Semana Realidades Adaptadas - Impostor. #3




E chegamos no terceiro conto, Impostor. Confesso que esse foi o que menos me surpreendeu no livro, consegui imaginar o final lá pela metade da história e não me empolguei tanto. Entretanto, vale mencionar, o conto é bom, a história é bacana, te prende até o fim, mas... foi meio ok para mim.

Outra coisa que deu para perceber nesse conto é que além de uma das linhas que conectam todos os textos ser a de diversas realidades futuras possíveis, aqui senti o tema da segurança como um fio condutor de todos os contos até o momento. Sim, em prol de uma vida mais segura, os seres humanos vão realizando concessões e diminuindo cada vez mais suas possibilidades de liberdade. (Isso me fez lembrar de um vídeo de um sociólogo polonês, Zygmund Bauman, que falava um pouco dessa balança entre segurança e liberdade)

Enfim, deixe-me explicar essa relação. No primeiro conto, aquele em que Doug vai modificar sua memória, descobrimos que, em prol de nossa segurança, manipulações de memória podem ser realizadas, a fim de mudar nossa história. Talvez você tenha descoberto algo que não deveria, de modo que pelo bem maior, é melhor para você não lembrar mais disso. Ou morrer, essa possibilidade sempre existe também.

No segundo conto, Segunda Variedade, a segurança toma lugar na criação de diversos modelos de garras. Perdemos a possibilidade de andar pela Terra, pois em qualquer momento podemos ser destroçados pelas máquinas assassinas. Nossa liberdade é totalmente cerceada. Na verdade, nem conseguimos mais existir no planeta. Enfim, aquilo é o fim do fim de tudo.

Essa temática vai influenciar diretamente os dois contos subsequentes Relatório Minoritário e O Pagamento, nos quais os protagonistas serão caçados por regimes que buscam sempre o controle em prol de uma sociedade segura.

Mas vamos ao Impostor, conto de hoje.

Em Impostor, acompanhamos a história de Spence Ollham, líder de um grande projeto do governo na área de segurança que passa a ser perseguido pelo próprio governo simplesmente por ter morrido nas mãos de um robô alienígena, que tomou seu corpo e guarda dentro uma bomba de grandes proporções. Tal tecnologia é capaz de copiar as memórias e conhecimentos de Spence, executando assim todas as tarefas cotidianas sem dificuldade. Além disso, Spence, ou o ser que habita seu corpo, não possui memórias anteriores, logo, não se trata de uma máquina capaz de manter uma mentira. Simplesmente, a simbiose é perfeita.

- Mas eu sou Ollham. - Ele se virou para Nelson, que estava sentado diante dos controles. - Você não me reconhece? Nos conhecemos há vinte anos. Não lembra que fizemos faculdade juntos? - Ele se levantou. - Frequentamos a mesma universidade. Dividíamos o quarto. - Aproximou-se de Nelson.  

Para piorar a situação de Spence, a bomba acoplada em seu corpo pode ser detonada a qualquer momento. Para isso acontecer, basta que alguém diga uma frase específica, um código programado pelo ser invasor que será responsável pela detonação. E é a partir daí que se inicia a caçada a Spencer. O único problema é que Spencer garante que não morreu, que guarda suas memórias e que não possui nenhuma bomba dentro de si. Por outro lado, seus perseguidores reforçam que ele nunca saberia que está morto, já que a tecnologia é bastante avançada quanto a isso.

- O robô - disse Peters - não teria consciência de não ser o verdadeiro Spence Ollham. Ele se tornaria Ollham na mente e no corpo. Recebeu um sistema de memória artificial, lembranças falsas. Teria a aparência dele, teria suas recordações, pensamentos e interesses, realizaria seu trabalho... (p. 111)

E assim se desenvolve a história. Confesso que depois de ter lido os comentários de Dick sobre seus contos, notei que a última frase do autor sobre o conto passado explica um pouco as escolhas para esse conto. Não sei se existe alguma sequência temporal entre a escrita de “Segunda Variedade” e “Impostor”, mas ambos seguem o mesmo caminho: é possível definir o que é a natureza humana, para assim diferenciar tudo aquilo que não é? Esse é o caminho do autor nas duas histórias, e por serem colocadas lado a lado no livro, para mim a primeira eclipsou a segunda. Gostei muito mais de “Segunda Variedade” do que de “Impostor”.

Para minha sorte, esse foi o único conto que não me senti muito mergulhado na história e, logo em seguida, li o melhor conto do livro, Relatório Minoritário. Sei que pode parecer estranho – na verdade ainda não sei em que mundo estava vivendo –, mas não assisti nenhum dos filmes que surgiram a partir dos contos. Nem mesmo, Minority Report. Então, não terei como trazer comparações entre as mídias, mas podem ter certeza, esse é o melhor conto do livro.



Nenhum comentário:

Postar um comentário