Mundos Paralelos, Org. Felipe Sali

Creio que já tenha contado essa história umas cem vezes para meus amigos. Tenho aquela suave impressão de que alguns reviram os olhos mentalmente quando eu abro a boca e solto a primeira sílaba de Wattpad. Mas o que eu posso fazer, se sou apaixonada por essa plataforma tão linda?

Ah, você é novo aqui, ou nunca leu nada sobre o Wattpad? Não tem problema, eu conto a história de novo. Caso você já conheça a plataforma e só queira ler sobre a resenha do livro Mundos Paralelos, pule esse textão e vá para onde tem a imagem laranja. Seu impaciente.

Rio de Janeiro, 2015. Uma amiga que mora em Brasília veio para minha cidade natal assistir algum show que nem me lembro mais qual foi (ô, memória!) e ficou na minha casa. Leitora voraz, ela vinha tentando me convencer a fazer uma conta no Wattpad, que é uma plataforma de publicação gratuita, uma mistura de Amazon com Facebook, só que inteiramente de graça, e começar a publicar meu primeiro livro, que eu vinha esboçando há anos e anos, tanto que ele já tinha mudado de forma e história várias vezes.

Depois de muita insistência pentelhística dela, topei. Fiz o raio da conta, lancei o primeiro capítulo e fui conhecer a plataforma. Mergulhei de cabeça nela, e isso foi a melhor coisa de 2015! Bem, segunda melhor, eu me casei nesse ano, então... Enfim, comecei a ler uma montanha de livros, fiz amizades, arrumei uns desafetinhos (quem nunca?) e, como era de se esperar, ao menos para essa minha amiga, eu me apaixonei profundamente pelo Wattpad.

Claro, como todo relacionamento, vez ou outra eu me estranhava com ele. Mas depois que aprendemos a conviver um com o outro, foi só amor. E o amor foi crescendo, as leituras também, as escritas se modificaram, o aprendizado foi lá nas alturas e tudo na minha vida mudou.

Sério, tudo. Eu, que na época estava no final do meu curso de Letras, totalmente voltada para licenciatura, me descobri revisora. Caí de cabeça na profissão e descobri um mundo que, até então, me era desconhecido: o mercado editorial independente. Essa descoberta foi muito louca. Existem pessoas que publicam suas coisas sem editoras?? Mas e a Van Dourada, ela realmente não existe?

Há uma brincadeira entre alguns colegas da universidade onde formei, uma piada sobre publicação de livro: o Mito da Van Dourada da Editora. Eu explico: muitos calouros entram no curso de Letras achando que o curso é a porta de entrada para conseguir se publicar em editoras gigantes, ficar rico e abrir um bar boêmio em Ipanema com o fruto de seu amor pela escrita. Imenso engano, é óbvio. Não existe uma editora que vai parar na porta da faculdade com um furgão pintado de ouro, abrir a porta e recrutar os estudantes para torná-los os novos autores Pikachus das Galáxias. Não, não, tá longe de ser por aí, e isso foi reforçado quando conheci o mercado independente (carinhosamente chamado de Indie), exatamente quando caí de cara no Wattpad (e na Amazon também, mas vamos focar na plataforma laranjona, ryca, maravilhosa que eu amo).

A plataforma é tão incrível, tão cheia de diversidade, que você aprende coisas que nunca imaginou. Os autores que se publicam lá, por exemplo, criam as mais diversas formas de serem lidos e conhecidos: sorteios, eventos, brindes, interações, grupos de WhatsApp, de Facebook, chats, listas de leituras, listas de músicas relacionadas aos seus capítulos, artes diversas, book trailers, enfim. Um monte de coisas incríveis que eu NUNCA teria bolado sozinha. E não é que eles se saem bem? A cada dia que passa, o Wattpad lança novos e novos autores que caem nas graças de seu público, ganham fãs, seguidores, nome, enfim: realizam seus sonhos de vários modos incríveis.

Mas nem tudo é buquê de flor, né? Até pouco tempo, esses autores indies eram bem ignorados por muitas editoras por aí. Com as mais diversas desculpas esfarrapadas ("ninguém vai comprar livro que já foi lido de graça" ou "o mercado digital equivale a somente 3% das vendas, sucesso nele é ser rico no Banco Imobiliário"), diversos autores tiveram seus originais recusados ou prontamente ignorados. Mas quem te disse que isso fez com que eles desistissem? Pelo contrário.

A força do mercado independente, com seus autores, leitores, profissionais (como revisores, diagramadores, capistas, etc.) foi crescendo tanto, que diversas editoras começaram a prestar um pouco mais de atenção nele. Primeiro foi uma ali, depois outra lá, aí veio aquela grandona acolá... E os autores indies foram ganhando, aos poucos, seu espaço. Poderia citar um monte de autores lançados, mas eu acabaria me esquecendo de alguém. Mas vão por mim: são vários!

Mas é o suficiente? Não, não, ainda há um bom espaço a ser percorrido e conquistado no mercado editorial brasileiro. E há esperanças de se conquistar esse mercadão aí? Ô, meus amores, e como há. O livro resenhado neste post é a maior prova disso.

Quem diria que dentre todas as editoras que já prestaram atenção nas "crias do Wattpad", como eu chamo quem publica/publicou suas obras na plataforma, uma gigantona como a Abril não só se interessaria, como chamaria um autor indie para ser editor de uma coletânea de 10 contos incríveis e diversos, todos escritos por outras crias do Wattpad? Bom, eu diria, e é com um imenso prazer que eu falo: MUNDO ESTRANHO, ME BEIJE.

