Semana Realidades Adaptadas - O Pagamento #5


A semana Realidades Adpatadas, de Philip K. Dick, está chegando ao fim, e a sensação que fica é maravilhosa. Desde que voltamos com o Capitu, o encontro com a literatura, a possibilidade de escrever sobre os efeitos que tais textos provocam em mim tem sido cada vez mais gratificante. Textos sem a pretensão de se fazerem artigos científicos, mas sim de trazer as experiências com os livros. Por isso a semana Dick foi tão importante: foi meu primeiro desafio aqui. Surgiu como uma pergunta para mim: eu seria capaz de escrever um texto por dia? Seria capaz de falar de cada conto especificamente?

Então, para quem acompanhou a semana no blog, deu para notar que, sim, as coisas funcionaram, e eu adorei isso! Enfim, vou parar de enrolação e começar logo o texto do conto que fecha essa semana de postagens (lembrando que o livro ainda conta com mais dois contos que eu não farei resenhas para o blog – pelo menos não nesse momento.)

E o conto de hoje é... “O pagamento”.
Esse conto foi um dos mais gostosos de ler. Se O Relatório Minoritário me fez torcer por Anderton nas horas que ele achava que tinha que matar alguém, ou nos momentos que ele decidia não matar ninguém, em O Pagamento, senti como se Dick me colocasse em um labirinto e me desse como fio de Ariadne cinco pistas totalmente desconexas. Meu dever na história é descobrir como transformar tais pistas no caminho que devo percorrer a fim de escapar da situação horrorosa que me encontro.

É assim que a história começa. 

“ – Sim – disse Rethrick. – Quase dois anos se passaram. Verá que muitas coisas mudaram. O governo caiu há alguns meses. O novo governo é ainda mais forte. A PS, polícia de Segurança, tem poder quase ilimitado. Agora, nas escolas, ensinam as crianças a serem informantes. Mas era algo que todos podíamos prever: Vejamos, o que mais? Nova York está maior. Soube que estão terminando a ocupação da Baía de San Francisco.
 – O que quero saber é que diabos estive fazendo nos últimos dois anos!”  (p. 179)

Basicamente, você se chama Jennings e percebe que não se lembra do que aconteceu com você nos últimos dois anos. Rethrick, seu antigo chefe e dono de uma das maiores corporações do país, te informa que você trabalhou para a empresa em um contrato de dois anos e que, pelo acordo, suas memórias dessa época foram apagadas. Como previa o contrato, você será remunerado e terá a possibilidade, caso queira, de assinar um novo contrato quando quiser.

Tudo caminha bem, afinal, foi você que decidiu trabalhar para a Rethrick, logo provavelmente o seu “eu” de dois anos atrás achou que aquela seria uma boa forma de trabalho. Então vamos lá resgatar nosso salário e recomeçar a vida com dois anos a menos de lembranças.

Porém, como tudo estava lindo demais, o problema começa com o pagamento. Sem explicação, Jennings decidiu alterar a forma de seu pagamento durante o contrato – possibilidade permitida pela empresa. Em vez do dinheiro, Jennings recebe:

Uma chave codificada;
Um canhoto de passagem;
Um comprovante de depósito;
Um pedaço de fio delgado;
Uma das metades de uma ficha de pôquer quebrada ao meio;
Uma tira de pano verde
Um passe de ônibus.

Isso tudo no lugar de cinquenta mil créditos.

E é nessa parte que o conto te prende. Porque mesmo isso não sendo um problema tão grande assim, afinal pessoas podem tomar decisões erradas em algum momento da vida, por que objetos tão aleatórios? Que relação pode existir entre um passe de ônibus e um pedaço de fio? Como num roteiro de cartas marcadas, o conto vai te surpreendendo a cada nova situação que Jennings se mete, na tentativa de entender o que o “eu” desaparecido da memória dele queria dizer com aquela remuneração. Para piorar tudo, Jennings descobre, assim que sai da sede da empresa Rethrick, que o novo governo está em seu encalço, afinal ele era um dos principais engenheiros da empresa que o governo mais quer se intrometer. É quase um duelo entre o poder econômico e político.

