Semana Realidades Adaptadas - Lembramos para você a preço de atacado. #1




Sabe aqueles roteiros cinematográficos que são quase como um caracol? Funcionam da seguinte forma: nosso protagonista encontra um problema insolúvel, mas, por sua completa sorte e astúcia, produz uma saída. Porém, assim que achamos que agora teremos uma calmaria, descobrimos que na verdade a solução encontrada desvenda um problema maior ainda, que não estava aparente em um primeiro momento. Basicamente é um tipo de roteiro expresso para o fundo do poço. Você passa o filme todo pensando, vai dar galho... Não, agora vai dar galho... Não, espera, agora não tem saída, ou seja, vai dar galho.

É nesse ritmo de problemas que percorri o primeiro conto de Realidades Adaptadas, "Lembramos para você a preço de atacado". Abrindo o livro, o primeiro texto – pelo menos para mim – tem sempre uma maior responsabilidade. Assim como a primeira música em um álbum, é a nossa primeira impressão com o livro e, como no meu caso, o primeiro contato com a escrita do autor. E sim, Lembramos Para Você A Preço de Atacado tem tudo que um bom conto futurista poderia ter.

Quase na melodia de Purity Ring, ou Nihils, aqui temos aquele futuro imaginado nos principais filmes (ou, como o próprio livro já denuncia na capa, vieram daqui tais filmes), com direito a carros voadores, casas muito inteligentes, que fazem tudo a partir de um simples botão. Além disso, um outro serviço é o grande gerador de problemas no conto: o serviço de implante de memórias. Gostaria de visitar Marte no papel de um explorador da inteligência? É simples, basta pagar uma certa quantia e você terá essa memória para sempre.

Como toda tecnologia avançada, além das memórias implantadas, ainda existe uma garantia de que sua nova aquisição será mais vívida que uma memória real, já que normalmente esquecemos detalhes dos eventos que passamos. A memória artificial não, ela permanecerá vívida na sua mente para sempre. E é nesse processo que vamos começar a desenrolar a espiral de problemas chamada Douglas Quail.

Douglas é “um pobre coitado assalariado” que deseja ir a Marte. Ele sonha com Marte, um sonho tão real, que quase sente a presença desse outro mundo. Marte é um desejo e um sonho que não passam quando acorda. As lembranças de um desejo que não aconteceu consomem sua rotina e seu relacionamento com Kirsten, sua esposa.

“ – Ouça – Kirsten agachou-se ao lado dele e falou num tom sério, suspendendo a rispidez da voz por um momento. – O fundo do oceano, do nosso oceano, é muito mais, infinitas vezes mais bonito. Sabe disso, todo mundo sabe. Alugue um braquiotraje artificial para nós dois, tire uma semana de folga do trabalho, e podemos descer e passar um tempo num daqueles resorts aquáticos. Além disso... – Ela parou de repente. – Não está me ouvindo. Deveria estar. Estou lhe falando de algum muito melhor que essa compulsão, essa sua obsessão por Marte, e nem sequer presta atenção! – Ela ergueu a voz com mais intensidade. – Deus do céu, você é um caso perdido, Doug! O que será de você?”

Não é difícil imaginar que depois da discussão no café da manhã com sua esposa, o destino de Doug seja exatamente a empresa REKORDAR S.A. Afinal, se não é possível ir a Marte de fato, por que não implantar uma memória que o faça ter certeza da viagem? E é a partir daí que a história se desenvolve, numa escalada de problemas, porque Doug guarda muito mais segredos do que se possa imaginar. Afinal, será que essa manipulação de memórias não seria capaz de esconder algumas coisas que aconteceram com você, substituindo essas vivências por outras um tanto mais comuns?

Se eu tinha dúvidas sobre o livro, a escrita de Dick ou qualquer outra coisa, esse conto foi o convite mais delicioso para mergulhar no livro e em outras obras. Na verdade, esse conto é que me motivou a fazer essa semana Realidades Adaptadas aqui no Capitu. Espero que esse texto anime alguém que está em dúvida se vale a pena dar uma chance para o autor a pegar a obra e passar bons momentos com um texto maravilhoso de ficção científica.

Se alguém se interessar, o remake do filme, com Colin Farrell no papel de Doug, está disponível na Netflix. Eu ainda não consegui assistir o filme, mas ele já está salvo na listinha dos favoritos.
Aliás, como curiosidade dessa semana Realidades Adaptadas, descobri que não assisti nenhum dos filmes inspirados nos contos dos livros. Ou seja: teremos maratona no próximo final de semana!