Semana Realidades Adaptadas - Segunda Variedade. #2




Que conto! Essa foi a sensação quando li a última linha desse conto de Dick. Se no primeiro o clima era mais de ficção científica, daquelas que mexem com nossas memórias, e consequentemente com a nossa noção de história, nesse a temática se aproxima mais do survival horror.

Basicamente o mundo foi pro beleléu depois de guerras ultra tecnológicas. Mísseis, drones, inteligência artificial, enfim, sobrou pouca coisa viva no nosso planeta (os governos dos países restantes passaram a viver numa base lunar). De um lado, EUA, inicialmente em desvantagem na guerra, de outro, Rússia.
A história começa dentro de um posto militar americano, onde alguns militares observam a chegada de um soldado russo. A aproximação dele é estranha, afinal, quem em sã consciência iria sozinho ao encontro de uma guarnição inimiga? Além disso, a guarnição americana conta com a proteção de sua principal arma para virar o jogo na guerra, robôs inteligentes capazes de se camuflar e assassinar qualquer forma de vida que se aproxime. Isso mesmo, qualquer forma de vida, inclusive americana. Para evitar qualquer possível contratempo com fogo amigo, um dispositivo usado pelos soldados americanos inibe a ação de tais robôs. Para mim, esses pequenos destruidores de carne inspiraram mais do que um filme, acho que a The Coalition se apropriou bem desse conceito na concepção de alguns modelos de DeeBees, como no caso da figura abaixo.

Uma das coisas mais legais do jogo é chutar essas coisas pelos ares.

Dá para imaginar que uma hora essa porcaria sairia do controle, não é mesmo?

Enfim, o conflito gerador da história parte daí. O soldado russo é capturado pelas garras – nome dos pequenos robôs dilacerantes de seres vivos – e brutalmente esquartejado. Entretanto, o soldado trazia uma mensagem da guarnição russa mais próxima: um pedido de encontro com alguém da alta patete americana. Uma armadilha, um acordo de paz, o que era aquela mensagem escondia?

É a partir disso que a história se desenvolve. O que fazer com essa mensagem? Ir ao encontro dos inimigo e cair em uma armadilha, ou acreditar que algo pode estar acontecendo e que talvez seja o primeiro indício de paz?

O cenário da história é completamente apocalíptico, me fazendo imaginar um Fallout 4 mais devastado – nem imaginava que isso era possível de ser feito –, mais cinza, sujo, deformado. O que são esses robôs, até onde vai sua possibilidade de ação... Evolução? Revolução das máquinas? 

Sim, o cenário de uma revolução das máquinas está presente, principalmente porque existem no mundo algumas variedades de robôs, sendo alguns tipos bastante próximos da imagem de um humano. Homem ou Máquina? É possível dizer quem é quem? Esse foi o tema de um dos comentários do próprio Dick sobre o conto:

Nesse conto, meu tema principal - 'Quem é humano e o que aparenta ser (simulacro) humano?' - emerge de forma mais sublime. A menos que consigamos, individual ou coletivamente, ter certeza da resposta a essa pergunta, temos de encarar que, em minha opinião, é o problema mais sério de todos. Se não respondermos adequadamente, não poderemos ter certeza sobre nossa própria natureza. Eu mesmo não tenho como saber o que sou, que dirá o que você é. Por este motivo, continuo trabalhando nesse tema; para mim, nenhuma outra pergunta é mais importante. E a resposta é difícil de ser encontrada."

[SPOILER ALERT – Para ler, selecione o texto abaixo que foi pintado de branco]

[Sim, tem uma revolução das máquinas, porém com um final menos distópico e mais apocalíptico que se conecta em parte com o fim do conto "O Homem Dourado".]

Acabou sendo curioso escrever esse texto no momento que já finalizei a leitura de Dick e mergulhei de cabeça em Deuses Americanos, de Neil Gaiman. A questão central de Dick sobre a tentativa de determinar a natureza humana, para assim poder diferenciar homem de máquina, me fez pensar diretamente na seguinte passagem de Gaiman:

"Quando o avião decolou, ele pegou no sono.
Shadow se encontrava em um lugar escuro, e a coisa que o observava tinha uma cabeça de búfalo peluda e fedida, com olhos úmidos enormes. O corpo era de homem, ensebado e lustroso.
– Mudanças se aproximam – disse o búfalo, sem mexer os lábios. – Certas decisões precisarão ser tomadas.
Paredes úmidas de uma caverna refletiam a luz de alguma chama.
– Onde estou? - perguntou Shadow.
– Na terra e sob a terra – disse o homem-búfalo. – Você está onde os esquecidos aguardam. – Os olhos da criatura eram como bolas de gude pretas, e a voz era uma trepidação que surgia das profundezas da Terra. Ele tinha um cheiro de vaca molhada.– Acredite – disse a voz trepidante. – Para sobreviver, você precisa acreditar.
– Acreditar em quê? – perguntou Shadow. – Em que eu preciso acreditar?
O homem-búfalo olhou para Shadow, e se elevou até as alturas, os olhos se enchendo de fogo. Ele abriu a boca de búfalo salivante, e o interior estava vermelho com as chamas que queimavam dentro dele, sob a terra.
– Tudo – rugiu o homem-búfalo."

Com Gaiman, revisitei o começo desse texto sobre o conto de Dick, sobre aquilo que é humano. Nossos Deuses, crenças, divindades, são humanas? Ideias humanas? Fazem parte de nossa natureza? Nessa mistura de Deuses e Máquinas, e principalmente nas últimas linhas do conto – logicamente não irei contar – fiquei com a sensação que nossas ideias fazem parte de nós, de nossa natureza. Por isso o final de Dick fez tanto sentido para mim. Gaiman explicou tudo, mesmo que provavelmente nunca tenha pensado ser possível fazer isso com uma passagem de Deuses Americanos.

Para fechar esse textinho não tão curto sobre esse conto MARA, ressalto minha surpresa pela passagem de cenários de um conto ao outro, da pegada na linguagem que, se no primeiro conto ainda guarda um clima de limpeza futurista, aqui Dick nos leva para o fundo do poço, para a sujeita, a fuligem, os escombros, a escassez de tudo, principalmente de vida.

Vamos em frente no projeto, esse é apenas o segundo conto dentre os sete que compõem a obra!