Com uma polícia forte, que não possui nenhum problema moral no que toca interrogatórios mais pesados ou seções de tortura, e a ausência de memória sobre tudo que realizou na empresa, Jennings não tem muita escapatória. Se der bobeira, a polícia não o deixará vivo, já que acredita que ele esconde os segredos que ela tanto deseja saber. Voltar para a Rethrick também não é uma opção, já que, se fechar um novo contrato, somente perderá mais dois anos de vida.

Mas existem as pegadas. O pagamento não é aleatório, e é nele que Jennings se apega. Numa aventura quase ininterrupta, “O Pagamento” lembra bastante o tipo de sequência de ações do primeiro conto do livro, o “Lembramos para você a preço de atacado”. Porém aqui existe um caminho a ser percorrido, e isso fica bastante evidente para o leitor. Diferente da primeira história, na qual somos jogados de um lado para o outro sem que exista um caminho certeiro, aqui fica claro que existem escolhas certas a serem feitas.

Talvez isso seja o que tenha mais me agradadou no conto, porque essa sensação é perceptível na escrita. Se seguirmos os principais fatos que acontecem com Jennings, poderemos ver que ele está sempre naquele caminho de sair de uma enrascada para cair em outra pior, num permanente movimento em espiral ruma ao fundo do poço. Porém, diferente de Doug, Jennings tem um fio condutor que o levará para fora do poço, mesmo que a cada momento ele pareça se afunda mais.

Esse trabalho de escrita de Dick é fantástico, porque você percebe e sente a insegurança do protagonista frente aos problemas que enfrenta, entretanto nunca perde a certeza que a solução está no bolso dele, que ele conhece o caminho a ser percorrido mesmo que não se lembre de nada. O pagamento está sempre em evidência no texto, você percebe que ele vai te levar para a saída de enrascada que você se meteu, mas, mesmo assim, permaneci surpreso a cada nova forma de vencer uma situação intransponível. Talvez a forma como a história seja contada tenha sido tão bem encaixada, que me fez sentir o mesmo que Jennings: eu sei que devo fazer tal coisa, só não consigo saber o por que eu sei disso. E assim vou seguindo a um acaso guiado por alguma força que sabe exatamente o que vou fazer, mesmo que as decisões que eu esteja tomando sejam totalmente contingentes.

"Quanto vale uma chave para um armário numa estação de ônibus? Num dia, ela vale 25 centavos, no outro, mil dólares. Neste conto, acabei pensando haver momentos em que ter uma moeda para fazer uma ligação pode ser o que separa a vida da morte. Chaves, uns trocados, talvez até um ingresso para o teatro... que tal um comprovante de estacionamento de um Jaguar? Tudo o que fiz foi ligar essa ideia a uma viagem no tempo para descobrir como um objeto pequeno e inútil, sob olhar sensato de um viajante, pode significar muito mais do que aparenta. Ele saberia em que momento aquela moeda poderá salvar sua vida. E, de volta ao passado, ele pode escolher ficar com ela em detrimento a qualquer soma de dinheiro, não importa o quanto." (p. 300)

Por fim, acho que vale mencionar que esse foi um dos meus primeiros contatos com livros de ficção científica. Antes de Realidades Adaptadas, tinha lido – e amado – Eu, Robô, do Asimov, e tinha acabado de ler Gigantes Adormecidos, de Sylvain Neuvel. Esses dois títulos me impulsionaram para mergulhar na ficção científica, e o livro de Dick foi mais um grande empurrão nessa direção. Assim como O Oceano no Fim do Caminho, de Gaiman, me convidou para mergulhar na fantasia, Dick e Neuvel me mostraram que eu desejo muito essa forma de contar histórias, essas temáticas e questionamentos na forma como vivo a cada momento o mundo, mesmo que eu mesmo nem imaginasse isso. Vambora ler um pouco a vida pelos olhos da fantasia.



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