Comprei Mundos Paralelos um dia antes de começar essa resenha (que foi postada no dia seguinte, o outro domínio do Capitu, o antigo, lááá no dia 30 de março). E, sim, eu li o livro inteiro em menos de vinte e quatro horas. É óbvio que eu li, gente, esse livro é uma conquista imensa para todo mundo da Geração Wattpad (e da Geração Nyah!, da Geração WidBook, LuvBook, Amazon, qualquer uma dessas!), então é claro que eu me joguei sensualmente nele. E amei, e cá estou, prolixamente feliz, resenhando essa belezura.

Vamos por partes, começando, como sempre, pela edição. Um belíssimo projeto gráfico. Capa impecável, ilustrações incríveis, cor principal divina (turquesão de responsa). Confesso que senti falta de orelha e que não gostei muito do papel. Em alguns momentos, me senti lendo uma coletânea de reportagens da Superinteressante ou mesmo da Mundo Estranho. Mais cara de revista do que de livro. Mas, olha, eu sou uma pentelha chata com essas coisas de papel, gramatura, sou uó. Não levem isso muito em consideração. Ou levem, caso sejam pentelhos chatos uó como eu. Mas admitam, vai: mó capa maravilhosa. Ainda brilha, a safada. Adoro. 

Dito isso, vamos aos contos! São, como já disse antes, dez contos de dez autores Pikachus das Galáxias do Wattpad. São eles: Rô Mierling, Felipe Sali, Lilian Carmine, Aimee Oliveira, Clara Savelli, Marcus Barcelos, Juliana Parrini, Thati Machado, Mila Wander e Chris Salles. Reconheceu algum? Claro, né? Todos autores maravilhosos, com seu espaço sexy nas livrarias.

Como o nome do livro indica, os contos todos transitam por essa temática de mundos paralelos, distintos do nosso "oficial". Essa é a coisa mais legal dessa coletânea, notar como cada autor, com sua escrita, seu vocabulário, suas escolhas imagéticas, consegue oferecer uma obra tão distinta da outra, com gêneros e temáticas diferentes. Eu, como leitora e revisora, me diverti muito tentando adivinhar qual seria o ponto principal do conto de determinado autor. Será uma distopia? Será fantasia? Romance? Opa, esse aqui tem um pouco dos dois últimos. Eita, esse não tem nenhum deles. Poxa, esse é muito adulto. Ih, esse aqui é mais leve, que bonitinho!

Os contos são independentes, não se cruzam (bom, ao menos eu não consegui cruzar nenhum, mesmo que tenha notado alguns temas recorrentes em dois ou três, como seleção genética, DNA como divisor social, enfim) e mostram escritas e criatividades muito distintas entre si. De robôs a demônios, de bugs no sistema a experimentações médicas, há um pouco de muita coisa ali, e creio que mesmo quem não curta muito essa vibe de universos paralelos, distopia, fantasia e afins (como euzinha), consiga se divertir. Eu me diverti horrores.

Destaco como meus preferidos o primeiro, Caça e Caçador, da Rô Mierling, e o oitavo, Liberdade Comprometida, da Thati Machado. Ainda que todos tenham seu charme, esses dois contos foram os que mais mexeram comigo. Ambos têm um pano de fundo um pouco distópico, onde a sociedade se quebra por razões discriminatórias. Nos dois casos, basicamente DNA. Heranças genéticas. Cor de pele. Enfim, preconceito. Opa, não é tão distópico assim, levando em conta as coisas que acontecem no nosso Mundo Não-Paralelo, não é? 

Confesso, meu lado pentelha-chata-uó, que de vez em quando abre suas asinhas e tenta dar pitaco em um monte de coisas, implicou com algumas coisinhas, algumas ausências de explicações que notei (por exemplo, como ocorria a fuga das Caças quando elas descobriam que não eram aptas a nada? E o finalzinho do conto LC tem uma alfinetada em relação à atual situação de nosso país, ou eu que viajei na batatinha?), mas que podem ser propositais. Afinal, são contos, e, em geral, a estrutura narrativa deles precisa deixar essas coisinhas no ar, né? É isso que mais me tortura nesse gênero. Me joga uma Odisseia na cara, mas não me deixa com dúvidas!

Ou deixe, na verdade, quem disse que sair da zona de conforto é ruim?

Em resumo, a seleção foi excelente, os contos estão deliciosos, a edição está linda, o preço tá bem salgado (trinta e tantos por um livro que não tem cara de livro? Bom, eu paguei com gosto, mas não pagaria se não fossem autores nacionais), e a sensação que ficou é a melhor possível. Se eu recomendo? Sim, em especial se você curte o tema. Ou se você quer experimentar coisas novas, como eu fiz. Ou somente se você quiser contribuir para a literatura nacional, acho digníssimo.

Finalizando, só mais uma coisinha. Eu tenho um sonho: ter uma prateleira na sala só com livros nacionais de autores indies que vieram do Wattpad (e seus semelhantes) e Amazon (e seus semelhantes). Até agora, só tenho uns sete (um deles, inclusive, da Thati Machado, Poder Extra G, e outro do Marcus Barcelos, Horror na Colina de Darrington), mas eu tenho certeza (e muita esperança) que, assim como a Editora Valentina deu o chute inicial lançando FML Pepper e diversas outras estão dando oportunidades aos autores nacionais, como a Faro, a Lote 42, a HarperCollins e a Record, com a Verus, a Mundo Estranho, em parceria com o Wattpad e com o Felipe Sali, ajudaram a dar uma boa escancarada nas portas e mostraram que a Geração Wattpad (ou a geração do mercado indie, ou a de autores independentes, não importa o nome que você queira dar para esta geração) existe, sim, e é forte, dedicada e talentosa. 

E gostosona. 



Intrínseca, Companhia das Letras e afins, vambora, que a bola tá com vocês!

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