Semana Realidades Adaptadas - O Relatório Minoritário #4



Com toda e absoluta certeza que o momento me permite ter – porque talvez da próxima vez que eu leia o livro, eu possa pensar tudo diferente – esse é o melhor conto do livro. Pode ser que a impressão se dê por eu não ter visto o filme, logo, não sabia como a história se desenvolveria. O ponto é que a história me prendeu do início ao fim, me fez torcer por coisas distintas conforme ia avançando. A cada nova pista que ia recebendo do narrador, caminhava minha expectativa para um lugar diferente, ora torcendo por certo desfecho mais calmo, ora por algo mais forte. No meio disso tudo, deu tempo também para pensar nos precogs e no conto do Homem Dourado, na mutação controlada pelo homem, da ausência de escolha e possibilidade de vida desses seres. Opa, mas eu nem falei ainda do que se trata a história e o que são os tals dos precogs. 
Mas antes de avançar no texto, fica o aviso: eu tentei escrever esse texto sem dar spoilers da história. Fiz duas versões, tentei modificar tudo, mas no final, não estava ficando muito bom. Meu envolvimento com a história foi grande, e por isso não consegui avançar muito sem contar alguns detalhes que podem tirar essa sensação de inédito que tive. Entretanto, acredito que quase todo mundo viu o filme, então deixo por sua conta e risco, leitor, seguir adiante no texto.

Tudo se inicia quando Anderton, fundador da divisão pré-crime, uma instituição capaz de prever com exatidão crimes que ainda não aconteceram, evitando assim todo tipo de violência, recebe em sua divisão seu futuro assistente Witwer. Na visão de Anderton, Witwer é uma figura que visa afastá-lo da divisão, substituindo assim o velho funcionário pelo garotão. Seria tudo maravilhoso se as preocupações de Anderton fossem somente seu futuro a frente da divisão Pré-Crime. O que ele não esperava é que enquanto apresentava o local ao futuro assistente, um cartão de previsão fosse emitido por uma das criaturas responsáveis por prever o futuro. Como de costume, Anderton recolhe o cartão e lê a mensagem: Anderton irá assassinar alguém.

É a partir daí que a história faz um mergulho vertiginoso. Anderton tem certeza de que uma armação do Senado contra a divisão pré-crime está em curso, e Witwer é o responsável por operacionalizar tudo. A partir de uma previsão errada, todo o sistema desenvolvido por Anderton iria ruir politicamente, e isso era completamente inaceitável para o protagonista.

Não é difícil imaginar que a corporação se volta contra seu próprio criador, caçando-o por todo o território nacional a fim de impedir que o crime ocorra. Entretanto, Anderton tem todos os motivos possíveis para impedir sua prisão, pois se encontra num beco sem saída. Se for preso, será afastado da divisão, dando ao Senado e ao Exército o pretexto ideal para interferir na divisão. Além disso, o protagonista sabe que não deseja matar ninguém, logo aquela previsão reforça a armação realizada por Witwer.

Entretanto,

“...o sistema de três precogs tem origem nos computadores de meados deste século. Como são verificados resultados de um computador eletrônico? Pela entrada de dados num segundo computador com estrutura idêntica. Mas dois computadores não são suficientes. Se cada computador chegar a respostas diferentes, é impossível saber a priori qual é a correta. A solução, baseada num criterioso estudo estatístico, é usar um terceiro computador para verificar os resultados dos dois primeiros. Desse modo, obtém-se o chamado relatório majoritário. É possível supor, com alta probabilidade, que a concordância entre dois dos três computadores indica qual dos resultados alternativos é exato. Não seria provável que dois computadores chegassem a soluções incorretas idênticas...” (p. 149)

Seria possível forjar os cartões de previsão dos precogs? Porém, mesmo não sendo dito, existem algumas falhas na tecnologia. Primeiro que precogs são seres humanos com a capacidade de antever eventos que ainda não aconteceram. Como seres vivos, não são máquinas programadas para ler combinações de 0 e 1 (talvez nesse momento já consigam trabalhar com +1/2 e -1/2, se os computadores quânticos passarem a existir). Sério que ninguém se importa na história com aqueles seres, que são escravizados sem direito a qualquer tipo de liberdade? #boladão

Além disso, existe outro problema: para produzir o relatório majoritário, a entrada de dados da máquina deve ser a mesma. Os dados não podem ser diferentes, já que entradas distintas podem deslocar a análise para relatórios distintos. É exatamente aí que surge o problema do conto. Ao ler o cartão que sai do primeiro precog, o protagonista “insere” um novo dado, gerando com isso uma nova análise que gera um relatório diferente.

Não é de se esperar que a interferência do protagonista vá realizando efeitos em cadeia, já que ele consegue acesso aos relatórios minoritários. No fundo, não existe um relatório majoritário, mesmo que dois deles concordem com um mesmo fato. O final da situação prevista será a mesma em dois relatórios, porém devido a causas diversas. Os precogs são influenciados, reforçando que o futuro não está escrito como um livro que pode ser lido por uma mente evoluída, mas sim se constitui a partir de linhas de possibilidade que sofrem interferência direta das ações do presente. São futuros possíveis, não apenas imaginados.

“A visão de ´Jerry´ estava fora de sincronia. Devido à natureza instável da precognição, ele estava examinando uma área temporal um pouco diferente de seus companheiros. Para ele, o relato de que Anderton cometeria um assassinato era um acontecimento a ser integrado a todo o resto. Essa informação – assim como a reação de Anderton – era um dado a mais.
Ficou claro que o relatório de ´Jerry´ invalidaria o relatório majoritário. Ao ser informado que assassinaria alguém, Anderton teria mudado de ideia, não cometendo o crime. O assassinato fora anulado por sua própria previsão. O simples fato de ser informado gerou a profilaxia. Uma nova via temporal já havia sido criada. Mas ´Jerry´ era minoria.” (p. 153)

Como na mecânica quântica, que trabalha sempre na interferência do experimento pelo pesquisador – não é possível medir uma grandeza quântica sem que o próprio ato de medir altere o sistema –, a própria previsão de que Anderto cometeria o assassinato foi interferida pelo próprio ato de previsão. Quando o cartão cai na máquina e é lido por Anderton, finalizando assim o ciclo da previsão – lembre-se que para ela existir precisaria ser cifrada numa linguagem e lida por alguém – torna-se desatualizada. Anderton não desejava matar ninguém, invalidando a própria previsão. 

Não vou contar mais da história – já falei muito mais do que deveria -, mas deixo a pergunta principal sem resposta. E aí, Anderton cometeu o assassinato, como indica o relatório majoritário?







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