos de caixa eletrônico, pequenos desenhos que tinham feito enquanto me observavam, chicletes, números de telefone, fotos que haviam tirado de mim, frutas, pedras, pulseirinhas feitas à mão, baseados mal enrolados, poemas de amor. (p.55)

É um livro lindo, que aquece meu coração de esperança ao me fazer acredita que ainda podemos nos encontrar no mundo e fazermos alguma coisa juntos. Acho que a leitura será rápida, assim, em breve, trarei uma resenha mais completa aqui para o Capitu Já Leu.